18 novembro 2013

entre a agulha e os dedos












O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, ah, tão presa!
Esses mosquitos que não largam!
Minhas saudades ensurdecidas por cigarras!
O que faço aqui no campo declamando
aos metros versos longos e sentidos?
Ah, que estou sentida e portuguesa,
e agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
— agora sou profissional.


(Ana Cristina Cesar)








Estou com saudade. E não tenho para quem escrever isto. Ou dizer. Estou com saudade de você e não tenho a quem dizer. Isto sim é o fim da piada. Nem da picada seria. Eu poderia muito bem ligar para você e dizer que estou com saudade. Mas o que você iria pensar? Lá vem de novo aquela louca com aquelas manias. Eu também pensaria isto. Aliás, eu não sei o que eu pensaria. Eu não estou com vontade de me verificar. Não quero avaliar minhas atitudes. Eu só estou com saudade. Saudade do tipo que não desaparece. Já pensei em tentar conversar com alguém como converso com você. De início, caso eu o fizesse, já me ferraria porque eu começaria a conversa de forma torta, dizendo que me sinto maluca. E, obviamente, a pessoa (a tal que eu arrumaria para fazer o seu papel) iria dar alguma resposta óbvia. Ou tentaria me acalmar com aquele papo de que estamos todos passando por um momento difícil. E eu me arrependeria por ter tentado fingir que era com você que eu conversava e não com aquela pessoa qualquer e opaca que não conseguiria me dizer nada além do que eu já sei. Estou com saudade como se fosse coisa de criança que só dorme em casa e chora quando precisa dormir na casa de algum parente. Acho que você me entende. É saudade. Um verbete. Uma palavra no dicionário. Uma distância enorme que nós inventamos por sermos fortes demais ou estúpidos o bastante.