27 junho 2013

verbo fêmea









Olhos de Lacan


Prédio baixo. Cinco andares apenas. Elevador cubículo. Segundo andar. Você sabe qual o andar de? Não, não sei. Escapo. Mas, apenas por um minuto. Segundo seguinte me vejo em uma sala muito aconchegante. Poltrona e divã. Lacan em livro descansa sobre uma mesa de madeira muito bem polida. Onde paramos?, pergunto. Eu começo a sorrir porque realmente não sei o que eu estou fazendo ali. Ele franze o cenho. Já era. Preciso falar. Abro a boca como quem anuncia um segredo. Ele cerra os olhos como quem inspeciona um objeto. Eu falo e falo e falo. Por cinco minutos eu me recrio. Descubro que sou outra nesta sala requintada. Eu nunca imaginei que eu fosse assim. Tenho valores, horrores, pavores e um amor. Eu tenho tudo. Mas por que será que sinto sempre este aperto de vazio? Encerramos a sessão e volto às ruas, levando em mãos a minha mulher. Esta que muda ao subir e descer do elevador.





Cronológica


Não suporto quando dizem: nossa, mas como você está nova pra idade! Não suporto isto porque não sigo aspecto cronológico. Se nada tem a dizer, invente. Mas não me diga que estou nova para o número que minha identidade exibe. Não diga que estou enxuta para a lágrima que meu olhar deixa a mostra. Não diga misérias quando o silêncio muito mais me alegra do que a voz inadequada da incoerência. Peço: deixa-me em paz.





Explícita


Homem tem mania de achar que mulher tem botões a serem pressionados como se fossem adereços de máquina. Eu bem sei. Já fui testada. O homem apertava e pressionava todas as partes (que são explícitas), enganando-se. Pois o que me excita está sempre na ponta da língua. Todo o resto é reflexo de insisto. Porque eu sou rio inteiro. Em você, peixe carnudo, camufla-se o dragão. Não aperte botões. Traga-me os remos. Nadaremos juntos. Um dentro do outro, conhecendo-se. Mudos, fluidos e mútuos de amor. Até que a correnteza nos separe. 









Enquanto isto,
Em outro perímetro,
Alguém escreve verdades.



"eu escrevo escavando as lâmpadas soterradas na dúvida. escrevo mirando os olhos de Deus. ele foge em cavalos a galope, mas as minhas raízes estão fincadas em seu corpo. não posso mover as minhas flautas, em todo lugar vejo papai suspirar, ele debruça em minha boca com a sua enxada, apara as ervas crescidas sobre a linguagem. devo aprender a estender o meu corpo por dentro do silêncio".


(Sandrio Candido)












25 junho 2013

degraus de vida









A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

(Hilda Hilst)







Uterina


Às vezes eu me sinto muito inflamada. Como se algo dentro daquilo que chamamos de alma estivesse exigindo de mim o meu olhar. Então, olho-me por dentro. E vejo o que há. Armários de vento, memórias, receios, e uma pequena criança, crescendo mais veloz que o tempo. Esta criança, de pés descalços e cabelos cacheados, ainda muito tímida para se deixar falar, me olha. Seu olhar não é interrogativo. Nada me cobra. Apenas me olha. Ficamos mudas em nosso encontro interior — a criança e eu. Sei que ela sou eu e ela sabe quem ela é. A mulher por fora maquiada, ave de duas moradas, é apenas criança brincando de silêncio dentro de tudo que é minha alma.




