13 novembro 2013

manifestos










Qualquer semelhança
Com qualquer outra coisa
É pura indecência
Proposital
E lógica







Marialva decidiu fazer greve: nada de homem. Declarou. Tudo começou com uma brincadeira entre amigas. Elas falavam a respeito dos homens que são sacanas, na maioria das vezes. Na mesa de um café, na esquina de uma rua qualquer, se reuniam para contar coisas da vida de cada uma. Marialva contava seus casos, seus feitos, seus ganhos, suas brigas no trabalho, chatices do dia a dia. As outras, Ruth, Amélia, Dulce, Lígia, Vitória, Teresa e Vivi, também falavam de seus cotidianos eventos. Mas o assunto pungente, o dilacerante, a cereja no topo do bolo, era sempre HOMEM. Problemas com homens e relacionamentos. Foi daí que Marialva teve a brilhante ideia de evitar homens por algum tempo. E dizia as amigas: Vamos fazer isto e ver como eles reagem a nossa ausência. Vitória não gostou muito da ideia. Ela, que era tida como a mais tarada de todas, não passava sem homem. Precisava de homem. Vivia de homem. As outras concordaram sem reclamar. Decidiram fazer feito o jogo da pirâmide: cada uma delas iria persuadir três outras mulheres a fazerem o mesmo. E elas conseguiram. No início foi difícil. As casadas não queriam evitar seus maridos. As amancebadas não queriam largar seus mancebos. E as amantes não queriam largar seus homens. Porém, devido ao manifesto escrito pelo grupo de Marialva (Ruth, Amélia, Dulce, Lígia, Vitória, Teresa e Vivi), a coisa ficou mais fácil de ser entendida. No manifesto, que estava longe de ser um afeto feminista, elas execravam a atitude de alguns homens com relação às mulheres e concluíram que a culpa era delas. A culpa é nossa, dizia Marialva, com muita convicção. A culpa é nossa, pois nós os enchemos de vícios, de vontades, somos mães de meninos malcriados, alimentamos os monstros que agora nos engolem. As outras sempre concordavam com Marialva, embora a considerassem um tanto traumatizada e lunática. Mas eram amigas e amigas aguentam as loucuras umas das outras. Então, fora decidido, a partir daquele dia, evitar qualquer contato afetivo-físico-amoroso com qualquer homem que fosse. Maridos se enfezaram com suas mulheres e buscaram outras que, por sua vez, também haviam aderido ao movimento. Os homens, enfim, se viram em uma situação delicada: todas as mulheres da cidade e de outras cidades e de muitas outras cidades estavam fechadas para qualquer relacionamento com homens por tempo indeterminado. No manifesto estava claro: só abririam o cerco quando os homens começassem a agir da forma determinada pelos termos de número 10, 11 e 12. Tais termos determinavam como uma lei que cada homem deveria rever suas atitudes perante as mulheres. Nada de sacanagem, nada de futebol no fim de semana, nada de reunião de amigos, nada de fornicação fora de casa e(ou) fora do relacionamento. Os termos, após muito debate dos cidadãos da cidade e de outras cidades e do mundo inteiro, finalmente foram aceitos. Logo, todos os homens estavam agindo feito cordeirinhos. Eles passaram a andar na linha, não sacaneavam e não mentiam. Ou seja, era o mundo perfeito para a mulherada que andava tão decepcionada com a raça Homem. Mas toda ditadura (que era exatamente isto que o manifesto representava) tem suas rachaduras. Em uma reunião entre as mulheres, Marialva percebeu que suas amigas e fundadoras do movimento Evite Seu Homem (Ruth, Amélia, Dulce, Lígia, Vitória, Teresa e Vivi) estavam cabisbaixas e estranhas. Ao começar a reunião, Marialva questionou as amigas, que logo soltaram o verbo: Roberto parece um cachorro treinado. Ele faz tudo que eu peço. Leonardo está chato. Vive no meu pé e nunca mais saiu de casa. Eduardo parece uma lesma grudada em mim. Todas choramingavam e Marialva percebeu que todas apresentavam as mesmas reclamações. E, ela mesma, que andava as voltas com um tal senhor casado, não aguentava mais a ausência do homem que, por causa do manifesto, a largou. Acho que nós erramos, declarou Marialva. Conversa vai, conversa vem, decidiram afrouxar as rédeas e refazer o manifesto, declarando que os planos estavam falhos e precisavam de revisão. Logo, todas as mulheres da cidade e de outras cidades e de muitas cidades, se alegraram com o fim da ditadura contra homens e não perderam tempo para contar a seus companheiros que tudo havia acabado. As mulheres declararam a seus homens que eles estavam livres dos termos de comportamento. Porém, entretanto, minha nossa senhora, os homens não quiseram voltar a ser da forma como eram (antes do manifesto). Os homens se viram felizes agindo de acordo com os termos e, desta forma, trataram de criar um manifesto que proibisse a quebra do outro manifesto. Os termos e as leis seriam mantidos. E, graças a Marialva e suas amigas (Ruth, Amélia, Dulce, Lígia, Vitória, Teresa e Vivi), os homens do mundo inteiro continuaram agindo como ditavam as regras criadas por elas. E nada mais poderia ser feito. Como antes, as amigas voltaram a se encontrar no café, na mesma esquina de sempre, trazendo à tona suas reclamações diárias. Seus homens agora não passavam de marionetes sem graça. Marialva não concordou. Ela dizia as amigas: Nós criamos o manifesto. A culpa é nossa. Nós os deixamos como estão, obedientes, chatos, fieis e caseiros. Vamos reverter o quadro. Logo, as amigas criaram outro manifesto que fora rapidamente vetado pelos homens que estavam felizes, obedientes, risonhos e, sentiam-se, novamente, a cereja no topo do bolo. Outros manifestos vieram, mas tudo acabava em vão. As coisas estavam em seu devido lugar. No fim das contas, Marialva ficou sozinha, Ruth se matou, Amélia engravidou, Dulce sumiu do mapa, Lígia ficou noiva, Vitória aceitou ser monogâmica, Teresa renovou os votos de matrimônio e Vivi se conformou.












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3 comentários:

Aline Gouveia disse...

Rindo muito aqui. Texto excelente, Vizinha. E como sempre, me surpreendendo. Amei.
BeijO

Unknown disse...

Minha autora mais maluca, Bukovsky de saias... Risos!

Thales Nascimento disse...

Eu ri, viu. Como nós (homens) somos simples demais da conta. Tirem-nos o futebol e alguns pequenos e fugazes prazeres, e nosso mundo se desintegra...