14 outubro 2013

o telefonema









Alô! É Deus? Ele pode atender? Não, não é urgente. Só quero mesmo fazer uma pergunta. Se você pode resolver? Olha, mas é só com Ele mesmo. Pode ser? Não me incomodo não. Fico na espera. Cadê a lista? Onde coloquei a lista? O rapaz procura no bolso a lista enorme de perguntas. Onde coloquei a lista? Alô! Deus? Pois não? Você é Deus? Sou eu. Pode falar. Poxa, que alívio! Pensei que Você não iria atender. Aliás, desculpe. Pensei que o Senhor não iria atender. Mas por que pensou isso? Porque você é Deus e já ouvi dizer que Você vive ocupado. Perdão, o Senhor. Não precisa pedir perdão. Mas é porque o Senhor é o Senhor. Não posso chamar o Senhor de você. Ou posso? E por que não? Porque está em todos os lugares que o Senhor é o Senhor e não um simples você. Mas eu sou eu, deus disse. Eu sei que você é você. Aliás, o Senhor é você. Posso tirar uma dúvida, então? Claro que sim. Eu posso parar de usar letra maiúscula quando me refiro ao Senhor, aliás, você? Porque até no meu pensamento eu sempre me refiro a você em letra maiúscula. Isto complica tudo pra mim, entende? Mas por que usar maiúscula? Quem falou pra você essa coisa de letra maiúscula? Bem, acho que está na Bíblia, que também se escreve com maiúscula. Na bíblia? É. E os padres também dizem. E os pastores. Minha mãe, que é muito devota do senhor, sempre me corrige quando escrevo deus em minúsculas. Bem, meu filho, isto é questão de escolha. Se você quiser usar maiúscula, pode usar. Se quiser usar minúscula, fique a vontade. Isto tem a ver com o livre arbítrio? Não. Nada tem a ver com o livre arbítrio. É só questão linguística mesmo, disse deus, explicando ao rapaz que não fazia diferença a 'minusculização' ou 'maiusculização' dos nomes. É tudo questão da vontade de quem fala, meu rapaz. Ótimo. Então posso chamar você de você? Pode sim. Faça como quiser. Mas e o pecado? Esta questão de eu fazer o que eu quiser tem a ver com algum pecado? Pecado? Claro que não. Isto tem a ver com liberdade de escolha que, inclusive, não é pecado. Então é livre arbítrio, deus? Menino, por que você fala tanto em livre arbítrio? Porque me disseram que ele existe, deus. Toda hora dizem isso. Livre arbítrio isto, livre arbítrio aquilo. Entende? Deus apenas balbuciou um sim como se já estivesse cansado do assunto. Estou incomodando, deus? Ainda não, meu filho. Pode falar. Aliás, por que me telefonou mesmo? Porque tanta gente diz que consegue falar com o senhor (você) que peguei o telefone e decidi ligar. Não. Estou mentindo. Há tempos penso em ligar. E fiz até uma lista de perguntas, mas eu perdi a lista. Eu pensei que tivesse colocado no bolso, mas não está. E não me lembro de todas as perguntas. Não consegue se lembrar de nenhuma pergunta?, deus indagou. Lembro vagamente. Mas a principal era a respeito dos pecados. Que há com os pecados? Não sei. Todos falam que tudo é pecado. Ou quase tudo. Me diga, rapaz (falou deus de forma muito paciente), o que é pecado para você? Eu não sei. Por isso eu liguei. Bobagem, né? Pecado é tão óbvio, disse o rapaz, magricela e de cara rosada. Pecado é tudo que é errado. Eu não diria isto, falou deus. E o que você diria? Bem, eu diria que aumentaram um pouco a história. A bíblia está errada, deus? Não, não está errada. Mas não está completamente certa. Como assim? É uma parábola? Não, rapaz, nada de parábola. E por falar em parábola, eu nunca mais usei esta palavra. As pessoas ainda usam muito? Você não sabe, deus? Claro que não. Mas dizem que o senhor sabe de tudo. Menino, eu até poderia saber de tudo, mas já passei desta fase. Hoje peço apenas um boletim diário ou semanal. Quer dizer que o senhor não fica perto