17 dezembro 2014

nunca estivemos tão loucos










Creio que isto não seja novidade. Na idade média, sem dúvida alguma, havia mais loucos que hoje em dia. Porém, a loucura era diferente. Não comparo. Sigo em frente. Tenho roupas para dobrar e ligações a fazer. Paro para escrever e falar do que me enlouquece. De tarja preta. De ficar besta. Hoje cedo fui ao centro. Fumantes se aglomeram e conversam como bandidos encurralados em uma cela. Na cena, uma senhora se aproxima e diz que fica puta com as coisas deste mundo. Concordo. Eu vivo puta. De ira. De ódio puro. Mas finjo sorrir para não agredir gregos, troianos e amigos mais diabólicos que o próprio diabo em carne e osso. Estamos todos loucos. Crianças se vestem como adultos. E beijam na boca. Talvez seja questão cultural. Por bem ou por mal. Senhor vendendo água para bancar natal em casa e mulheres calçam saltos altos para esbanjarem suas bundas de nenhum quilate. Perdoe meu machismo. Não era isso que eu queria dizer. De embargo, estou até o talo de minha paciência. Não fale para não incomodar. Aja de acordo. Proibido pensar. No carro, porque sou cria da classe dos idiotas que não gostam de ônibus, ouço música e observo pessoas que passam. Música bonita. Rima boa para o cenho franzido do guarda da esquina que não caça ladrão, pois o homem não corre em vão. Leio de tudo. Coleciono, em meus olhos, múltiplos outdoors que mentem. Roupas para o fim de ano. Fé para o fim do mundo. Depois das eleições, ninguém parece o mesmo. Todo mundo optou por um posicionamento. Eu não ouso. Tenho medo de absurdos e ouvidos moucos. Mas acredito que haja uma folga neste estouro de coisa ruim que nos acomete. Um sorriso verdadeiro, uma mão que afague sem engano e um beijo na boca que não seja por interesse i(mundano). Tudo irá melhorar. Com paz e ferro. Esperemos em pé para seguirmos a tropa com o nosso caminhar histérico. Não quero parecer apocalíptica. E nem sou. Sou apenas uma a mais na estatística. E pago muito caro para ser enganada pela mídia. Amém. 










21 outubro 2014

das memórias curtas














Dia claro. Gripe forte em plena primavera. O cachorro caminha pelo jardim. Sempre com a língua de fora. Parece até que sorri. Percebo que ele está com sede e lhe mostro a tigela de água. Ele bebe. Porém, continua com a língua de fora. Dou de ombros e leio. Mario Benedetti me caiu bem. Veja como sigo seu estilo, escrevendo a respeito de coisas minhas, que nem são tão minhas. São mais retratos de uma memória curta. E ouço esta canção: Mariachi. Autoria: Ani DiFranco. Quando vejo filmes ambientados em Nova Iorque, sempre surge alguém ouvindo Ani. Gosto tanto que sequer julgo o filme. Vasculho o mundo em busca da música que tocava. Sempre fui de música, mais do que da palavra escrita. Minha vida é marcada por canções. E por pessoas. Mas, por serem mais controláveis, prefiro as canções. E era assim que eu costumava voltar do trabalho: ouvindo música e cruzando calçadas com meus passos lentos. Eu morava perto de onde ensinava inglês e adorava caminhar. Fazia isto quase todo dia. Eu adorava ver pessoas. Observava traços, gestos, ouvia suas falas como um tipo de deus distraído. Era perfeito. Parei de caminhar no dia em que um maluco tentou me acertar com uma lata. Na cabeça. Mas não foi por medo. Foi apenas por precaução. O medo não me alcança tanto. Deveria. Porém, não sinto tanto medo assim. Após desistir de caminhar, passei para os ônibus. E sempre com meus headphones me ditando palavras. Tudo era sonoro e harmonioso. Ruas, casas, sinais de trânsito. Aprendi mais em ônibus do que em conversas perdidas em alguns bares de mesas lotadas de caras carentes. E logo veio o carro. Trancada em quatro portas, movida por música e meus olhares furtivos, me sinto bem em automóveis. Mas não dirijo. Alguém sempre guia o movimento que virá. Se esquerda, direita ou linha reta. Detesto tomar partido em direções. Mas faço. Não há fuga. Agora mesmo, passo por uma prova de alta valia social. Eleições causam isto em um país cuja democracia empurra o voto garganta abaixo. Não entendo de política. Já disse isto. Mas cumpro meu papel. E dialogo a respeito. E trato bem quem quer que seja. Não me afasto daqueles que não seguem meu ponto de vista e sequer idolatro aqueles com os quais compartilho igualdade de decisão. Sou bem compreensiva. E, já com alguns fios brancos de vivências múltiplas, teço meus dias a partir das músicas que ouço. E, se por segundos o silêncio me tomar de conta, será esta a canção que ouvirei. Mas nunca o grito do Ipiranga. Estarei em minha cama. Ou andando pela sala. Ou indo ao trabalho. Mas será de música e não de palavras bárbaras que servirei meus ouvidos. Veja. Estou calma e planando em vocábulos que me levarão a dizer isto: minha liberdade é o que mais me assombra. 

