19 outubro 2013

o ser da casa










Tenho dores ancestrais e meus ardores migram de um extremo a outro de meu corpo que é vasto. Doente de minhas ausências, eu causo incoerência aos conhecidos e, aos desconhecidos, desinibido se expande meu mistério. O segredo de meus demônios somente aos estranhos eu os entrego.


(castidade)







Mesa de jantar. Cesto que enfeita a madeira rústica. Porcelana e palha cobrem a mesa que oferta nada. Sentadas no sofá, almofadas. Talvez conversem. Mas a respeito de quê elas falam? A luminária apagada indica que a luz do dia existe para que nada de artifício a sacrifique. No varal, toalhas e lençóis recebem o vento de bom grado. O pão fatiado, não mordido, ainda quente, recebe olhares de fastio. A geladeira aguenta o vinho aberto, envelhecido, vinagre de ninguém beber. Armários escondem talheres e floridos copos descartáveis acaso haja festa, embora celebrar nunca seja preciso. Há tantos motivos. Papéis de presente guardados para embrulhar lembranças aos que aniversariam, sobre a escrivaninha há cartas escritas endereçadas aos que não usam palavras, nem caras, nem servem de visita. O amor dorme no sepulcro interior da morada. Janelas cortam o cenário. Muro pela metade, flores enquadradas, brisa entrecortada. A porta arregala os olhos para expiar o que há fora deste santuário de silêncios plenos e uterinos. Casa e mãe se formam e o ser caminha em antiga cerâmica, busca afazeres, canta em voz alta, dança o corpo em movimentos etéreos de tão celestiais. A cama, ornada por bela colcha, atrai o ser para o sono de esquecer tempos. Mas há relógios que lembram. Há planos que falham. Há vozes que exigem. Há obrigações que rugem. Há tudo na casa que montamos. Com nossas próprias mãos nos aprisionamos. E sorrimos ao rever as fotos. O álbum, amarelado e antigo, está sempre aberto no sorriso mais desbotado, embora colorido. Toda casa protege o ser mais perigoso que existe: a embrionária fome de alimentar resquícios. 










Um comentário:

Aline Gouveia disse...

"Com nossas próprias mãos nos aprisionamos." Tão verdade quanto "destruímos a ponte que nós mesmos passaríamos. Amei o texto. Como sempre.

BeijO, Vizinha. :)