02 junho 2013

Isadora e o dia









Dia zen. Amanheceu tudo zen. Até pássaros eu ouvi. Ao sair da cama, os pássaros cantaram suas boas vindas. Estiquei meu corpo inteiro. Dos pés à cabeça. Relaxei. Que alegria divina, pensei. E permaneci em silêncio para que nada desfizesse meu estado zen. Tomei café. Muito açucarado. Engoli o café inteiro até que o açúcar descesse por minha garganta, adoçando ainda mais minha paz da manhã. Eu estava radiante. Precisava ouvir música, muito embora não fizesse diferença alguma. Eu já estava em paz completa e havia em mim algo musical. Cantei baixinho um mantra que um amigo me ensinou. Decidi não abrir cartas. Não era dia para cartas. Nem jornais. Nem tevê. Era dia de pássaros. Dia de estar em contato com o que tenho de mais secreto: a paz interior. Tão serena. Uma cristaleira vibrando ao vento. Era hora de cuidar da pele. Máscara facial com frescor de menta. Era tudo o que eu queria. Apliquei o produto conforme dizia a embalagem. Em círculos. Sempre em círculos. Círculos enormes. Nas bochechas. No nariz. Nunca ao redor dos olhos. E nunca perto dos lábios. Mas por quê? Cantei novamente o mantra. Em voz alta desta vez. Eu queria aplicar a máscara ao redor dos olhos. Por que fazem isto com a gente? Por que permitem que as coisas venham apenas em partes? Por que eu posso isto, mas não posso aquilo? O que há de errado com as coisas? Tentei não pensar e fixei meu pensamento no canto dos pássaros. Mas eram tantos. Desde quando há tantos pássaros pela manhã? Os pássaros pareciam histéricos. Talvez eu não estivesse mais em harmonia com eles ─ seres tão livres e engenhosos. O João-de-Barro constrói a própria casa. Mas todos os outros pássaros também constroem suas casas. Por que só falam a respeito do João-de-Barro? Por que teimam em limitar as coisas? Por que as classificam? E este creme mentolado? De que me serve? Pele macia ao longo do dia. Mas eu não quero o longo do dia. Eu quero o agora. Porque eu estou zen agora. E não sei nada a respeito do longo do dia. Agora me dei conta. Preciso estar zen. Por um minuto quase me deixei descontrolar. Não posso perder o controle. Preciso respirar. Diafragma. Vi em um programa de tevê. Um médico falava a respeito do diafragma. Um elemento vital para a respiração e para a voz. Eu nunca soube disto. Por que só agora tive acesso a esta informação? Para mim o diafragma era apenas diafragma. Não me parecia vital. Engraçado como tudo se torna maior e mais importante quando alguém o diz. Nunca dei importância a tantas coisas. Mas agora que muitos falam a respeito delas, me parece que fazem parte de minha vida. Direitos humanos, por exemplo. Eu sempre soube dos diretos humanos. Mas não imaginava que era preciso tanta lei que me protegesse ou que protegesse o próximo. Sempre achei que tivéssemos direitos por nossa própria natureza. Assim como os pássaros. E as formigas. E outros insetos. Ninguém dita suas regras, creio eu. E vivem bem, acredito. Pássaros cantam. E formigas caminham. E insetos voam ao redor das lâmpadas. São livres e têm seus direitos. Eu acho que nunca fiz uso de meu direito humano. Acho que nunca precisei. Será que tais leis determinam que eu tenha o direito de ficar zen sem que uma embalagem de máscara facial me traga a verdade na cara? Será que os direitos humanos falam a respeito de sexo? Meu deus, que bobagem a minha. Mas é claro que devem falar de sexo. Tudo parece terminar em sexo. Toda conversa, seja qual for, termina em sexo. Talvez não de forma direta, mas o sexo está lá; às vezes secreto ─ às vezes dilatado e exposto. Risinhos