25 agosto 2013

jogo de astecas








Ou eu a cortava ou a incendiava. Era este meu dilema de ontem. Hoje, sequer me lembro. Apenas rememoro para saber que o fiz. Eu definitivamente exterminei a buganvília.





convite para o cinema

(advertência: moral pornográfico)



Táxi. Aroma de bêbados. Pessoas vão e vêm nestes bancos. Por isto me sento com cuidado. Beija-me muito. Achei brega, mas aceitei a migalha. Beijei. Nos pés, sapatos cor de caramelo. Nos meus, vermelhos. Igual a pele que se esconde retraída (de medo). O filme é singular. Você verá. Claro que sim. Tudo o que vem de sua boca é singular. Até suas imbecilidades. Sempre tão amáveis. Duas entradas, please (get up off your knees). Os dois andam de mãos dadas. Quase enganam pela aparência ingênua da coisa. Na verdade, querem do outro o que deus tanto condena. Mas para quê falar em deus agora? Esqueça. Vamos sentar aqui? Que tal? Claro que sim. Tudo escuro. E o filme começa. Beijo na boca de línguas que se enroscam. Mãos nos mamilos. Tão rápidas. Seriam répteis as mãos que deslizam pela curva dos seios da mulher de boca muda? Te quero tanto... Murmurando. Não deixe que nos ouçam. Saia jeans para encurtar caminho. Sem calcinha, sem fricote, porque é assim que age a mulher que por ordem provoca. É? Detesto filme legendado. Ó. Quase nos ouvem. Não faça barulho. Não urre mais que o necessário. Ok. Você é o freguês. Jogo de astecas, tocando marcha com a ponta dos dedos. Abra as pernas. Tão deliciosa. Você é má. Sorri. Os dedos escorregam para dentro. Muito fundo. Profundos os peixes não temem o escuro dos mares. Tão denso o líquido que escorre. Dedos fora, dedos dentro (da boca). Tudo escorre pela garganta. Eu amo você. Espere o fim da cena e, só então, me diga o que sente. Frenéticos os dedos voltam. São muitos. São tantos. As pernas se escancaram. Com força as mãos desenvolvem movimentos harmônicos. Beijos calam o clichê básico. Ninguém precisa ouvir. É proibido me proibir. E eram lentos, mas agora estão loucos os dedos. Penetram mais e defloram o que já estava deflorado (há tempos?). O líquido está mais denso. É hora do conflito final. Orgasmo comum de igual casal. Mas diferente é a cena porque fora feita com a decadência típica dos que manifestam cio em vias públicas. Voltam ao táxi com as faces rosadas como se fossem pecadores pueris. E o final do filme? Singular. Como eu sempre quis.










12 agosto 2013

imã de geladeira









Você precisa saber da piscina
Da margarina, da Carolina, da gasolina
Você precisa saber de mim.

(Caetano)







Dizem que agosto é mês de desgosto, mês do cachorro louco, mês do azar. Mas de qual azar estaremos falando especificamente? Porque, de azar, estamos cheios até o talo. Vivemos em um país chamado Brasil — mulata e funk em noticiário. Para mim, isto já é o necessário. Porém, há mais. Mensalões que deram em nada; político, de cara lavada, ganhando sempre às nossas custas, partido trabalhista que se torna elite (da noite para o dia?), e houve também manifestação que, repare não, mas é fato, deu em nada, além de algumas vidraças quebradas. O gigante enfartou. Mas isto é apenas assunto comum. O que realmente nos incomoda é a ressaca de um sábado em que a gente encheu a cara e perdeu a dignidade, servindo nosso sexo em bandeja de metal falso. Isto nos incomoda. Todo o resto é cisco. O cego prefere o óbvio a enxergar o real obstáculo. O mal verdadeiro é o marido que trai, a mulher que, de moderna, só tem a casca ou o namoro gay liberado que a gente defende, mas, ainda assim, não respeita. Nós adoramos nossos preconceitos. São nossos deuses. Eles nos sustentam. E, desta forma, vamos nos perdendo em nossa crendice de achar que azar é morrer. Eu não sei o que é azar. Sou imatura para tais assuntos. Mas sei o que é uma tendinite no braço esquerdo e uma tipoia que afirma, com muita segurança, que estou começando a chegar ao fim. A gente nasce pavio de queimar e, um dia, chama que cessa. Que triste! Que nada! Levante a face e sorria: você está sendo filmado. O tempo passa e logo será fim de ano e as lojas estarão vendendo, a preço de pele humana, roupa costurada por asiática, embalada em enormes caixas e etiquetada por grandes nomes da moda. É de rir. É de viver a vida. Deixe o azar de lado. Não nos queixemos. Esqueçamos. E hoje ouvi a voz de deus que é a voz do povo. Às seis da manhã, cheirando a aguardente, deus me dizia que anda injuriado com sua família que não o deixa beber até raiar o dia. Deus é quem sabe de tudo. A gente só imagina que sabe. A gente apenas segue o fluxo.