19 dezembro 2013

o pedigree das vaidades











Algumas verdades
Já nascem mentirosas.

(Flora Conduta)






Até para canalhice é preciso ter pedigree, meu caro. Pedigree e elegância. Ela disse isto e levantou-se da cama. A tarde fervia entre carros, passos velozes de pessoas, e pássaros que se recolhiam a fim de encontrarem descanso nas copas das árvores. Era fim de tarde e o sol ainda se exaltava e mostrava seus raios calorosos. O que quer dizer com pedigree? Ele a interrogou mesmo sabendo ela iria deslizar entre palavras e explicações até que ele se cansasse e desistisse de fazer perguntas. Ela acendeu o último cigarro de cravo (presente de um amigo que a visitara pela manhã). Pedigree representa nossa raça. Nosso sangue. Nossa origem. A casta da qual herdamos nosso comportamento. Neste caso, o seu comportamento. Se você optou por ser o canalha que é, deveria agir de acordo. Seja como os cães de raça que se exibem em um torneio de adestramento. Seja fiel ao que tenta ser. Não seja somente isto. Não seja somente este homem limitado, de palavras poucas e cansativas. Seja maior. Já que escolheu a canalhice como padrão de vida, seja digno dela. Sou canalha? Mas é claro que você é canalha. Eu não estaria ao seu lado se você não fosse um canalha. E por que escolhe canalhas? Ela riu, fumando cravo e respirando o adocicado da fumaça. Eu não escolho. Eu engulo. Escolher é algo que satisfaz a mente dos duvidosos. Eu, como não tenho dúvida alguma dos homens com quem quero estar, percebo um canalha, me aproximo e faço o que tenho de fazer. Lembra-se de quando nos conhecemos? Ele ainda perguntava. Ela respirava, tentando deixar transparecer seu cansaço ao dizer algo que, para ela, era tão óbvio quanto os pés que ela observava. Veja meus pés. São tortos. Pequenos demais e tortos. Você está fugindo do assunto? Eu não estou fugindo do assunto. Estou apenas me desviando do caminho. Você sabe que me lembro do dia em que nos conhecemos. Você estava bonita. E disse que me amava em nossa primeira noite. Eu digo que amo todo mundo, meu senhor. Sorriram. Risos cúmplices. Criminosos da mesma arte. Mas foi diferente a forma como você disse me amar. Diferente? Ela ergueu uma das sobrancelhas e deitou-se ao lado do homem. Não sei explicar. Mas você foi meiga comigo. Me disse de seu amor com tanta força. Eu acreditei. Acreditou? Claro que acreditei. Embora eu não precise de seu amor para estar aqui. Você não precisa de meu amor? Não. Preciso de nada. Quero apenas o seu corpo. Você sabe que tenho outras mulheres. Por favor, guarde suas histórias para outros ouvidos. Fora deste quarto você pode estar com quem quiser. Mas aqui, deitado em minha cama, seja somente meu. Quer que eu minta? Não é mentir, senhor. É ser elegante. É a respeito deste comportamento que eu falo. Seja gentil comigo e terá uma mulher gentil com você. Uma mulher intacta. De seu amor só. Mas isto seria mentira e muita canalhice. Se eu mentisse... Ela o interrompeu. Todos nós mentimos. As ruas estão cheias de mentirosos. O tempo mente. Poemas mentem. Não busco verdades, senhor. Eu busco mentiras bem articuladas. Mentiras harmoniosas. Mentiras que me façam viver. Mas eu não minto o tempo todo. Ele disse isto, olhando nos olhos da mulher que o olhava. Ela sorriu novamente. Você mente. E tão mal que se convence. É sua canalhice falha que o faz igual a tantos. E como seria esta canalhice diferente? Eu ainda não sei. Mas é isto que estou tentando encontrar desde que nos conhecemos. Você também é canalha? Ele estava ansioso à espera da resposta. Um segundo após, ela o beijou e disse que o amava. E sorriu, fazendo com que o homem se sentisse único naquele quarto aberto para o mundo. Depois se beijaram de novo e o fim de tarde tornou-se, hora após hora, o excesso mais perfeito de suas vaidades. Corpos não mentem quando as bocas decidem calar as verdades.













12 dezembro 2013

há diversas quadras








dragões alados



O amor encosta-se em mim e me observa calado. Nada me interroga. Seu peso é como o peso de centenas de dragões alados, planetas insondáveis e naves que mergulham em outras gravidades. O senhor das tranquilidades me devora em mansidão. E não amola a palavra fazendo-se de rogado para que seja vulgar como aposta que se faz entre cavalos. Corre solto o amor que me perverte. Este amor que é meu jardim de frutos amadurecidos e, de tão vividos, já se formam construídos em ninhos. Se me questiono a respeito do que seria de meus dias sem este amor que nunca acontece na presença de olhares vivos, eu mesma respondo, senhora de uma única sabedoria, que de mim seria o mesmo que me acomete na presença de olhares críticos. Amor que sinto é segredo meu e nunca será dito. Em público, eu o silencio. Mas, em meu silêncio, eu o denuncio. Pois de nós somente nós nos sabemos. Entre este amor e eu somente nós acontecemos.







sapatos brancos



Sabe-se lá o motivo, mas o homem passou a vida inteira calculando o alarde que sua morte causaria. Fez planos de como seria o dia de partir e deixar para trás suas quinquilharias. Fez partilha de bens para seus familiares, esperando que somente de suas riquezas pessoas falassem. E imaginou, de forma risonha, a reação de cada indivíduo que estivesse presente em sua partida. O homem ensaiou ritos, calculou volumes líquidos das lágrimas choradas e até a roupa que vestiria seu corpo estava entre seus arranjos: terno preto e sapatos brancos. O homem imaginou sua morte como um grande evento de uma vida inteira. Mas se esqueceu de um pequeno detalhe: ele, embora se colocasse como o centro das atenções, seria o convidado ausente de sua festa derradeira (até que se prove o contrário). Porque morto não fala, não sorri e nem debocha das desgraças. Morto é pedra inerte. Silêncio inteiro. Memória que ao tempo esgarça.







álibi



Rita comprou um relógio que, segundo o vendedor, trazia em si um mecanismo de alarme. Rita testou o aparelho, ficou contente com o resultado e foi para casa viver seus dias de esperar que o alarme falhasse para que ela tivesse, enfim, um álibi. Que o alarme fosse o único culpado de suas faltas, renúncias e descasos. Porém, quando a consciência lhe pesou nas costas, Rita quebrou o relógio em mil pedaços e decidiu provar que sua vida era somente por ela mesma corrompida e desgraçada. Rita deu risada. A culpa pesa menos quando se dá as caras.