Letras no degrau


Morávamos em uma casa muito ampla de jardim e vários cômodos. Comíamos frutos de seu pomar. Molhávamos suas plantas e isto era motivo de tanta felicidade que passávamos horas sorrindo ao perceber que as plantas estavam contentes. E contente também estava a casa. Em seus degraus de entrada havia uma inscrição antiga. Lembro-me de ter feito várias inspeções com meus irmãos e irmãs para descobrirmos do que se tratavam aquelas palavras escritas e tão apagadas pelo tempo. E, ao lado destas, uma data — setembro de 1923. Mas os anos se passaram e meus irmãos e eu nos ocupamos de crescer. Não havia mais espaço em nossos dias para o pomar, nem para o jardim, nem para a casa. Nós sequer a olhávamos. Apenas fazíamos nossas refeições, sempre com pressa e saíamos para cuidar de nossas vidas. Eu, quase adulta, não tinha mais um minuto sequer para a casa de minha infância. No entanto, dia desses, procurando fotos de família para refazer álbum, encontrei uma fotografia nunca vista antes. Era o degrau. E as palavras inscritas estavam muito nítidas na imagem. Elas diziam algo tão simples. Como não descobrimos antes? Que cegueira é esta que nos faz relevar as obviedades? Sorri ao olhar a imagem e completei o álbum de família com a foto e a inscrição que dizia "a vida cresce ao mistério das letras nos degraus". Quem terá escrito aquilo? Desde este dia, nunca esqueço: sempre que posso, eu passo minutos observando degraus e escadarias, pedindo a deus que me reserve mais tempo para que eu valorize as entrelinhas.





Política


O país está agitado. Ainda não consegui ter uma conversa realmente efetiva sobre o assunto. Com ninguém. Porque estão todos ocupados em revolucionar. E sim, acho muito certo. É correto ao soldado marchar. Mas eu ainda quero mais, embora eu pouco entenda a respeito de política. Meu pai me critica muito por este motivo. Entendo de política o que um pássaro entende de rastejar. Nada. Aliás, entendo quando a política pesa em meus bolsos, quando a política arrasa vilas e favelas em tempos de chuva. Entendo política quando vejo moradores de rua dormindo sob viadutos. A política me surge viva nas vistas quando, ao caminhar pelas ruas, sou abordada por uma criança que, exaltada, me rouba meus pertences. Isto é política. A padaria, a lavadeira, a moça da esquina (prostituindo-se), as casas populares, a falta d'água, o salário que não paga o gasto, o rosto cansado do caixa do banco. Esta é a política. E mais. Foto do Brasil e belas praias e mulatas estampada em revista internacional; é tudo política. É algo que parece estar em nossa corrente sanguínea. Um vírus que se multiplica em desordem do norte ao sul de tudo. Eu só entendo de política com meus olhos de observar o mundo.













22 junho 2013

mar inédito










Não estar no controle é estar no controle. Porque alguém terá de fazer a parte que você não faz. E, desta forma, se tornará seu escravo.


(Flora Conduta)







Nunca senti tanto a ausência de um corpo quanto eu sinto agora. Você me transborda. Você me entorta as vigas de minha estrutura arquitetônica moralista. Eu me levanto da cama e ainda nua me ponho a fumar na varanda. Enquanto isto, você se faz poema. Um soneto intacto me observando como se estivesse ainda o livro secreto. Mas já nos sabemos demais decorados e não há mais volta para os barcos. Sua boca sorri, mas os olhos choram. Sei das lágrimas de um homem bruto quando as vejo. Você se levanta e pega mais um de seus livros de contar história. Está severo nesta hora porque eu o observo em seu teatro. Você está lendo. Em silêncio. Embora me deseje tanto por dentro, queimando pavio curto de velas, você se isola (disfarçando-se). Eu volto ao quarto e descanso enquanto você termina sua leitura. Mas um beijo interrompe o drama (que eu faria acaso você não percebesse o quanto eu estou aqui presente e nem um pouco ausente de mim). Eu acho que estou feliz. E assim nos furtamos. Já não há mais dois corpos. Há um ser apenas. Pronome que gramática alguma gerou. Mar inédito que homem algum mergulhou. Casa antiga reinaugurada por suas mãos.














15 junho 2013

bukowski










Um alemão que se tornou americano e sobreviveu aos anos mais decadentes dos States e seu universo de grandes talentos hollywoodianos.


Comecei a ler Bukowski há dois anos (ou mais — eu nunca lembro a data exata). Refiro-me a ler de verdade. Antes disso, eu apenas lia alguns trechos escritos por ele e considerava que aquilo havia sido escrito por um grande ESCRITOR. Mas eu estava enganada. Bukowski, ou Hank, como costumam denominá-lo, não era somente escritor. Ele era homem. Escrevia como homem e falava como homem, civilizado e cafajeste. Sempre verdadeiro em sua prosa ou em seus poemas, o velho safado diz exatamente aquilo que está entalado. Estou falando de mim. Pois eu busco escritores de acordo com minha necessidade de entender o mundo. Ou, talvez, esquecê-lo de vez.

