12 junho 2013

amor de espanto









Não sei o que é mais engraçado
Ver fila de casais em porta de motel
No dia dos namorados
Ou rir da carência otária
Que se aloja nas caras
Vagas
Deste mundo





Hoje, meu bem, vamos, você e eu, jantar e nos exibir. Casal mais lindo não há. Me arrumo toda depilada que logo mais darei voltas para o meu amor gozar. De satisfação, espero. Ele me pega na porta de casa. Tão lindo. Um santo. De brinco e cavanhaque. Vamos indo. Mas, antes, um click para o instagram tilintar nossa cara. Todo mundo curte. Dois seres tão únicos. Tão singulares. Ele sorri. Será que irá dizer que me quer a vida inteira? A amante, a mulher, fiel escudeira? Espero que sim. Amanhã 'posto' tudo no face e mil amigas irão morrer de se amargar. Jantar. Restaurante chique. Estacionamento lotado. Ele se irrita. Eu me empino e beijo seu narizinho tão fininho. Ele é o meu deus. Conseguimos entrar. Mesa 'pra dois'. Tudo armado. Sentamos, nos olhamos, outro click e 'instagra' isto que é para o mundo ver quem somos. Meus olhos brilham na foto. Ele ainda sorri. Entrada. E, antes do vinho, a troca de presentes. Não acredito! Uma gargantilha (ou será corrente?) com dois pingentes. Nossas iniciais. Eu deliro. Agora o meu. Ele abre o embrulho florido e sorri de novo. Um relógio (caro pra caramba), e um porta-retratos com foto da gente em nossa viagem à Bariloche. Nosso amor é tão super. Mega tudo, entende? Jantamos. Eu não como quase nada porque não quero barriga pesada na hora de deitar. Saímos apressados porque o quarto é reservado (até às nove?). Que perfeito! Ele mete as mãos entre minhas pernas e eu seguro o (...) dele. Parece pedra! Sorria, amor. Outra foto. Agora no sinal. A gente no carro é sensacional. Muita gente curte a foto. Outra foto. E mais e mais e mais. Click, click, click. Tenho certeza: todo mundo é fã da gente. Chegamos. Estamos prontos. Meu celular vibra mais que tudo. O dele, não. Tão querido que até o telefone ele silenciou. Te amo demais, amor. E vou me despindo. Tudo vibra feito sino. Ele me ajuda a me despir. Maluca! Calcinha com estampa de gatinho com bigodinho e tudo. Cinta-liga. Já pensou? Tudo por você, meu bem. Fico na cama e ele me beija. Já está nu, ó deus; e todo pronto. Hoje é dia. Penso nas coisas que faremos. Ele me beija novamente e vai ao banheiro. Permaneço na cama. Ele demora. Para matar o tempo (e a ansiedade), decido arrumar as roupas jogadas. Não quero bagunça na noite de meu amor mega-super-tudo. Apanho calça, par de meias e, no meio das coisas todas, o celular mudo. Não! Nunca fui ciumenta. Não vou olhar. Mas a curiosidade mórbida me apanha. Cato o telefone com as mãos e que surpresa ver fotos de meu namorado perfeito com seu melhor amigo, os dois pelados, se comendo, amor sacana, na mesma cama de motel que hoje eu me daria inteira. Dancei de verdade. A vida não é mais bela trama. Porque quase tudo mente ou engana.




(morri)