24 novembro 2013

vias de fato

















Ontem, enquanto a manicure me fazia as unhas (coisa típica de mulherzinha), percebi uma mulher que estava no salão de beleza. Uma mulher aparentemente jovem. Uma mulher bonita. No entanto, algo em sua beleza estava corrompido. Era seu olhar que estava muito triste. Olheiras cercavam seus olhos. Sua boca estava curvada como se uma tristeza lhe tirasse o prazer de todo instante. E a mulher ostentava um enorme aparelho celular. Gigantesco. Uma tela imensa. Colorida. Em minha ignorância, eu acredito que se tratava de um iPhone. O aparelho emitia sons semelhantes ao tilintar de sinos. A cada aviso sonoro, a mulher se mantinha cada vez mais presa ao aparelho. Ora sorria, ora encrespava o corpo, como se estivesse chateada com algo. A mulher estava vivendo sua vida através daquele objeto de alta tecnologia. O meu celular, que não chega a ser um iPhone, estava em minha bolsa. Eu havia decidido não me distrair. Que o mundo fosse apenas aquele momento: a manicure e o fazer de unhas. Porém, aquela mulher ao meu lado me chamou muita atenção porque, de certa forma, eu me enxerguei em sua atitude e na maneira como ela se detinha àqueles sons e avisos de seu celular. Meu Deus, como ela estava viva dentro daquele aparelho. E, por fora, a mulher estava morta. Sem vida. Para ela o mundo era apenas aquilo: o celular. Percebi que estava usando o WhatsApp (mas o que é isto?). Sim. Eu também uso este aplicativo e muito me custa responder todas as mensagens. Muitas vezes eu procuro não ler para não ter a obrigação de responder. Porque, às vezes, eu não estou pronta para responder. Mas a mulher estava pronta. Assim como tantas outras pessoas estão prontas. Mas para quê? Nunca estivemos tão solitários, eu penso. Nunca, em séculos, estivemos tão unidos por redes de comunicação e, ao mesmo tempo, tão apartados. E nunca tivemos tamanha liberdade de nos exibir (tanto em aparência, como em sentimentos). Isto é perceptível em certa rede social. Que é vício, admito. Até para aqueles que mal publicam palavras, ela está lá. Nós a construímos e fazemos de tudo para que o outro nos veja. O outro é aquele a quem queremos dizer algo ou mostrar que nossas vidas são maravilhosas (ou não). Eu leio o que as pessoas escrevem e tento ser cuidadosa com o que escrevo. No entanto, a armadilha é muito mais esperta que a presa. Quando percebo, eu já publiquei, eu já me mostrei, eu já estou nua diante de quem quiser ler. Nua e solitária, derramando queixas, falando mal do tempo e chamando atenção. Mas por quê? Faço perguntas tolas e conheço as respostas. Nós estamos condicionados a esta solidão quadrada como se fossemos imagens em um porta-retratos. Vejo pessoas escreverem algo que jamais teriam coragem de fazer em vias de fato. Leio ofensas, indiretas, má-criações elegantes, declarações de amor, correntes de ajuda para os famintos, poemas e vejo tantas fotos. Para quem estamos nos expondo? Teremos nos tornado cães engaiolados à espera de alguém que nos compre? Com quem estamos falando? Quem é o interlocutor de toda esta loucura? Quem estará velando nossa solidão? Muitos dizem que isto é liberdade — escrever o que se quer ou publicar o que se tem vontade. Outros dizem que é preciso que isto seja feito. É preciso que se viva cada momento de catarse. A única opinião que tenho é a de que estamos mais solitários que nunca. Em nossas casas, em nossas festas, em meio a nossos amigos, nós estamos isolados e muito ocupados em exibir fotos e cauterizar o tempo com nossos risos falsos. Penso que esta é a minha catarse. Não mandei ninguém às favas, não falei mal do vizinho. No entanto, estou me expondo apenas para dizer que de nada vale o voo de um pássaro cuja liberdade fora engolida por um simples tocar de dedos em uma tela que exibe a vida de forma que nunca será. E todo este novelo me veio à boca quando, ao término de seu tratamento de unhas, a bela mulher (aquela do olhar triste e iPhone em mãos), pediu à manicure que a fotografasse, de esmalte e batom, para publicação no Instagram. A mulher finalmente sorriu. Suas mãos seriam vistas por dezenas de pessoas que também querem ser vistas e curtidas e comentadas por outras dezenas de pessoas. E eu nada posso dizer contra isto. Pois, eu também faço parte do bando de pássaros cuja liberdade é escrava da memória ilustrada em filtros coloridos. Nunca nossa vida fora tão exposta. Nunca fomos tão vistos. E nunca estivemos tão solitários. É isto. 