19 outubro 2014

carta para ninguém











Esta é uma carta que não será enviada a ninguém. Porém, o ato de escrevê-la faz com que se torne lida. Não pelo destinatário. Mas pelas memórias que trago de tudo que perdi o rastro. Acho que foi chá de sumiço. Ou não. Ao entrar no blog de um amigo e notar que há quatro semanas não publico nada no afeto, me senti descabelada e sem jeito. Pois não vivo sem escrever. Aliás, vivo. Mas não da forma como quero. Escrevo para me enfrentar. Sou malvada demais comigo mesma e, ao me entregar às palavras, me dou um bom puxão de orelhas. Ou me convido para o mais secreto de mim. Enfim. Estive lendo. Li muito. Fiz lista dos livros que li. Desde Virginia Woolf a Osman Lins, estive lendo e me encontrando. E, dentre as obras lidas, uma me tomou atenção especial. O livro é de autoria de Jorgeana Braga. A casa do sentido vermelho. Me joguei em cada página, pois é isto que a autora me convidou a fazer: mergulhe nos sentimentos que surgirão nas páginas a seguir. Trata-se de um livro de amor. É. Amor mesmo. Personagens que amam e se deixam levar fluidos, em uma linguagem ritmada, como pensamentos que não precisam de pontuação. Assim que terminei de ler, escrevi algo. Daí, depois de escrito, guardei. Percebi isto em meu tempo de ausência. Escrever é um ato tão completo de fazer com que algo aconteça que, após deitar cada palavra em uma página, após acolher tudo, dando forma e sentido ao que antes era só pensamento e construção, a vontade que se tem é de guardar tudo. Porque já aconteceu. Estarei sendo egoísta? Talvez. Somos todos egoístas (Graças a Deus). Imagine um mundo cheio de gente altruísta e bondosa. Imaginou? Estranho, não? Sou tão egoísta que me maltrato apenas para poder, eu mesma, reparar o estrago. Mas entenda: não sou tão má quanto digo. É apenas artifício que uso para inflar ainda mais meu próprio sentido. Estamos em horário de verão e é primavera. Ou seja: nada está exato. Uma coisa se une a outra e, logo, tudo é toda coisa. Já desisti de tentar dividir-me para me entender em partes. Decidi viver de forma larga. Vasta mesmo. Calma e transparente, levada pela mais próspera paciência, espero que tudo me console de vez ou que me acabe em uma dor triste de fazer escoar cada gota de sangue que há nas veias que se enroscam nesta essência física na qual me faz de forma a natureza. Mas estou enrolando. O que gostaria mesmo de dizer nesta carta para ninguém é que sonhei com você. E foi perfeito o sonho. Ao acordar, quase telefonei. Porém, me lembrei: não tenho seu número de telefone. Nunca anotei. E nunca pedi para que me desse livre acesso ao seu mundo particular de raridades tolas. Aliás, ninguém pede permissão para isto. Mas sonhei. E, em meu sonho, foi como ter você por escrito. Belo, por mim grafado, e nítido.












01 setembro 2014

delivery








A vida de Edgar


Estava tudo por um fio. De linha, de querer morrer. O gato, Tertúlio, estava morto. A mulher, Dionísia, havia fugido. A geladeira, Brastemp, estava vazia. E, para arrematar, seu time estava na zona de rebaixamento. Era muito para Edgar aguentar. Porém, como todo bom homem, ele decidiu que seria forte. Em nome de Deus, catou um gato na rua, foi ao supermercado, enchendo, então, a geladeira de porcarias enlatadas e ligou para um serviço de acompanhantes. Mande-me uma que seja jovem, ordenou Edgar. E, neste piscar de olhos, sua vida estava novamente por um fio. A única dúvida que permanece é quem estará controlando tão precário exemplar de marionete?


