29 setembro 2013

conteúdo adulto










— Já reparou? Amor é brega. Tacky tão pra mim. Estale a língua nos dentes e diga: tacky love is. Tudo ao contrário. Assim como passar noite em claro, sofrendo de amor. Tão brega. E chorar de amor? Nem se fala. Chorar e esperar que o amor seja motivo e explicação de tudo é muito brega. Todo mundo que sofre por causa de amor deveria saber o quanto é brega se deixar passar por isso. É repetir Roberto Carlos, em vinil, até causar o primeiro risco. Imagine a cena: o sujeito ouvindo Nando Reis (que por sinal é muito bom, mas se torna brega de tanto que repete a história do all star azul), e chorando de amor. Que brega. So tacky, meu bem. É fora de moda. Escrever bilhete, pedindo esmola de amor é o cúmulo do brega. Falar mal do amor também é brega. Exagerar no gim ou na vodca, tudo por causa de amor, é extremamente brega. E rir porque o amor chegou ao fim é ultra brega. E, mais que brega, é sentir ciúme do amor que foi e que acabou. Amor é brega. Fardo que nem o diabo carrega. Sabe de uma coisa, Amor? Já era.



(Imersos)




Cansei. Ela estufou o peito e lançou as pernas sobre a mesa de centro. Pude ver o que eu não desejo. Ou desejo? Eu não quero mais falar de futilidades, ela diz. Amor é fútil? Sempre foi. Desde a idade da pedra. Você me lembra alguém quando fala assim. Assim como? Assim, tão coitadinha. Eu não sou coitadinha. Nem estou coitadinha. Chore, carpideira. Eu sei que você quer chorar. E sei que você quer que eu faça tudo por você. Você é vidente ou telepata? Eu sempre soube que você era bom com as palavras. Mas juro que nunca imaginei que pudesse ler minha mente. Sacana. Eu leio. Porque, senhorita, a sua mente é tão maluca quanto a minha. E se eu disser que não há maluquice alguma nisto? E se eu disser que somos sensatos? Ela me interroga. Eu piro. Eu calo. Odeio ser sensato. Eu já me dei a isto, ela afirma. Sou sensata. Parece até frase de comercial de banco. Parece nada porque esta não é você. E quem sou eu? Desta vez, ela me lança um olhar tórrido, escorregadio, um amor de louca e vadia. Uma fome súbita me enche os olhos. Eu a observo (da vitrine?). Frágil? Toque no produto sob sua responsabilidade. Imparcial. Nós somos, ela diz. Eu percebo que a desejo. Há tempos. Tão em mim. Ela é feminina e tem garras e dentes fortes. Eu a devoraria. "Sente-se ao meu lado. Quero companhia". Eu não preciso estar ao seu lado para ser sua companhia. Podemos estar distantes, um em Tóquio, outro em Paris, mas seremos sempre companhia um do outro. Um brinde, então. Ela ergue a taça vazia do vinho que havia. Não me contenho. A razão deixa a sala. Estou farto de me prender. Beijo de boca cerrada, com força, como se quisesse calar a mulher. Ela sorri. Irônica afetada. Odeio. Eu a adoro. O cheiro da pele, os pelos — tudo se exaspera. Tudo é a sala (e o corpo dela que se abre). Quando não há mais nada a se dizer, eu toco os lábios. São úmidos. Ela não sorri. Ela é outra mulher. Despida. Eu a descubro. Eu a conheço. Tão plena e voraz. Ela ergue o corpo e me deixa sob seus pés. Ela sorri baixinho. Deveríamos ter bebido mais vinho. Ela me despe. Estamos unidos. Abraçados. Loucos? Seios nas mãos. Inclinados a serem tocados. Eu busco o lado direito. Eu engulo o seio sem respeito algum. Sua língua encontra minha pele, pescoço e ombros. Ela se contorce. Eu a toco e me encanto. Não falo. Nós nos olhamos. Eu a ordenho. Ela me inflama. Por trás. Somos acrobatas. Ela não vence a batalha. Mas também não foge. Eu estou imerso. Dentro. Estou íntimo de tudo que tanto venero. Ela se transforma, como se dançasse, como se morresse. Ela me fere com as unhas. E não há gemidos mais doces. Eu a ouço. Frenéticos estamos ao som do vento que entra pela janela. Só há nós. Só há ela. O corpo vence o que a mente tentava controlar. Esperma. Deito no chão. Eu me deixo abater, embora não me sinta cansado. Ela se deita ao meu lado. Ela sorri. Você é a minha companhia. E você é líquida, eu assumo. E você é bruto. Quem diria. E deus repousa absoluto sob sua obra ao término do dia.