20 outubro 2013

o cara da Lucélia
















Ela se ergueu. Era a estátua da liberdade. Só que sem liberdade alguma. Vestia jeans. E calçava salto alto agulha que perfura olho. Bateu com as mãos na mesa. Bem assim, sem elegância. Batom borrado de beijo nenhum e cara maltratada de pé na bunda. Gritou com o garçom. Gritou com todo mundo. Pare esta merda de música! Toda gente se encolheu na mesa. Vergonha é carregar bêbada, pensei. E lá se foi a mulher ao palco. Uma palhaça encharcada de vodca. Bateu no microfone. Tum. Tum. Tum. O incrível foi ter visto que ninguém a deteve. Ela se instalou no palco, sentou em um banquinho e berrou: Cale a boca todo mundo porque eu vou falar de homem. E o pior é que todo mundo calou a boca (mesmo). O silêncio só fora preenchido pelo tilintar de copos e alguns sussurros vindos do balcão. Lucélia estava louca. Daí começou. Homem é tudo igual? Que vocês acham? É tudo artigo da mesma loja? Papo cansativo, Lucélia, pensei. Cale a boca, ela gritava. A echarpe cor de rosa mulherzinha pendia torto em seu corpo. Eu vou falar do meu homem. Ele é um traste. E ria a Lucélia. Filho da mãe que o pariu. Não digo palavrão com mãe porque não gosto. Mas vou usar palavrão pra falar daquele porra. Homem fresco. Sabe qual foi a última dele? Tá doentinho dos nervos, estressado, precisando de tempo para pensar. Pensar em quê, seu merda? Eu vivo estressada e não paro pra pensar. Eu não tenho tempo pra pensar, seu idiota. O ar ficou pesado, embora alguns ainda se atrevessem a rir da performance de Lucélia. Daí que ele me liga às duas da tarde: só liguei para saber se você está bem. Como assim só ligou pra saber se estou bem? Que merda é esta? Não preciso de ninguém me ligando pra saber se estou bem. Eu preciso é de você, seu louco. Homem é tudo merda. O que faz com que um cara pense que mulher precisa de ligação que traga conforto? Conforto eu tenho é do meu travesseiro. E mais. Você é dramático. Todo homem é. Será que é culpa das mãezinhas que mal cuidaram deles? Espera. Espera. Não posso falar das mães porque sou mulher. Eu sou mulher. E bato no peito. O cara vem de conversa durante um mês. Aí marca encontro. Aí me convida pra um café. E lá vou eu, a tonta. Do café, a gente passou ao beijo na boca e, do beijo na boca, preciso dizer? O cara se enfurnou em minha casa. Até escova de dente levou. E eu lá, aguentando merda. Digo uma coisa: homem que leva escova de dente não presta. O melhor homem é aquele que usa a escova da gente, entende? Sem frescura. Odeio frescura. A gente se vicia nessa coisa de ficar junto. Eu me viciei. Mas poxa, tinha de ser por uma porra de homem tão complicado? No começo ele era tudo. Todo certo. A gente não parava de se amar. Daí começou a complicar quando ele passou a receber telefonema da família. Todo dia era um problema. E ainda me pedia: posso atender ao telefone lá fora? Comecei a ficar puta. Olhe aqui, homem que não compartilha da vida, não merece cama, filha. Tá ouvindo? Ele passou a dar uma de complicado. Com aquele blablablá típico: porque eu já fui casado (nunca te disse?) e a minha ex é um tanto vingativa, me distancia das crianças (mas você tem filhos?) e eu ando meio confuso. Foi aí que eu disse: pare o mundo. Como fui me envolver com esta coisa atrofiada por um casamento e ainda com papo de estar confuso? O cara tem 40 anos, gente. O cara passou dos trinta e se sente confuso? Alguém me explique, faz favor. E não é porque estou de pileque, não. É revolta suffragette. Eu quero meu direito de volta. Não sei do que estou falando, mas estou. Depois de dizer que estava confuso, ele veio dizer que esperava minha compreensão. Ô, seu filho da mãe, não sou psiquiatra. Quer compreensão, procure uma freira, um monge, um terapeuta. Procure alguém que minta. Eu não sei compreender confusão porque comigo é tudo simples. Preto no branco. Ou é ou não é. E o cara saiu de casa. Ontem. Saiu ontem. Me pediu pra ouvir a nossa música. Dire Straits (tunnel of love). Vou ouvir porra nenhuma. Vou quebrar aquela porra de pen drive. Vou apagar tudo. Silêncio. Alguém se aproxima da Lucélia. Este alguém sou eu. Lucélia, desça já daí. Você está se passando. Me passando?, ela gritou. Você não sabe de nada. Eu me passei hoje. O dia inteiro ligando e ligando e pedindo perdão por algo que nem fiz. Eu me passei hoje. Fiz papel de idiota. Por isso vou encher a cara e quem quiser que me aguente. Lucélia, o segurança vai te botar pra fora. Segurança? Pois que ele venha. Me bote pra fora, segurança. Quero só ver se este segurança tem atitude. Não conheço nenhum homem que tenha atitude. E ela falava assim, tudo muito alto, estridente. Muito bêbada. Não aguentei a cena e liguei para o tal cara-motivo. Vasculhei a bolsa da Lucélia e peguei o celular dela. Procurei algum rastro do cara. Nem o nome eu sabia. Mas achei. Muitas mensagens enviadas a um tal de Amor. Amor, Lucélia? Que clichê! A Lucélia surtou. Liguei. Oi. Você pode vir aqui? Tá, você não me conhece. Sou amiga da Lucélia. Estamos no pub 22. Te agradeço. Lucélia continuava a berrar e eu pedi um tempo ao segurança, dizendo que a ajuda já estava a caminho. E havia gente aplaudindo, gente rindo, mulher concordando, homem bancando a bravata. O bar era o caos. Tudo por causa do cara da Lucélia. E o celular toca. Onde você está? Estou ao lado do palco. Não vê a Lucélia? E daí que vejo uma sombra se aproximando, se formando no meio das vozes e cores, e dando as caras. Ivan? Marília? Não sabia que vocês eram amigas. Entrei em choque. Então você é o cara da Lucélia? Deixa eu te explicar, Marília. Fiquei tonta, roxa, sem ar. Tudo me faltava. Olhei bem na cara do Ivan e não me detive: Subi no palco. E logo éramos eu e a Lucélia falando mal do cara da gente. E bebendo e recebendo aplauso. Não me lembro de como terminei a noite. Mas de dia, de ressaca, me deparei com as malas do Ivan na porta de casa. Deitada estava, deitada permaneci. Amor é palhaçada. Entendi.