12 dezembro 2013

há diversas quadras








dragões alados



O amor encosta-se em mim e me observa calado. Nada me interroga. Seu peso é como o peso de centenas de dragões alados, planetas insondáveis e naves que mergulham em outras gravidades. O senhor das tranquilidades me devora em mansidão. E não amola a palavra fazendo-se de rogado para que seja vulgar como aposta que se faz entre cavalos. Corre solto o amor que me perverte. Este amor que é meu jardim de frutos amadurecidos e, de tão vividos, já se formam construídos em ninhos. Se me questiono a respeito do que seria de meus dias sem este amor que nunca acontece na presença de olhares vivos, eu mesma respondo, senhora de uma única sabedoria, que de mim seria o mesmo que me acomete na presença de olhares críticos. Amor que sinto é segredo meu e nunca será dito. Em público, eu o silencio. Mas, em meu silêncio, eu o denuncio. Pois de nós somente nós nos sabemos. Entre este amor e eu somente nós acontecemos.







sapatos brancos



Sabe-se lá o motivo, mas o homem passou a vida inteira calculando o alarde que sua morte causaria. Fez planos de como seria o dia de partir e deixar para trás suas quinquilharias. Fez partilha de bens para seus familiares, esperando que somente de suas riquezas pessoas falassem. E imaginou, de forma risonha, a reação de cada indivíduo que estivesse presente em sua partida. O homem ensaiou ritos, calculou volumes líquidos das lágrimas choradas e até a roupa que vestiria seu corpo estava entre seus arranjos: terno preto e sapatos brancos. O homem imaginou sua morte como um grande evento de uma vida inteira. Mas se esqueceu de um pequeno detalhe: ele, embora se colocasse como o centro das atenções, seria o convidado ausente de sua festa derradeira (até que se prove o contrário). Porque morto não fala, não sorri e nem debocha das desgraças. Morto é pedra inerte. Silêncio inteiro. Memória que ao tempo esgarça.







álibi



Rita comprou um relógio que, segundo o vendedor, trazia em si um mecanismo de alarme. Rita testou o aparelho, ficou contente com o resultado e foi para casa viver seus dias de esperar que o alarme falhasse para que ela tivesse, enfim, um álibi. Que o alarme fosse o único culpado de suas faltas, renúncias e descasos. Porém, quando a consciência lhe pesou nas costas, Rita quebrou o relógio em mil pedaços e decidiu provar que sua vida era somente por ela mesma corrompida e desgraçada. Rita deu risada. A culpa pesa menos quando se dá as caras.












Um comentário:

Aline Gouveia disse...

Ai, que saudades de ti ler, Vizinha.
Sou suspeita pra falar, mas adorei p texto. <3
O amor a dois vivido em silêncio é tão melhor. Sem ser gritado aos quatro ventos ( que quase sempre é "invejoso).
E o luto que tanto tememos, um dia chega. E nem ao menos podemos ficar tristes por nós mesmo, pois, já estaremos mudos.
E assim seguimos a vida, amando, e dia desses já não sentiremos culpa, pois o relógio, com ou sem alarme, há ficar com os ponteiros imóveis.

BeijO