Em meu último aniversário ganhei de uma amiga o livro Amor é tudo que nós dissemos que não era, organizado e traduzido por Fernando Koproski. Não o li de imediato, assim como fiz com outros livros do Bukowski. Este eu deixei esperando por minha leitura. Livros também têm seu tempo, acredito.

Decidi começar a leitura semana passada (junho de 2013 — em casa — na varanda). Trata-se de um livro de poemas. Poemas? Esta interrogativa sempre me inquieta porque eu leio poemas de todos os tipos e tamanhos. Porém, em Bukowski, não é poesia. É toda a vida. Escancarada e dilatada. Nunca um poeta me cativara tanto quanto o Hank.

Em Amor é tudo que nós dissemos que não era há comparação entre pessoas e flores, mulheres e tulipas, cavalos de corrida e toda gente que anda pelas ruas. É um livro vivo (assim como tantos). O homem Bukowski me fascina a cada leitura porque não teme. Ele se diz e não espera aceitação. Ele mesmo se dignifica em sua poesia denominada marginal. Não há regras na poesia bukowskiana. Aliás, há. No poema Então você quer ser um escritor?, ele diz:

"Senão estiver explodindo em você
apesar de tudo,
não faça."

Este é o conselho do senhor ébrio aos que desafiam o ato de escrever. "Se a coisa tiver de ser polida demais, não faça. Se tiver que usar dicionários, não escreva". Assim como no poema Roll the dice, Bukowski encoraja mostrando o que há a se perder e ganhar. E ainda fala a respeito de escritores que buscam a literatura por fama ou por aqueles que buscam mulheres para sua cama. Eu me deleito e sorrio ao ler Bukowski. Porque, além de ser um marco da literatura contemporânea e blablabá, ele diz tudo o que eu preciso (e gostaria de) dizer. Mas será este meu objetivo ao ler um livro? Creio que não. Eu leio livros para saber mais a respeito de mim também. Bukowski não escrevia apenas para escrachar uma sociedade cheia de escritores comedidos, engajados, que bebericavam espumante em festas elegantes. Ele falava (ou fala) do cotidiano que fere tanto ao ponto de causar cegueira. Porque muitos fogem da realidade (e não adianta dizer que existem várias realidades — só existe uma — que é esta — acordar, trabalhar, trepar, mentir e, com sorte, ter algum dinheiro para futilidades). O poeta-romancista Bukowski também fala de amor como quem fala de algo que existe. Ele não foge em lirismos excessivos. Ele não cria belas musas. Bukowski, em seus livros, ama a mulher comum, engordurada de tanto cozinhar, fétida de cigarros ou bebida, e desamparada por si própria ou pelo marido (que seja). Mas é a mulher que pisa no chão. Não há delicadezas excelentes e celestiais em sua poesia. Há sexo e saliva. Há pênis e vagina. Há tudo que se esconde em casas de família. Eu me recomendo uma dose de Bukowski todos os dias. E sem gelo (que é para aguentar a vida).




E termino com um verso do poema Uma Definição.

"amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu"

(Bukowski)


Ou seja: a culpa é sempre alheia.
É isto.













12 junho 2013

amor de espanto









Não sei o que é mais engraçado
Ver fila de casais em porta de motel
No dia dos namorados
Ou rir da carência otária
Que se aloja nas caras
Vagas
Deste mundo





