22 abril 2013

miríades ao idílico









Primeiro esperei que ele me olhasse. E depois que falasse. Esperei que me ligasse. Esperei, então, o encontro breve entre as peles. Depois esperei que me amasse. Tudo de forma matemática. Feito um dominó, caindo em peças, tudo seguiria o plano. Só não contei com o último passo da trama: eu nunca esperei que ele realmente seguisse minhas tolas esperanças. Hoje luto para que ele vá embora. Eu não queria amor de toda época. Queria apenas uma temporada para provar do homem sua completa e inalterada espécie.


(Flora Conduta)








Certa noite eu dormi com um poeta. Dormi mesmo. De travesseiro e olho fechado. Era este o objetivo. Mas, até o sono chegar, conversamos um pouco. Nunca gostei de dividir cama com seu ninguém. Mas eu fui obrigada. Não havia outra cama no local. Nem colchão. Ficamos, o poeta e eu, naquele colchãozinho mini-casal, nos espremendo para cabermos melhor. Olhei pela janela e falei das estrelas. Pra quê? O poeta abriu o bico.

─ São belas as constelações que te habitam os olhos.

─ O quê?

Não que eu seja estúpida. Sei de poesia. Leio muito. Mas não sou muito dada a conversas estranhas. Por isso eu disse ao poeta que a noite estava realmente muito bonita. Eu não queria sair da linha. Mas o homem emendou.

─ Vês a prima lua que cintila em diamantes? Ela nos convence do pó, porém nos alegra em vistas de toda tristeza.

Engoli o papo. O poeta queria falar. Pois, que falasse, então. De maldade minha, continuei falando coisas.

─ Está calor.

─ Mesmo diante do calor, pálida miríade em mulher, seres como nós não fenecem em bárbara seca. Estamos úmidos do orvalho de nossas vestes que, coladas ao corpo, nos fazem navegar em embarcações que somos.

Achei bonito o dito, mas senti vontade de rir. Fiquei em silêncio para evitar o riso catastrófico. Pensei que o poeta se calaria. Mas não. Continuou.

─ Teu silêncio, por esta vez, me umidifica também. Tuas vozes de dentro não calam, pois tu vês estrelas e elas jamais emudecem nossa embriaguez de falo e canto.

Mas será que falei? O homem estava delirando. Seria febre?

─ Você sempre fala assim?

O poeta disse que falar não lhe cabia. Ele estava apenas reciclando de mim, naquele instante, os sentidos incoerentes de minha razão plena.

─ Entendi. Você sempre fala assim.

─ Não é minha voz que ecoa. Mas sim a noite, a estrela maior, o vulto do pássaro noturno, a insensatez das brasas sardônicas de um voo comum.

Pasmei! Era verdade! Ele realmente delirava. Eu enxergava apenas estrelas, mas ele, o homem, enxergava outra coisa que eu jamais saberia dizer em palavras.

─ Há serpentes rasas na noite de estrelas que se rebelam em viés do que sentem os anjos. E planeja sabotar a existência do belo o brilho difuso dos planadores mecânicos – navios de ar que sobrevoam montes.

Saquei. Ele falava de aviões.

─ Já viajei de avião algumas vezes. Você já viajou de avião?

─ O ser que há em mim viaja em tua pele que se transmuta em rugas de consideração ao que digo, enquanto me interrogas com teus olhares cínicos. Mas são olhos de fora, pálida mulher. Na verdade, tua visão é a mais perfeita de todas as que veem.

Perdi o jogo desta vez. Ele sabia que eu estava de brincadeira. E talvez nem fosse de brincadeira. Era só dormir e pronto.

─ Vamos dormir? Logo irá amanhecer.

─ Dormiremos e acenderemos a aurora de nossas faces ao confrontarmos o astro que encandece.

─ Astro que é igual ao sol?

Aquilo tudo já estava me enchendo.

─ Logo será de manhã.

─ Logo será amanhã.

Perdi o senso. Beijei a boca do homem para que ele se calasse e, logo, não havia veste, nem miríades, nem razão de olhar celeste. O poeta só encontrou repouso para sua voz idílica dentro de meu corpo pálido que alimenta em mim centenas de romances empíricos que de amor completo se revestem.














13 abril 2013

solúvel


















Você sabia que há uma banda de rock ensaiando na rua de trás? Venha tomar café. Vamos ouvir rock. Isso é tão anos 80. Olha lá. Deve ser atrás daquela casa o ensaio. Não é rock. É gospel. Não sabe mais diferenciar coisas? Não é gospel. É rock, Perpétua. Não me chame de Perpétua. Por favor. Okay, okay, okay. Não te chamo mais de Perpétua. Aceita um café? Desde quando me pergunta coisas? Sim, eu quero café. Você sabe que eu quero café. Não há necessidade de me perguntar. Cara, será que você pode ficar bem só por um minuto? Eu estou bem. Este é meu estado de estar bem. Respeite que será respeitado também. Coisa mais hino de país, Helena. Você já teve discursos melhores. Isto não é discurso. É clichê confesso. Réu confesso? Bem assim. E o café? Está bom? Isto não é café. É água e pó. Solúvel não faz a minha. Gosto do café moído. Na hora. Isto não é café mesmo. E a tal banda da qual você falou está tocando gospel. E não rock. Como sabe? Consegue ouvir a letra daqui? Não. Mas conheço acorde gospel de longe. É muito ré e lá menor. Não entendo você, Cecília. Você tem problema sério com meu nome, não tem? Problema nenhum. Só não me agrada estar com uma mulher que tem o mesmo nome de minha mãe. Me sinto estranho, sabe? Por isto mudo seu nome. Você é doente. Muito doente. Okay. Sou doente. Agora beba seu café. Eu não quero café. O que quer, então? Eu quero transar. Mas assim, no meio da tarde, no meio de nossa conversa? Que conversa? Isto não é conversa. Estamos apenas nos socando. Como se faz com aquele socador de sementes. Bem na cabeça e tudo se esmaga. Júlia, por que precisa tanto se ferir? Não estou me ferindo. A verdade é que eu estou atolada na realidade e preciso de algo que me tire daqui. Eu só vejo realidade. É o meu funeral todo dia que acordo e durmo. Estou farta da realidade. Por isso você está sempre me agredindo? Não é agressão. É uma forma de pedir ajuda. Mas você é burro, assim como tudo que vejo na realidade. Você é exato como aqueles prédios pontiagudos construídos perto do mar. É a realidade contrastada. O que quer de mim? Quer que eu saia e quebre a cara dos caras que estão tocando música gospel? Quer que eu chame você pelo seu nome de verdade? Quer sexo? Não agora. Não mais. Quero apenas que minta para mim. Minta aos montes. Me faça acreditar em todas as mentiras. Está mesmo disposta a não enxergar a realidade? Eu preciso não enxergar. Então, beba esta merda de café e aguente tudo, Lívia. E, depois, faremos sexo fora de moda. Na cama, nos enchendo de beijos, olhando o céu e as estrelas. E tudo isto ao som da banda de rock da rua de trás. Me parece boa sua mentira. É só realidade nua, Olívia.