(antes, ficção)








Um mês sem escrever (no blog). Daqui a pouco, irão dizer que estou desaparecida. Então, dou as caras. Talvez eu tenha medo de sumir. Admito. Mas vivo sumindo. Percebo que pratico tudo que me causa medo. Um exemplo: tenho medo da verdade. Porém, ando com a minha sempre exposta, pensando o que acho que não devo esconder de mim mesma e acreditando que estou agindo certo. E isto é um diário. Só me falta dizer o que fiz durante o dia. Já percebeu que todo mundo tem necessidade de dizer o que está fazendo da vida? Todo mundo enfatiza o que faz e deixa de fazer como prova de que não está vivendo em pleno ócio. Talvez seja pecado. O ócio. E eu, que evito religião, falo em pecado. E digo mais: não confio em gente que diz amém a cada enunciado que transmite. Há (quase) sempre muita sujeira na cabeça e na língua de quem faz isto. Ou que fala demais em Deus. É como repetir algo para si mesmo até que se possa acreditar no que se diz. Entende? No mais, percebi que a sola de um de meus sapatos favoritos está se soltando. Pensei em colar. Mas, se eu colar a sola, não será mais o mesmo sapato. Será outro. Será um sapato colado. Não gosto de enchimento, de tingimento e duvido de muita maquiagem ao meio dia. É sinal de ruga imprópria. Das leituras, li muito mês passado. Autores que conheço e autores que já morreram. Gostei de quase todos os livros. Não citarei o título. Não vejo necessidade. Um deles me tirou a paciência. Quanto mais eu lia, mais o livro se alongava. As páginas brotavam. Eu cheguei a calcular quantas páginas eu conseguia ler por dia. Decidi deixá-lo de lado. Tenho uma pilha de livros que caracterizei como "livros que desafiam minha paciência". Eu os organizo por ordem alfabética e, se o tempo permitir, irei ler todos eles quando eu estiver com maturidade suficiente para dizer que estou serena. Há desafios que suporto. Porém, há outros que eu pulo. Como se fosse um tabuleiro de jogo, eu pulo casas, escondo dados e roubo, se for preciso. Nunca fui muito honesta. Será honestidade ou santidade isto que digo não possuir? Em meio às dúvidas, parou de chover. E esqueci pessoas. Esqueci tanto que sequer as menciono. Como diria uma amiga, veja só como ela está mocinha. Estou mocinha e encabulada. Sinto mais vergonha do que vontade. E amor mais do que necessidade. E estou escrevendo para dizer que parei de apostar em cavalos. Agora só aposto em tartarugas. Pois estas sempre chegam ao destino. Cavalos, muitas vezes, se desviam no meio do caminho.









27 julho 2014

fútil beauvoir










A aranha tece puxando o fio da teia
A ciência da abeia, da aranha e a minha
Muita gente desconhece.

(João do Vale)






Abro o e-mail. Caixa de entrada lotada. Espaço para mais nada. Excluo alguns, leio outros. Limpo os spams. Exclusão. Há filtros também. Marquei algumas mensagens com um filtro para que caiam logo na lixeira. Já chega de demonstração de genialidade. Quando quero um gênio, abro um livro. Ou ouço música. Agora estou ouvindo Caetano. Álbum completo. É simples. Você vai ao YouTube e cata uma seleção qualquer e ouve as músicas. Nada mais está complicado. Aliás, está. Eu. Olá. Sou complicada do início ao fim. Mas onde é o fim? Pergunto mais não. Calo de novo. Assisto a programas que falam em alienígenas. Mas será que já não basta o que temos? Será que precisamos nos preocupar com o que há no planeta vizinho? Dormi no ato. Acavalada e coberta. Tão delicada quanto um soco na cara. Acordei. Inverso enunciado. Romântica marionete. Fútil Beauvoir. Estive pensando em pessoas. Não muitas. Conclui que cometo uma gafe imensa. Ao conversar com um amigo, ele bocejou. Diversas vezes. Daí eu lembrei que também bocejo. E no meio do verbo. Má educação da porra. Desculpe o palavrão. Não há coisa pior que demonstração de falta de interesse. O melhor seria fingir. Quer um conselho? Finja. Orgasmo, riso, vontade de abraço e até o escarro. Nós adoramos fingimento. Só não aguentamos a verdade. Vi a verdade. Igual Vovô viu a uva. Verdade egoísta, de calça jeans e barba. Mas é claro que esta é a minha verdade. Todo mundo tem uma verdade. A sua não é a minha. E, se for, um de nós tem problemas. Não gosto de quem concorda muito. É indício de falsidade. Que não é fingimento. É roupa tingida por cor nenhuma. Então, afaste sua falsidade de mim porque dela não preciso não. Preciso de amor. Preciso de grana. Preciso pagar dívidas. E preciso ler alguns livros. Mas não preciso de gente abrindo a boca de sono enquanto verbalizo. Nem ao melhor canalha eu me escandalizo. Mas ergo uma taça e convido ao brinde. Seja um bom canalha comigo que eu serei sempre a mulher que sou. E, depois disto, versam as línguas que a Maria nunca mais bocejou.