se encarregam de trazer o assunto sexo em cada conversa. Mas para quê? Será este o direito maior? A menta da máscara realmente refresca a pele. Mas fará efeito? Estou sentada em posição de ioga. Nunca fiz ioga. Mas acredito que isto seja ioga. Pernas dobradas, diafragma contraído e respiração lenta. Minha nossa! Será que estou morrendo? Por que estou respirando de forma tão lenta? Diafragmas param de funcionar? E meus pés estão dormentes. Minhas mãos também. Lembro-me de ter sentido isto outro dia no elevador de um prédio qualquer. Formigamentos. Eu estava praticando minha respiração budista e tudo começou a formigar. Eram apenas oito andares. Não dei atenção ao formigamento. Mas agora, aqui sozinha, ele está tão vivo. O formigamento é tudo que existe. Preciso sair disto. Por que inventei de fazer esta respiração? Não consigo falar. Não consigo cantar meu mantra. Não posso cantar porque minha voz calou. Mas como pode ter se calado se ainda penso? Eu tenho voz. Preciso apenas sair deste estado relaxado e distante. Isto não é forma de morrer. Ninguém morre ao fazer ioga. Será que morre? Certa vez li em um jornal que uma mulher havia infartado enquanto fazia ioga. Deve ser isto. Estou enfartando. Estou morrendo. Não sinto minhas mãos. Não sinto meus pés. Respiro. Preciso respirar. Vai ver foi o creme. Creme desgraçado. Ele está me matando. Ou talvez sejam os pássaros. Eles ainda cantam. Como podem cantar enquanto estou aqui, morrendo? Pássaros egoístas! Mundo dos infernos! Cheio de demônios. Meu coração está acelerado. Minhas costas estão geladas. Chegou a hora. Onde está o direito humano de morrer de forma digna? Isto não é digno. Ninguém deveria morrer sozinho. Minha voz está voltando. Mas está esquisita. Minha garganta está seca. Que há de errado com minhas mãos? Estão úmidas. Que há de errado com tudo? Estou morrendo. Percebam, seus pássaros doentios. Eu estou morrendo. E eles ainda cantam. E eles ainda vibram de alegria. Que medida de igualdade é esta? Por que é preciso que eu morra enquanto estes pássaros inúteis apenas fazem barulho? Estou imóvel. Meu Deus! Preciso pedir perdão por meus pecados? Mas que pecados? Não sou tão pecadora assim. Posso ter feito algumas coisas fora do padrão. Mas eu não sou pecadora. Aliás, creio que eu não seja. Acho que posso morrer sem isto. Eu posso morrer tranquila. Mas será que alguém morre tranquilo? Como pode isto? Se morrer é o único fim que conhecemos, se nada mais sabemos além disto, como pode alguém morrer tranquilo? Sem medo? Sem temor? Eu estou morrendo e sinto medo. Estou morrendo e ninguém me ouve. Somente os pássaros imbecis verão meu último suspiro. Deixarei meu corpo tombar. Assim está melhor. Deitada. Eu morrerei aqui, deitada neste tapete áspero e empoeirado.

Coração disparado.
Boca fechada de secura.
Garganta encerrada de voz.

Relaxo meu corpo para morrer em paz. A porta está se abrindo. Quem será? Quem está aí? Acho que consegui soltar um grito. Embora eu esteja quase morta, ainda consigo. É agora.

─ Que faz aí no chão, Isadora?

─ Estou morta, Carmelita.

─ Morta?

─ Sim, eu acabei de morrer.

Carmelita não acredita. Ela sorri. Carmelita não me socorre.

─ Diga adeus, Carmelita.

─ Adeus? O mesmo adeus de ontem, Isadora? Desista de buscar a morte, mulher. Há coisas que você pode controlar. Mas há outras que simplesmente acontecem sem comando. Entende? A morte é uma delas. Esqueça! Ainda não é a hora.

Meu corpo retorna. Aos poucos. Estou mais viva que nunca. Eu suspiro enraivecida. Há sempre alguém que me traz à tona para vivenciar o longo do dia.