26 maio 2013

pó de estante











Parei de comprar livros. Por enquanto. Eu costumava comprar muitos livros e olhá-los, capa por capa, edição por edição, consumindo-os pela espessura e pela impressão das páginas. Tornou-se um vício comprar livros. Sempre que eu entrava em uma livraria, eu comprava um livro. SEMPRE. Até o dia em que percebi que, da estante de minha casa, embora muito modesta na quantidade de autores, estava se tornando um lugar de acúmulo de poeira e vozes. Porque os livros falam. Às vezes, até gritam. Os meus berravam. Estavam berrando por leitura. Eles precisavam de alguém que os conhecesse. Livros são como pessoas que não podem permanecer nas sobras do inédito. Que não podem permanecer no anonimato. Então, passei a ler em um ritmo frenético. Um livro após o outro. Eu já havia lido Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar. Mas reli. Algumas vezes, quando sozinha em casa, li em voz alta. E, assim como perfume, que às vezes nos remete a outra época de nossas vidas, livros também o fazem. Lavoura Arcaica me levou de volta ao tempo em que visitei o Engenho Corredor, uma das moradas de José Lins do Rego. Embora a Lavoura não fale do menino do engenho, ao ler Raduan Nassar, voltei à casa em que estive por algumas horas com minha família. Em Pilar, no interior da Paraíba. Lembrei-me do cheiro da vegetação úmida da época, do interior dos quartos vazios lotados de morcegos, dos lavabos, do curral abandonado. Um livro me levou a outro lugar. Claro que todo leitor sabe disso. Livros são viagens. E é claro também que todo leitor tem seu costume, sua forma de ler e absorver o que é lido. E todo leitor faz a viagem que necessita. É assim. Ler é para quem necessita ir a outras paragens. Ou conhecer lugares criados por si mesmo. Eu crio, a cada livro que leio, uma atmosfera de minha vontade. Toda leitura é um estado livre. Darei exemplos do que falo. Ao ler Madame Bovary, é como se me vestisse de chapéu de luvas. É como se tomasse chá em grandes salões lustrosos. Ao ler Noites Brancas, de Dostoiévski, me senti como se ele estivesse ali, me observando. Um homem de bigode fino e enrolado nas pontas. Um homem apaixonado e desiludido. A náusea, um de meus livros favoritos, me fez e sempre me faz voltar a entender o que digo ao ver o mundo como está e a forma como as pessoas reagem a tudo. Com a pequena diferença de que hoje entendo mais as pessoas do que a minha náusea. Sartre me fez rir em muitas páginas de seu livro porque me entendi de alguma forma. E, ao me entender, passei a mudar. Era preciso. Eu não poderia viver a vida inteira sentindo-me mal ao lado de meus semelhantes. Coisa que Martha Medeiros talvez tenha dito: "Escute aqui: ninguém é melhor do que ninguém ─ somos apenas diferentes". Ou talvez Lacan tenha dito isto. Talvez tenha dito de forma diferente. Não sei. Mas alguém já o disse. Eu levo muitas tapas na cara ao ler Clarice Lispector. Seus personagens são exímios na arte de dar sermão sem que pareça um sermão. No conto Feliz Aniversário, a velha senhora, sentada à cabeceira da mesa,eu tenho certeza: ela fala comigo, e não somente com os personagens. Sou eu quem está ao lado dela, tratando-a como se fosse um vegetal e falando asneiras. Até o ponto em que ela abre a boca e diz que está viva. E que sabe tudo. Saber é coisa para os mais vividos. E para os que leem, acredito. Outra