02 novembro 2013

roupeiro de memórias












Amo-te tanto que poderia te matar. Mas evito a vontade. Ainda não estou pronta para o hospício. E meu amor passa. Assim como a febre em fim de tarde. Ele surge, assume o risco, caminha na beira do abismo e foge sorrindo. Meu amor não tem coragem.





Observo você, soldado íntimo. O último gerânio da estação de espinhos. O claustro que esqueceu a ordem das missas, o brinquedo quebrado nas mãos das meninas, o homem que jamais teria sido menino. Observo você à distância para que meu salto não lhe cause medo ou qualquer inútil esperança, pois meu amor não é para vingar. Ele ruge dentro de mim como o susto na hora última antes da noite apagar-se em sol e claridade. Observo você, aquele que não posso tocar porque eu não me permito. Há tempos retenho amor inteiro para neste momento dizê-lo verdadeiro. Porém, minha língua é rude, de flâmula lírica, mentirosa e cínica, meu amor não quer se dar. Por hora guardo o sentimento que é estrangeiro em meu antigo roupeiro de memórias e ao lado dele está o que de nós jamais acontecerá. Todo amor ocorrido vive o risco humano de se tornar vulgar. Meu amor está silenciado e omisso, de covardia tingido, e nada prometo a respeito disto: meu amor é feito de egoísmo. Por isto observo o soldado íntimo que, nas mãos das meninas, jamais teria se tornado o que por mim agora é visto.











3 comentários:

Aline Gouveia disse...

Texto realmente perfeito.
Falou de verdade comigo. Na verdade gritou. Gritou uma verdade que talvez só eu tenho escutado.

Eu, de verdade, amO te ler, Vizinha.
Love you.

Sonhadora disse...

Ah Coolmadre...
Como você chega assim e escreve o que eu sinto e não dou conta de dizer?
Você é perfeita mesmo!
Acho que a palavra certa que cabe a mim agora é: obrigada.

Love u.

Daniela Delias disse...

Flâmula lírica.

Um café e teus escritos aqui diante de mim. Ah, e chuva. A imensidão está mesmo nas pequenas coisas.

Beijo