19 novembro 2013

tiros de festim







Você sabe o que sente? Sei, Lívia respondeu, tão esperta quanto uma tartaruga perseguindo lesmas. O dia estava calmo. Calmaria de fim de inverno. Ou seria outono? Eu nunca sei, falou a mulher. Estou sempre sob o efeito de algum remédio. Talvez seja seu veneno, Augusto respondeu enquanto olhava pela janela. É preciso que alguém olhe para fora quando a atmosfera nos prende. Augusto fumava um charuto como se fosse um homem muito importante. Lívia o deixou sozinho, na sala, montando seus ataques. Homens estão sempre montando jogos de memória e, na maior parte das vezes, possuem artilharia fraca. Tiros de festim. E, muito embora o tivesse deixado sozinho, tão pensativo naquele fim de tarde, Lívia estava fixada nele e, por saber que ele a investigaria, querendo saber o que ela lia, largou no sofá o livro que estava marcado na página cujo conteúdo era atrevido demais para Augusto que se trancava em sua moderna mania de acreditar que dominava tudo. Lívia deixou a porta entreaberta e flagrou Augusto olhando pela fresta. Ele falou em voz alta: Iremos ao cinema? Não sei, disse Lívia. Você nunca responde de forma exata. Você nunca está certa a respeito de nada, Lívia? Estou. Quase sempre. Porém, Augusto, minha certeza prefere a dúvida e o silêncio que atormenta toda mente que acredita estar em total controle de consciência. Ele sorriu. Augusto se aproximou do sofá e apanhou o livro. Ainda está a ler isto, Lívia? Sim. Eu retomei a leitura. Para quê? Para retomar. Para entender mais. Para ler de verdade. Não basta uma leitura? Augusto, você se satisfaz com um beijo apenas? Silêncio. Ele agia como se ela soubesse de nada. Embora estivesse certo de que ela sabia de tudo. Quando estará livre para irmos ao museu? Você sabe o quanto me custa ir a lugares públicos. Iremos jantar. Não basta, Augusto? Se isto é o suficiente para você, minha querida, eu a deixo decidir. Então, eu decido pelo jantar. E não convide estranhos. Lívia, ao ordenar isto a Augusto, parou o que estava fazendo. Parou de maquiar-se e olhou-se bem no espelho. Não convide estranhos? Aquela sentença a atormentou de tal forma que sua mente não conseguia parar de processar a palavra “estranhos”. Por que a teria usado? Quem eram os tais estranhos que ela acabara de mencionar? Seus amigos? Os amigos de Augusto? Alguns poucos conhecidos do trabalho? A quem ela se referia? Augusto continuava a falar. Da sala, sua voz parecia um som submarino guardado dentro de uma concha há séculos de distância de Lívia. Ela não o ouvia. Nada era audível. Estranhos, Augusto. Estou pensando nos estranhos. A voz não lhe saía da boca. Estava presa entre os dentes e o pó de arroz que lhe contornava a face. Sempre tivera em si esta maldita vontade de se encolher e, quanto mais se encolhia, mais era vista. Por que é tão difícil desaparecer? A noite chegara finalmente e Lívia estava parada na frente do espelho que refletia sua dúvida. A resposta lhe veio como surgem os pássaros desordeiros da manhã. Pássaros abruptos. Tudo era estranho. Desde seu nascimento até aquele momento, todos eram estranhos. Lívia nunca fez questão de conhecer o conteúdo superficial dos eventos de sua vida. Passara anos recusando-se a ver o que estava a sua frente. Passara décadas maquiando o rosto para que até ela lhe parecesse comum, quando, na verdade, Lívia também era estranha. Assim como Augusto, que surgira em sua vida nos tempos da faculdade, um jovem cheio de energia e idealismo cego, o advogado que um dia lhe condenaria ao maior calabouço de todos: o casamento. Lívia soube que Augusto era um estranho. O que ela sabia de verdade a respeito do marido? Nada. Apenas seguia calendários e deixava que a vida ocorresse sem maiores expectativas. Lívia nada decidia porque era exatamente assim que fora impelida a viver. Por si mesma. Uma enguia que se curva diante das pedras e dos obstáculos. Uma mulher maquiada de mentiras. Uma face em um espelho que apenas, naquele momento, soubera que estanhas eram todas as camadas de sua vida. Desde as mais externas as mais profundas superfícies de tudo que já havia vivido. A vida era pele e Lívia nada sabia a respeito de si. Admirou-se por se ver no espelho e, por fim, aceitar que durante anos se negara a conhecer-se. Eu sou estranha. Ao deparar-se com sua nova realidade nítida, sua voz lhe escapara como um grito preso, no mesmo tempo submarino em que Augusto havia se perdido. Então ela disse: Iremos ao jantar, Augusto. E, por favor, convide nossos amigos.











Um comentário:

Aline Gouveia disse...

Fico me perguntando como você tem esse dom (sem nem ao menos ter me visto um vez se quer) de através de letras digitas em uma página em branco, descrever o que se passa em minha alma. E responder perguntas que faço apenas no silêncio do meu peito. Sim. Sou uma estranha. Mas agora sei que não estou sozinha.

Te amO, Vizinha!