Hoje, meu bem, vamos, você e eu, jantar e nos exibir. Casal mais lindo não há. Me arrumo toda depilada que logo mais darei voltas para o meu amor gozar. De satisfação, espero. Ele me pega na porta de casa. Tão lindo. Um santo. De brinco e cavanhaque. Vamos indo. Mas, antes, um click para o instagram tilintar nossa cara. Todo mundo curte. Dois seres tão únicos. Tão singulares. Ele sorri. Será que irá dizer que me quer a vida inteira? A amante, a mulher, fiel escudeira? Espero que sim. Amanhã 'posto' tudo no face e mil amigas irão morrer de se amargar. Jantar. Restaurante chique. Estacionamento lotado. Ele se irrita. Eu me empino e beijo seu narizinho tão fininho. Ele é o meu deus. Conseguimos entrar. Mesa 'pra dois'. Tudo armado. Sentamos, nos olhamos, outro click e 'instagra' isto que é para o mundo ver quem somos. Meus olhos brilham na foto. Ele ainda sorri. Entrada. E, antes do vinho, a troca de presentes. Não acredito! Uma gargantilha (ou será corrente?) com dois pingentes. Nossas iniciais. Eu deliro. Agora o meu. Ele abre o embrulho florido e sorri de novo. Um relógio (caro pra caramba), e um porta-retratos com foto da gente em nossa viagem à Bariloche. Nosso amor é tão super. Mega tudo, entende? Jantamos. Eu não como quase nada porque não quero barriga pesada na hora de deitar. Saímos apressados porque o quarto é reservado (até às nove?). Que perfeito! Ele mete as mãos entre minhas pernas e eu seguro o (...) dele. Parece pedra! Sorria, amor. Outra foto. Agora no sinal. A gente no carro é sensacional. Muita gente curte a foto. Outra foto. E mais e mais e mais. Click, click, click. Tenho certeza: todo mundo é fã da gente. Chegamos. Estamos prontos. Meu celular vibra mais que tudo. O dele, não. Tão querido que até o telefone ele silenciou. Te amo demais, amor. E vou me despindo. Tudo vibra feito sino. Ele me ajuda a me despir. Maluca! Calcinha com estampa de gatinho com bigodinho e tudo. Cinta-liga. Já pensou? Tudo por você, meu bem. Fico na cama e ele me beija. Já está nu, ó deus; e todo pronto. Hoje é dia. Penso nas coisas que faremos. Ele me beija novamente e vai ao banheiro. Permaneço na cama. Ele demora. Para matar o tempo (e a ansiedade), decido arrumar as roupas jogadas. Não quero bagunça na noite de meu amor mega-super-tudo. Apanho calça, par de meias e, no meio das coisas todas, o celular mudo. Não! Nunca fui ciumenta. Não vou olhar. Mas a curiosidade mórbida me apanha. Cato o telefone com as mãos e que surpresa ver fotos de meu namorado perfeito com seu melhor amigo, os dois pelados, se comendo, amor sacana, na mesma cama de motel que hoje eu me daria inteira. Dancei de verdade. A vida não é mais bela trama. Porque quase tudo mente ou engana.




(morri)









10 junho 2013

nova liturgia









Estado romântico?
Cuidado! Pode ser engano.





É por ele que a manada estoura novamente. Estou brusca e leve como a folha de outono. A folha caída de um calendário outro. Meu cio é repleto de amor. E clichê. E água na boca do tempo em que ele tanto me beijou. Fora ontem, eu lembro. Dois corpos exibindo o mesmo afeto. A vontade munindo-se em armas. Mas será que estarei disposta para este duelo de vã-filosófico-intelecto? Eu já estava inquieta e sequer me percebi. Agora é flauta ao vento, tênis nos pés e mãos se medindo em tamanho e aspecto. É feito o templo imenso de nova liturgia. Ele diz que não se deve queimar velas sob camas. E, a respeito disto, digo apenas que sou incêndio e que sua ausência apenas elabora mais o que me inflama.










Complemento:


Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.

(Hilda Hilst)









