13 setembro 2013

substituindo ulisses








amor é Dostoiévski na
roleta

(bukowski)







Ulisses foi embora. E pela porta da frente. Ele ainda sugeriu um aperto de mãos. Eu concordei. Apertamos as mãos e selamos o fim. Agora eu preciso de um plano extra. Mas como? Ruim é acostumar-se. Ruim é amar. Eu sempre soube disto. Mas sou louca e amo sempre de novo. Ulisses me marcou. Sabe aquele ferro que queima a pele dos bois? É isto. Ulisses me marcou profundo. Além disto, me ensinou a ser o que detesto: racional. Por isto estou contando a história. Se fosse em outra época, no tempo em que eu pagava para alguém me ferir só para fazer meus dramas, eu estaria ouvindo a mesma música, várias vezes, e chorando até desidratar. Mas não estou chorando. E isto me preocupa. Terei me tornado a cópia fiel de Ulisses? Terei me tornado racional, tola, imbecil, sacana e, ainda assim, consigo me sentir feliz? Agora eu vou em busca de outra peça. Já que ele, Ulisses, sempre dizia que amor é xadrez, preciso de outra peça. Estou substituindo Ulisses. E não é preciso que seja por outro homem. Farei, como me aconselhou um amigo, um curso de crochê. Eu sempre quis fazer curso de crochê. Por que adiei tanto? E farei também ioga. Dizem que ajuda a melhorar a postura. Cansei de meu andar corcunda. Cansei de dor nas costas. E irei visitar velhinhos em asilos. Farei isto. Bem melhor do que esperar que alguém venha e preencha a vaga deixada por Ulisses. Eu preciso dizer que senti que o fim estava perto. Todos os relacionamentos que tive (com exceção, é claro) a coisa sempre atolou após a escolha da música. Sabe aquela coisa de escolher música do casal? Pois é. Ulisses e eu havíamos escolhido a música. Sempre que nos beijávamos, ouvíamos a música. Sempre que a gente fazia aquilo (sexo, mas ele preferia dizer amor) a gente ouvia a música. O ruim é que adoro a banda que toca a música. Mas, como manda o figurino, vou ter que parar de ouvir a tal canção de nós dois. Porque eu não gosto de remoer coisas. Aliás, não mais. Acho que isto faz parte de uma questão muito minúscula de nossas vidas: amar até que chegue ao fim. A gente ama esperando que um dia tudo acabe. A gente ama esperando a alma em troca. A gente ama se protegendo contra o corte. Ninguém sangra e ninguém explode. Agora me tornarei macrobiótica, budista e chega de amor em minha vida. Substituo Ulisses por mim mesma. E que bela escolha! Volto para minha bolha de viver reclusa e absoluta em meu estado sólido de caracol soldado. Até que a vontade me corrompa novamente e eu saia à caça, substituindo Ulisses por um belo animal da mesma raça. Acho que me tornei racional. Ou terei me tornado mulher finalmente?