das pessoas o tempo todo? Bem, se eu ficasse ao lado das pessoas o tempo todo, como elas iriam viver? Isto seria invasão de privacidade, não acha? E deus continuou. Eu não posso interferir. Então é livre arbítrio. Homem, largue dessa história de livre arbítrio. É só a vida mesmo. É liberdade. Eu, embora seja dito como o criador de tudo e onipotente e tudo mais, também tenho minha vida. O senhor tem vida? Mas é claro. Tenho minhas coisas a fazer. Um exemplo disso é que agora tenho uma reunião com alguns amigos e estou aqui com você ao telefone. O senhor tem amigos? Eu tenho sim. Por quê? Você não tem amigos, rapaz? Bem, eu tenho. Mas eu sou normal. Sou apenas um cara qualquer. Você não. Você é deus. E ser deus faz de mim um ser solitário e sem amigos? Não acha que isto seria ruim para mim, viver isolado, sem ninguém pra conversar? Mas Jesus não está ao seu lado? Jesus aparece de vez em quando. Mas ele tem coisas a fazer também. Eu não me intrometo na vida dele. Cada qual, cada qual. Entende, rapaz? Mas me disseram que ele estava sempre ao seu lado. Quem disse isto? Todo mundo, oras. Me diga uma coisa, rapaz, você aguentaria alguém ao seu lado o dia inteiro? E você seguiria alguém o tempo todo? Isto é perseguição. Que estranho, deus. Sinto como se tudo que sei ao seu respeito estivesse errado. Eu não diria que está errado. Diria apenas que me distanciaram da realidade. Que realidade? Humana, oras. Se muitos insistem em dizer que fiz todo mundo minha imagem e semelhança, por que me colocam como se eu fosse um senhor em letra maiúscula, vingativo e severo? Nesta você me pegou, deus. Vou precisar pensar a respeito pra responder esta. Então pense, rapaz. Pense e, quando me ligar de novo, me diga. Fiquei curioso. Mas o senhor não pode ler a mente das pessoas e descobrir o motivo? Ler a mente? Que acha que sou? Um mágico? Um telepata vidente? E mais, eu não gosto de invadir a privacidade de ninguém. Eu já disse e repito. Eu nem penso em ler mentes. Poxa, pensei que o senhor lesse. Não leio não. Olha só, agora preciso ir. Estão me chamando. Conseguiu se lembrar de alguma pergunta da lista que fez? Não, senhor. Não me lembrei de nada. A conversa fluiu tão bem. Ótimo. Fico feliz. Então você pesquise para mim essa questão de todo mundo me considerar severo, ok? Isto me chateia muito. É falso testemunho, deus? Pare de usar linguagem sacra, rapaz. Bem, tenho mesmo que ir. Diga a todos que não sou nada disso. Vou tentar dizer, deus, mas acho que não irão acreditar. É este o problema, meu filho, o acreditar. Pessoas acreditam no que precisam acreditar. Daí elas criam histórias e passam de geração a geração. Este erro eu não posso reparar mesmo. Já cansei de tentar mostrar o caminho. E você sabe como são os homens e as mulheres. Eles, quando querem algo, vão até o fim querendo. Bonito isso, deus. Vou anotar. Anote, rapaz. Agora preciso desligar. Ligue novamente semana que vem. E ligue a cobrar, okay? Okay, deus. Você é muito gente boa. Mas é claro que sou. Disto muito me orgulho. Mas orgulho não é pecado, deus? Pecado, rapaz, é achar que tudo está errado. E só. Agora vou. Muito obrigado, deus. Agradeço mesmo. Foi um prazer. O magricela desligou o telefone e sentindo-se feliz. Afinal de contas, percebeu que, para falar com deus, não havia mistério. Porém, decidiu ficar calado a respeito da conversa. Do contrário, todos o chamariam de louco. O rapaz estava mais que satisfeito com o que ouvira. Esperaria, então, a próxima semana para ligar de novo e, após pensar, decidiu que, em sua próxima ligação, não usaria lista de pergunta. Percebeu que deus, embora digam o contrário, é um cara bom de conversa, muito aberto e mais que bacana.