04 novembro 2013

diário bordô








— Outro livro, Letícia?

— Não é outro livro.

— Então o que é isto?

— É continuidade, pensamento, palavra acumulada.

— Ou seja: é outro livro.

— Sim. Se esta resposta basta, então, é.

— O quê?

— Isto.



Não sei me propagar. Então deixo as palavras nas mãos do Eder Asa, amigo e cúmplice de crimes bárbaros e literários. Deixo que ele diga o que eu não me atrevo. Para saber mais a respeito, clique na imagem da capa.


Diário Bordô e outras pequenas vastidões é o terceiro livro que me arrisco a escrever. É um livro feito disto e daquilo e não o classifico. Prefiro deixar que ele seja lido.

Aos leitores do afeto literário, digo:

Obrigada por tudo.

Logo disponibilizarei formas de compra deste produto (sim, livro é produto). E escrever é uma das mais belas formas de vida na qual eu acredito.



Lançamento previsto para 29 de novembro de 2013.
João Pessoa.
Brasil.







Livro publicado pela Editora Multifoco.
Novembro de 2013.




02 novembro 2013

escambau











Sábado. Ou será domingo? 
Ainda não se sabe,
porque, acima de tudo que é dito,
a sempre algo a ser definido.

 (questão)




Não há mais estórias e histórias. Tudo é com H. Que seja verdadeiro ou falso, não importa mais a letra do alfabeto, tudo é o que é e não há mais jogo de esconde-esconde. Estou tentando colocar isto na cabeça há mais de (quantos anos?). Um dia você está pulando de alegria e, no outro, sem ver nem por que, você está se lastimando. Será que nos tornamos bipolares (algo que, inclusive, me leva ao fato de que todo mundo que age estranho hoje em dia se diz bipolar)? Vamos parar com esta coisa de dar nomes aos bois que nos rodeiam. Não aguento essa de bipolaridade. Ou é sol ou é chuva. Não há meio termo ou metade do caminho. Bipolaridade é coisa séria e se soubéssemos o que sente alguém que realmente sofre deste mal, calaríamos nossas bocas. E por falar em bocas, muitas falam. No entanto, é tanta promessa inválida que ainda me indago: será que alguém ainda cai nessa conversa? Eu caio. Tu cais. E ele, provavelmente, cairá. É tudo questão de verbo a conjugar. Assisto jornal, tento até me ater às novelas, porém a vida real ainda é a história mais ilusória que encontro para bordar meus enganos e construir um castelo de areia enorme no meio do oceano. Rimou? Pois é. Tudo rima, até que se prove o contrário. Estou falando de tudo e de nada porque a vida que me rodeia vem veloz e diz, em tom altivo, que cair na armadilha do inimigo é mil vezes mais belo do que se tornar alvo de mão amiga que lhe empurra para o abismo. Mas o que isto tem a ver com novela? Nada. Ou tudo. Estou na época das dúvidas explícitas que escorrem de minha língua. Eu falo sozinha e me interrompo em meio a minhas indagações. É tanto ‘por quê’ e ‘para quê’ que sequer tenho espaço para meus interrogatórios internos. Pensei que um dia eu iria largar desta mania de me fazer tantas perguntas. Eu estava enganada. A cada dia eu me torno mais e mais interrogativa. E sempre me coloco no lugar do outro para entender os motivos. E não é que entendo? É sempre mais fácil ser sacana do que ser verdadeiro. Assim como é mais fácil viver da mentira e ainda acreditar nela. Tudo isto tem a ver com novela. Ou não. Ainda confusa (odeio esta palavra) encerro esta ladainha que intitulo de escambau. Porque realmente não sei a que veio. Mas veio. E não me atrevo a não falar quando o nó aperta. Não estou ferida. Você também não está. Mas é preciso estar alerta e, no fim de tudo, sorrir de olhos abertos a esperar, morrendo de medo, que a sacanagem plantada por você retorne a quem veio.





Escambau é tudo que escondemos sob o tapete.

(enfim)