02 junho 2013

Isadora e o dia









Dia zen. Amanheceu tudo zen. Até pássaros eu ouvi. Ao sair da cama, os pássaros cantaram suas boas vindas. Estiquei meu corpo inteiro. Dos pés à cabeça. Relaxei. Que alegria divina, pensei. E permaneci em silêncio para que nada desfizesse meu estado zen. Tomei café. Muito açucarado. Engoli o café inteiro até que o açúcar descesse por minha garganta, adoçando ainda mais minha paz da manhã. Eu estava radiante. Precisava ouvir música, muito embora não fizesse diferença alguma. Eu já estava em paz completa e havia em mim algo musical. Cantei baixinho um mantra que um amigo me ensinou. Decidi não abrir cartas. Não era dia para cartas. Nem jornais. Nem tevê. Era dia de pássaros. Dia de estar em contato com o que tenho de mais secreto: a paz interior. Tão serena. Uma cristaleira vibrando ao vento. Era hora de cuidar da pele. Máscara facial com frescor de menta. Era tudo o que eu queria. Apliquei o produto conforme dizia a embalagem. Em círculos. Sempre em círculos. Círculos enormes. Nas bochechas. No nariz. Nunca ao redor dos olhos. E nunca perto dos lábios. Mas por quê? Cantei novamente o mantra. Em voz alta desta vez. Eu queria aplicar a máscara ao redor dos olhos. Por que fazem isto com a gente? Por que permitem que as coisas venham apenas em partes? Por que eu posso isto, mas não posso aquilo? O que há de errado com as coisas? Tentei não pensar e fixei meu pensamento no canto dos pássaros. Mas eram tantos. Desde quando há tantos pássaros pela manhã? Os pássaros pareciam histéricos. Talvez eu não estivesse mais em harmonia com eles ─ seres tão livres e engenhosos. O João-de-Barro constrói a própria casa. Mas todos os outros pássaros também constroem suas casas. Por que só falam a respeito do João-de-Barro? Por que teimam em limitar as coisas? Por que as classificam? E este creme mentolado? De que me serve? Pele macia ao longo do dia. Mas eu não quero o longo do dia. Eu quero o agora. Porque eu estou zen agora. E não sei nada a respeito do longo do dia. Agora me dei conta. Preciso estar zen. Por um minuto quase me deixei descontrolar. Não posso perder o controle. Preciso respirar. Diafragma. Vi em um programa de tevê. Um médico falava a respeito do diafragma. Um elemento vital para a respiração e para a voz. Eu nunca soube disto. Por que só agora tive acesso a esta informação? Para mim o diafragma era apenas diafragma. Não me parecia vital. Engraçado como tudo se torna maior e mais importante quando alguém o diz. Nunca dei importância a tantas coisas. Mas agora que muitos falam a respeito delas, me parece que fazem parte de minha vida. Direitos humanos, por exemplo. Eu sempre soube dos diretos humanos. Mas não imaginava que era preciso tanta lei que me protegesse ou que protegesse o próximo. Sempre achei que tivéssemos direitos por nossa própria natureza. Assim como os pássaros. E as formigas. E outros insetos. Ninguém dita suas regras, creio eu. E vivem bem, acredito. Pássaros cantam. E formigas caminham. E insetos voam ao redor das lâmpadas. São livres e têm seus direitos. Eu acho que nunca fiz uso de meu direito humano. Acho que nunca precisei. Será que tais leis determinam que eu tenha o direito de ficar zen sem que uma embalagem de máscara facial me traga a verdade na cara? Será que os direitos humanos falam a respeito de sexo? Meu deus, que bobagem a minha. Mas é claro que devem falar de sexo. Tudo parece terminar em sexo. Toda conversa, seja qual for, termina em sexo. Talvez não de forma direta, mas o sexo está lá; às vezes secreto ─ às vezes dilatado e exposto. Risinhos se encarregam de trazer o assunto sexo em cada conversa. Mas para quê? Será este o direito maior? A menta da máscara realmente refresca a pele. Mas fará efeito? Estou sentada em posição de ioga. Nunca fiz ioga. Mas acredito que isto seja ioga. Pernas dobradas, diafragma contraído e respiração lenta. Minha nossa! Será que estou morrendo? Por que estou respirando de forma tão lenta? Diafragmas param de funcionar? E meus pés estão dormentes. Minhas mãos também. Lembro-me de ter sentido isto outro dia no elevador de um prédio qualquer. Formigamentos. Eu estava praticando minha respiração budista e tudo começou a formigar. Eram apenas oito andares. Não dei atenção ao formigamento. Mas agora, aqui sozinha, ele está tão vivo. O formigamento é tudo que existe. Preciso sair disto. Por que inventei de fazer esta respiração? Não consigo falar. Não consigo cantar meu mantra. Não posso cantar porque minha voz calou. Mas como pode ter se calado se ainda penso? Eu tenho voz. Preciso apenas sair deste estado relaxado e distante. Isto não é forma de morrer. Ninguém morre ao fazer ioga. Será que morre? Certa vez li em um jornal que uma mulher havia infartado enquanto fazia ioga. Deve ser isto. Estou enfartando. Estou morrendo. Não sinto minhas mãos. Não sinto meus pés. Respiro. Preciso respirar. Vai ver foi o creme. Creme desgraçado. Ele está me matando. Ou talvez sejam os pássaros. Eles ainda cantam. Como podem cantar enquanto estou aqui, morrendo? Pássaros egoístas! Mundo dos infernos! Cheio de demônios. Meu coração está acelerado. Minhas costas estão geladas. Chegou a hora. Onde está o direito humano de morrer de forma digna? Isto não é digno. Ninguém deveria morrer sozinho. Minha voz está voltando. Mas está esquisita. Minha garganta está seca. Que há de errado com minhas mãos? Estão úmidas. Que há de errado com tudo? Estou morrendo. Percebam, seus pássaros doentios. Eu estou morrendo. E eles ainda cantam. E eles ainda vibram de alegria. Que medida de igualdade é esta? Por que é preciso que eu morra enquanto estes pássaros inúteis apenas fazem barulho? Estou imóvel. Meu Deus! Preciso pedir perdão por meus pecados? Mas que pecados? Não sou tão pecadora assim. Posso ter feito algumas coisas fora do padrão. Mas eu não sou pecadora. Aliás, creio que eu não seja. Acho que posso morrer sem isto. Eu posso morrer tranquila. Mas será que alguém morre tranquilo? Como pode isto? Se morrer é o único fim que conhecemos, se nada mais sabemos além disto, como pode alguém morrer tranquilo? Sem medo? Sem temor? Eu estou morrendo e sinto medo. Estou morrendo e ninguém me ouve. Somente os pássaros imbecis verão meu último suspiro. Deixarei meu corpo tombar. Assim está melhor. Deitada. Eu morrerei aqui, deitada neste tapete áspero e empoeirado.

