22 junho 2013

mar inédito










Não estar no controle é estar no controle. Porque alguém terá de fazer a parte que você não faz. E, desta forma, se tornará seu escravo.


(Flora Conduta)







Nunca senti tanto a ausência de um corpo quanto eu sinto agora. Você me transborda. Você me entorta as vigas de minha estrutura arquitetônica moralista. Eu me levanto da cama e ainda nua me ponho a fumar na varanda. Enquanto isto, você se faz poema. Um soneto intacto me observando como se estivesse ainda o livro secreto. Mas já nos sabemos demais decorados e não há mais volta para os barcos. Sua boca sorri, mas os olhos choram. Sei das lágrimas de um homem bruto quando as vejo. Você se levanta e pega mais um de seus livros de contar história. Está severo nesta hora porque eu o observo em seu teatro. Você está lendo. Em silêncio. Embora me deseje tanto por dentro, queimando pavio curto de velas, você se isola (disfarçando-se). Eu volto ao quarto e descanso enquanto você termina sua leitura. Mas um beijo interrompe o drama (que eu faria acaso você não percebesse o quanto eu estou aqui presente e nem um pouco ausente de mim). Eu acho que estou feliz. E assim nos furtamos. Já não há mais dois corpos. Há um ser apenas. Pronome que gramática alguma gerou. Mar inédito que homem algum mergulhou. Casa antiga reinaugurada por suas mãos.