13 julho 2014

mutilada e otimista










Acordo. Abro a janela. Chuva e céu nublado. Estou meteorológica e cínica. Meu rosto está ressecado. Creme para as mãos e para os olhos. É preciso ser otimista. Por isto, passo creme na cara e me deixo vestida de pijama pela casa, enfrentando a limpeza da qual sou íntima. E do silêncio. Minha geração está doente. Não somos como nossos pais. Nossos pais vivem bem (aos trancos e solavancos). Mas nós, não. Sofremos de doenças que sequer existem. Males psicológicos. Paranoias imensas. Insatisfação que de nada se alimenta. A não ser de nós mesmos. Esqueço. Agora voltei aos óculos. Comprei. Óculos enormes. Esverdeados e lilás. Ou será outra cor? Estou daltônica. Óculos que preenchem além dos olhos que leem notícias de guerra, de sabotagem, de ódio. O mundo deveria acabar, dizem os mais revoltados. Eu não digo nada. Apenas leio. Bombas que não trazem alegria. Palestina mutilada. E ainda dizem que futebol é importante. Qual o peso disto na vida de um humano mutante e cheio de dramas espetaculares? Zero. Não me importo com futebol. Só em tempos de Copa. E logo teremos teorias que provem que tudo não fora comprado. Tudo fora vendido. A copa foi vendida para nós que a compramos por um preço muito alto. Bebida, infartos, brigas, terrores mínimos. Nada me surpreende tanto quanto a reação humana que é tão singular na derrota. Dizem que não sabemos perder. Mas como perder se nunca ganhamos? Não diga isto. Ganhamos vida a cada hora. Eu ganho. Aliás, eu recebo: amor, beijos e elogios. Mas ainda estou vazia como um cômodo de uma casa na qual não mora ninguém. Estou preenchida de oxigênio e várias outras substâncias nocivas. Dizem que ioga cai bem. Tudo cai bem para esta indigestão de consciência. Como pude me deixar levar por conversas tão tolas? Como pude, desde minha infância, acreditar em tamanhas mentiras? Fácil. A gente sempre escolhe o alimento que a mandíbula irá mastigar sem que haja muito esforço. A gente sempre escolhe o caminho mais aberto. Ou mais próximo. Ou mais risonho. Meu rosto está ressecado. Passo creme e olho no espelho. Minha geração sorri de graça e sofre por uma caça que ainda não se mostrou. Volto ao cinismo que é próspero. E à hipocrisia que é otimista, dizendo que tudo ficará bem no fim de cada dia. E só me resta dizer amém. 











06 julho 2014

sexo, amor e beijo na boca









Domingo é dia de churrasco, passeios e cerveja. Ou talvez seja um dia propício para ir à igreja. Ou, quem sabe, seja um bom dia para se esticar na cama e dormir sem as barreiras e obstáculos da semana.

Não irei citar o número imenso de outras coisas que pessoas passam em dias quaisquer. Há quem esteja sofrendo enquanto outros estão sorrindo. Eu quero apenas falar deste domingo.

Dia claro, de sol frio e chuva que vai e vem. Acordei e arrumei a cama. Li, certa vez, que arrumar a cama ao acordar faz bem. Não sei por que acredito em tanta idiotice. Tenho um forte senso para ser idiota. E sou. Com toda pompa e glória. E no superlativo.

Decidi que meu domingo seria de leitura e música (como coisa que a gente decide algo — porque, amigo, vem a vida e muda tudo — de repente). Mas consegui. Voltei a um livro que parei de ler há tempos.

25 MULHERES QUE ESTÃO FAZENDO A NOVA LITERATURA (Do Brasil, viu? País da copa das copas).

O livro é bom. É uma forma de encontrar o que se escreve por aí, que não seja clássico, pedante ou (enfim).

Começo a leitura. Primeira narrativa: homem, sexo e beijo na boca. Segunda narrativa: sexo, amor e beijo na boca. Terceira narrativa: Bebida, sexo e beijo na boca. Talvez não nesta ordem. Mas eram estes os temas das três narrativas que li. Decidi ir ao prefácio e saber se havia alguma explicação acerca daquilo.

O autor do prefácio deixou claro que mulheres ainda são levadas a escrever a respeito de um universo de romantismo movido por sentimentos. Explica ainda que na literatura são os homens que tomam o ofício de escrever a respeito de outras coisas. Mulheres, por questão de adquirem leitores, são levadas a falar de forma passional, narrando suas vidas ou experiências de amores.