Coração disparado.
Boca fechada de secura.
Garganta encerrada de voz.

Relaxo meu corpo para morrer em paz. A porta está se abrindo. Quem será? Quem está aí? Acho que consegui soltar um grito. Embora eu esteja quase morta, ainda consigo. É agora.

─ Que faz aí no chão, Isadora?

─ Estou morta, Carmelita.

─ Morta?

─ Sim, eu acabei de morrer.

Carmelita não acredita. Ela sorri. Carmelita não me socorre.

─ Diga adeus, Carmelita.

─ Adeus? O mesmo adeus de ontem, Isadora? Desista de buscar a morte, mulher. Há coisas que você pode controlar. Mas há outras que simplesmente acontecem sem comando. Entende? A morte é uma delas. Esqueça! Ainda não é a hora.

Meu corpo retorna. Aos poucos. Estou mais viva que nunca. Eu suspiro enraivecida. Há sempre alguém que me traz à tona para vivenciar o longo do dia.









01 junho 2013

memória ébria










Pensei nos Smiths, depois em uma banda de rock nacional, pensei em mim, pensei no outro. E estamos em junho. Amores vãos.







Meia-noite. Estou em casa. Penso nas ruas. E nas pessoas que estão nas ruas. E nos bares. Penso no casal que não conheço e que agora dissimula seu amor entre olhares. Penso e chego a sentir o gosto dos ébrios lábios que vociferam na noite da cidade. Desta e de outras tão diversas. Sinto na pele o frio de uma noite que não é fria, tampouco quente ou de gelo cristalizada. Penso no homem que serve mesas. Penso nas pernas que se cruzam sob as mesas e na confusão risonha nas portas dos banheiros lotados de tantos bares onde não estou. Alguém conversa entredentes. Quase ouço o que diz. Todas as conversas são iguais nas noites. São ritmadas pela mesma ilusão embriagada. São estimuladas pelos mesmos sinais que emitem os bichos quando felizes se libertam de seus predadores. Penso na noite de uma cidade e posso pensar em toda cidade. Pois a noite é baldio ébrio de amores e ilusões que se repetem em todas as vias deste mundo em extremidades.