coisa que tenho com os livros: eu monto atmosferas para cada autor. Sei que muitos fazem isto. Apenas em olhar a capa de um livro e ler o nome do autor, me transporto para um lugar que talvez nem tenha existido. Mas que existe dentro de mim. Virginia Woolf me faz vê-la sempre à janela, cortinas esvoaçantes, em um quarto confortável e cheio de questões a revolver. Como pode isto? A própria Clarice Lispector me leva sempre a uma casa, sutilmente mobiliada, poltronas de encostos altos e assoalhos brilhantes de tão limpos. A existência de cada objeto me faz percebê-los em minhas leituras de sua obra. Drummond é um relógio. Sempre em ponto, sempre alterado. Um relógio de corda que, ora para de funcionar, ora toma fôlego e continua. Mario Quintana é o senhor que está sentado em um banco de praça, sempre a olhar os outros com muita calma, esboçando um sorriso sábio nos lábios. Lygia Fagundes Telles é pontiaguda como as obras de Picasso. Ela cria os cortes em suas cenas, para depois explicá-los e, por vezes, nunca se curam as feridas das leituras de suas obras. Como em As Horas Nuas. A mulher alcoólatra ainda sofre seus males, sentada em sua poltrona. São tantos autores. Gullar. Eu o li. Poema sujo. É pura umidade de desejo, poesia de tom urbano e tão acelerado em traduzir-se. É um dicionário de pulso firme. Graciliano (não o li tanto), mas é família inteira, em quadro dependurado em sala de estar. Há outros. Há sempre mais. Caio Fernando Abreu é música e a danação cosmopolita das ruas de São Paulo. Um homem fumando cigarros. Ana Cristina Cesar é jazz. Eu leio e ouço a voz do jazz. Do partido. Do coração inflamado que visita a Europa com os pés. Sylvia Plath caminha com Ana Cristina Cesar, muito embora não façam parte da mesma escola. E não por terem dado fim a suas vidas. Mas por amarem seus poemas em arritmia cardíaca. Eu ouço o coração descompassar ao ler os poemas dessas duas mulheres. E bebo gim. E há Edgar Allan Poe que é uma porta fechada em todo segredo. Uma porta enorme, de madeira muito antiga, pesada. E, quando aberta, há teias de aranha e outro homem de olhos arregalados, espreitando quem o lê. Goethe e o seu Werther são sempre luz de vela e amor. Jane Austen me remete a uma mulher de finos modos, voz mansa e, por baixo do longo vestido, um segredo feminino que hoje em dia está em muitos livros. Jane Austen me faz amar em silêncio. Quem mais? Quem tanto? Cortázar é a cena do abstrato e bancos para que se sente a plateia curiosa. Dos livros de Cortázar, entre os que eu li, não por ele ter escrito, além de outros livros, O jogo da amarelinha, mas é prosa e poesia em tons matemáticos e arquitetônicos. É andar com loucos e voltar são. Katherine Mansfield é sábia demais para se deixar montar em meu cenário. Mas eu a leio e carrego ovos para preparar um bolo que será servido com chá para algumas amigas que conversam, mas não se olham. Há outros. A estante está berrando. Bukowski, uísque, cigarros, pergunte ao pó e ao John Fante qual o caminho mais rápido para o engano. A estante berra em tantas vozes. Eu preciso ouvi-las. Dar atenção a elas. Mesmo com este tempo louco de nunca ter tempo, eu me empresto alguns minutos e leio. Porque não há outro caminho para ver o que vejo. Respeito meus livros como quem "acolhe seu único amante". Clarice Lispector? Creio que sim. Mas há também um quê de todo autor em toda estante.


