15 novembro 2013

cativa










Na verdade eu não buscava amor. Eu só queria sexo. E como doía dizer tais palavras em público. Porque meninas não foram talhadas para este tipo de exposição. Meninas eram compostas naquele tempo. Frutas tolhidas no caldo. Elas apenas fingiam ser bem comportadas e permaneciam silenciadas. Mas, por trás do palco, a sacanagem comia solta. Era velho, padre, amigo de pai, pai de amiga; todo mundo passando a mão. Meninas como eu não podiam dizer a verdade. E por que devo dizer que hoje em dia isto mudou? Mudou nada. É apenas camuflagem e esta merda de liberdade cativa de opiniões.


(Flora Conduta)







Buscando diversão? Cuidado! Há gatos pardos que não valem o gasto. Quanto custa a dose de Martini? Não pergunte o preço. Engula rápido para não sentir o amargo. Na boca, o resquício. No corpo, mãos mentirosas cheias de experiência alguma. Equívocos são talentosos em causar estragos. Veloz passo o olhar pelo cardápio. Há cara de pau em morna brasa? Resposta negativa ressabiada que não entende. A preparação para o ato seguinte é sempre a esfíncter do suicídio. Contraindo músculos e mastigando orgulhos. Dois em um que não é chiclete antigo. Tire suas mãos de mim para não agradar de princípio. E, no princípio, o que realmente havia? Mesa com jarro florido, duas taças vazias e a aterrorizante memória de um beijo. Todo beijo é único, ele dizia. Mentia tão bem quanto comia suas mulas quadradas e bronzeadas do sol de todas as manhãs. Esperava que ele dissesse sim de forma breve. Como estúpidos que concordam de forma breve. Mas não. Demorava a concordar para ampliar o instante ou para se tornar importante. Pessoas buscam o silêncio para fugir de respostas óbvias. Nunca fiz perguntas óbvias. Eu preferia o silêncio das horas contadas em milímetros de gim. Tônica a palavra explodia à noite. Você não tem talento para mentir. Você tem todo talento para mim. Combinação sem ética ou estética. Está ficando cada vez mais complicado. E toda complicação pode ser erro de cálculo. Procurar verso em livro errado, tentar medir pulos dados, contar pedras minúsculas ao invés de enxergar o fluxo do asfalto. Depois do cansaço dos corpos falidos pelo orgasmo retardado e medido, a voz redigiu no vento: há dias em que o melhor a ser feito é se deixar reger pelo acaso ou deixar que a ânsia nos devore como a culpa devasta a vida do carrasco. 










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3 comentários:

Aline Gouveia disse...

Sei lá, me parece um se esconder do mundo ou das pessoas e suas opiniões ou até de si mesmo. A falta de liberdade que você falou, é perceptível em várias partes do texto, de modos diferente e em pessoas diferentes.
E tem um q de confusão interna/ externa que te leva a não ver o que está tão nítido.
Mas chega um hora em que você precisa escolher se libertar, do óbvio, das amarras, dos tabus e dogmas, ou do amor. Meio confuso, né!?
Mas num tem jeito, seus textos sempre me gritam verdades e mexem nas minhas feridas.

AmO te ler, Vizinha.

Ingrid disse...

boa leitura e reflexão..
beijo e ótimo sábado!

Lucas - Blog: Overture disse...

A pintura em si já é emblemática: há diversão no espelho atrás de nós, mas solidão na cadeira ao nosso lado e ansiedade em nossos olhos. Será mesmo melhor engolir rápido para não sentir o amargo? O acaso às vezes rege bem, mas é preciso mentir-lhe resistência, porque a ânsia nos trai antes de nos devorar para além do que lhe permitimos.