25 junho 2013

degraus de vida









A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

(Hilda Hilst)







Uterina


Às vezes eu me sinto muito inflamada. Como se algo dentro daquilo que chamamos de alma estivesse exigindo de mim o meu olhar. Então, olho-me por dentro. E vejo o que há. Armários de vento, memórias, receios, e uma pequena criança, crescendo mais veloz que o tempo. Esta criança, de pés descalços e cabelos cacheados, ainda muito tímida para se deixar falar, me olha. Seu olhar não é interrogativo. Nada me cobra. Apenas me olha. Ficamos mudas em nosso encontro interior — a criança e eu. Sei que ela sou eu e ela sabe quem ela é. A mulher por fora maquiada, ave de duas moradas, é apenas criança brincando de silêncio dentro de tudo que é minha alma.




Letras no degrau


Morávamos em uma casa muito ampla de jardim e vários cômodos. Comíamos frutos de seu pomar. Molhávamos suas plantas e isto era motivo de tanta felicidade que passávamos horas sorrindo ao perceber que as plantas estavam contentes. E contente também estava a casa. Em seus degraus de entrada havia uma inscrição antiga. Lembro-me de ter feito várias inspeções com meus irmãos e irmãs para descobrirmos do que se tratavam aquelas palavras escritas e tão apagadas pelo tempo. E, ao lado destas, uma data — setembro de 1923. Mas os anos se passaram e meus irmãos e eu nos ocupamos de crescer. Não havia mais espaço em nossos dias para o pomar, nem para o jardim, nem para a casa. Nós sequer a olhávamos. Apenas fazíamos nossas refeições, sempre com pressa e saíamos para cuidar de nossas vidas. Eu, quase adulta, não tinha mais um minuto sequer para a casa de minha infância. No entanto, dia desses, procurando fotos de família para refazer álbum, encontrei uma fotografia nunca vista antes. Era o degrau. E as palavras inscritas estavam muito nítidas na imagem. Elas diziam algo tão simples. Como não descobrimos antes? Que cegueira é esta que nos faz relevar as obviedades? Sorri ao olhar a imagem e completei o álbum de família com a foto e a inscrição que dizia "a vida cresce ao mistério das letras nos degraus". Quem terá escrito aquilo? Desde este dia, nunca esqueço: sempre que posso, eu passo minutos observando degraus e escadarias, pedindo a deus que me reserve mais tempo para que eu valorize as entrelinhas.





Política


O país está agitado. Ainda não consegui ter uma conversa realmente efetiva sobre o assunto. Com ninguém. Porque estão todos ocupados em revolucionar. E sim, acho muito certo. É correto ao soldado marchar. Mas eu ainda quero mais, embora eu pouco entenda a respeito de política. Meu pai me critica muito por este motivo. Entendo de política o que um pássaro entende de rastejar. Nada. Aliás, entendo quando a política pesa em meus bolsos, quando a política arrasa vilas e favelas em tempos de chuva. Entendo política quando vejo moradores de rua dormindo sob viadutos. A política me surge viva nas vistas quando, ao caminhar pelas ruas, sou abordada por uma criança que, exaltada, me rouba meus pertences. Isto é política. A padaria, a lavadeira, a moça da esquina (prostituindo-se), as casas populares, a falta d'água, o salário que não paga o gasto, o rosto cansado do caixa do banco. Esta é a política. E mais. Foto do Brasil e belas praias e mulatas estampada em revista internacional; é tudo política. É algo que parece estar em nossa corrente sanguínea. Um vírus que se multiplica em desordem do norte ao sul de tudo. Eu só entendo de política com meus olhos de observar o mundo.