Voltarei a comprar livros.
Sim.
É um vício.












19 maio 2013

a larva e a mariposa









Lembrar de certas passagens.
Fechar os olhos para ver no tempo.

(flor de sal)





Carta? Pra quê? Eu não vou ler. Aliás, eu vou ler. Mas o que irá mudar em mim acaso eu leia? Eu não quero palavra alguma. Conheço bem. Ela escreveu um monte de coisa e muita bobagem na tentativa de me ter de volta. Mas ela nunca me teve de verdade. Prefiro dizer que não aconteceu isto. Eu não vou ler esta carta. Envelope surrado de tanto tempo que passou enfiado no bolso. Tanto tempo esperando para ser lida. É só uma carta. Vou deixar de lado. Não quero ler. Não preciso. Pela espessura do envelope a carta deve ser curta. Uma folha. Vou colocar contra a luz. De repente consigo ver algo, uma palavra. De repente acabo descobrindo o que tanto ela tem pra me dizer. Já não basta ficar lembrando? Não basta? Eu lembro sempre. Aquele gosto de azul na boca. De bebida azul. O que eu fiz? Por que construí isto? E por quê? Não quero mais analisar. Os seios. Eu me lembro dos seios. O que eu buscava? Eu os tive nas mãos. E na boca. Ela pedia. Com os olhos. O tempo todo. Eu dei apenas o que ela me pedia. Por carência minha? Sei lá. Tenho tanta coisa pra pensar, tanta coisa minha pra resolver. E agora esta carta no caminho. Se eu não ler, vou me sentir mal. Eu me conheço. Conheço? Ela beijou tanto a minha boca naquele dia. A gente se engolia. E parecia tão normal. Era normal? O ruim era me sentir traído. Eu sempre me traía. Eu não era quem eu sou. Mas eu gostava. De alguma forma. Muito besta aquilo tudo. Dou risada. Eu toquei o corpo dela como se conhecesse. Não foi a primeira. Mas era a primeira. As outras não contam. Nunca fui tão longe. Tão longe de mim. Ela sorriu naquela noite. Sorriu sacana e tão romântica. Aquela porra. Dirigi tanto tempo (sei lá como) com ela ali, curvada, debruçada, me tocando. Odeio pensar nisso e amo me lembrar disso. Me sinto sujo e limpo. Ao mesmo tempo. Me sinto outro e me sinto eu. A larva e a mariposa. Tão delicada me tocando. Tão diferente de tudo. Embora eu não sentisse o que geralmente sinto. Não era físico. Era afeto. Era alma. Eu sei que era alma. Arranquei a roupa dela inteira e me deixei. Larguei meu medo e acho que eu sentia amor e tesão. Eu me senti louco. Eu a queria tanto. E não queria. Eu a queria dentro de mim. Eu queria estar dentro dela. Mas não daquela forma. Ou talvez fosse daquela forma. Eu sei bem o que eu queria. Hoje eu sei. E não foi nada comum. Não foi como eu disse. Eu menti. O corpo dela estava todo ali, com a alma dela inteira e intacta em mim. Corpo e alma em mim. Nunca antes eu havia sentido aquilo. Ou havia? Acho que não. Por isso tenho medo. Ou será orgulho? Eu não posso ter sentido. Tenho vergonha de ter sentido. Me armei sobre ela e depois ela se armou sobre mim. Dois em dois. Cada um mais egoísta e mais louco. A gente se amava e não se amava. Se queria e não queria. Ela deitou sobre mim. Anda lembro. Era tudo. O corpo inteiro daquela mulher. Mulher? Isso é estranho. Eu só queria estar dentro e não estar dentro. Eu sentia fome de outro e sentia fome da mulher. Hoje eu a teria de novo. Mas não posso viver do que desejo. Mas será que eu desejo? Me sinto sujo ao pensar nisso. Não sou eu. Lembro da noite. Ela disse que não lembra. Ela mente. Eu minto. Eu queria. Ainda quero. Sim, eu quero muito. Minha vida está uma merda. E eu sei que ela sabe. Ela sempre sabe. Será sempre esta merda. Tudo minguado. Mas com ela também seria minguado. Fiquei todo dentro dela, comendo tudo que nunca poderia ter sido meu. Ela não era minha. Talvez eu quisesse ser como ela. É isto. Talvez eu quisesse ser o que ela é. A mulher. Não. Não quero ser a mulher. Eu a quis de verdade. Gozei de verdade. Mas foi metade. Senti raiva. Impotência. Senti impotência. E vergonha. Eu precisava de tudo. Precisava dela. Não teria problema se ainda acontecesse. Teria? Seria meu o problema. Não sou aquele. Sou outro. Eu sou eu. Mas não me sinto mal ao lembrar. E querer ainda é tão simples. Me completa de alguma forma. De todas as formas. Nosso beijo era o tempo perfeito. Era exato. Eu ainda sinto. É loucura isto. Mas eu sinto. E me apego sempre. Eu a amo sempre. Tão louca e tão minha. Se ao menos ela entendesse que é diferente. Mas ela não entende. Vou ler a carta. Mas não hoje. Ainda não. Vou guardar. Outro dia eu leio. Hoje vou me esconder de novo. Ou me deixar ser quem eu sou nesta minha verdade. Ainda larva. Ainda em estado imaturo de puberdade.