Cruzes.

Concordei com a voz do prefácio. O mundo é macho mesmo. A gente, mulher, fica meio torta quando assume um papel menos "feminino" dentro da arte de escrever. A mulher que assume este risco precisa ter sangue frio para receber conselhos, tais como:

— Por que você não escreve contos eróticos?

Ou,

— Por que você não faz poesia?

Como se fosse coisa de mulher escrever conto erótico ou escrever poesia que ressalte um FALO ou o típico amor romântico. Sempre digo, quando ouço certos conselhos, que escrevo o que consigo. Eu não me arrebento toda para escrever algo que irá agradar. Se isto acontecer, que seja. Caso não aconteça, fazer o quê? Nem todo circo tem bons palhaços.

Era domingo, então. E eu estava lendo este livro que mencionei e que me fez pensar na literatura que é feita. Literatura feminina, com capa bonitinha e beijo na boca no fim da cena. Não sei se tenho jeito para isto. Sei apenas que leio autoras que vão além. Eu leio mulheres que falam da vida de um cachorro, de um homem bêbado, de uma barata e de ondas que trazem o vento. E leio homens que escrevem a respeito de sexo, amor e beijo na boca.

Essa coisa de literatura de calcinha ou cueca não deveria existir.

Não mais.

Deveria ser arte. Escrever pela arte. Por um amor que não é passional, mas sim, cúmplice. Por uma necessidade venosa de escrever e escrever sempre. De criar e contar histórias.

É isto. Nem sei se cheguei a concluir o que pensei antes de começar a escrever. Lembrei. Eu pensava a respeito da busca por assuntos que agradem o leitor. E concluo dizendo que isto é coisa de revista, que faz o editorial de acordo com as tendências da semana. Ou do mês. Autores apenas criam. Escrevem. Talvez busquem, vez ou outra, falar de assuntos que sejam pertinentes ao tempo em que vivem.

Sim. Isto é certo.

Mas, catar leitor falando de sexo, amor e beijo na boca, como se isto fosse prova de ser feminina, admito: sou assexuada. Nem homem, nem mulher. Escrevo o que digo. Se pareço passional (e sou), não peço desculpas. Apenas sigo escrevendo e carregando este rótulo de blogueira, autora e algo que ainda não sei denominar.

E domingo é dia de qualquer coisa. Dia de vida. De pura liberdade de escolha. Já chega deste caminhar por um trilho só.









27 junho 2014

reflexivo









Dia desses (acho que foi ontem) li um artigo de opinião que falava a respeito de mulheres que se dizem independentes e que, por tal razão, assustam homens que não gostam de sua independência. O artigo falava de mulheres modernas e muito competitivas, que saem com suas amigas e trabalham muito e reclamam dos homens que fogem delas porque elas são fortes demais para serem levadas em um relacionamento. Ao terminar de ler, não pude deixar de pensar: Onde está esta mulher horrível? Onde vivem tais mulheres tão poderosas que mal conseguem dar um jeito em suas vidas amorosas? Mas daí outra coisa me incomodou: Vida Amorosa. Será que isto é tão relevante assim? Já saindo do tema abordado no artigo, fico a pensar em vida amorosa, que é um mito que seguimos desde que começamos a ler conto de fadas. As meninas, claro. Meninos costumavam jogar futebol de botão, em meu tempo. O termo Vida Amorosa parece clichê e é. Pessoas, não importam se homens ou mulheres, estão sempre em busca de alguém que complete suas vidas. Alguém que dê sentido aos dias. Alguém que, de alguma forma, os faça saber que existem. Pessoas querem ser amadas e não se importam muito em dar amor. Outro clichê, né? Muito. Eu sempre tive receio de falar de amor em público porque talvez eu seja uma mulher que cresceu lendo livros mais existencialistas que românticos à la Sabrina. E não sou feminista. Sou conservadora, segundo me disse um amigo. Mas isto é outro assunto.

Vida amorosa ganhou, nos últimos tempos, este tom de importância como se fosse algo sem o qual não se pode viver. Vida é vida. Tendo ou não alguém ao seu lado, você terá que viver. Você terá que trabalhar e cumprir suas obrigações e continuar. E ser quem você é (com ou sem chapinha — com ou sem barba). Amar vai além da busca por alguém que "caiba nos seus sonhos" de se preencher porque se sente como uma fronha de um travesseiro esquecido. Mas quem sou eu para falar de amor? Eu me pergunto isto. E nem sei por que estou falando neste assunto. Há tantas coisas mais importantes. Mas amor é importante. Afeto é importante. Porém, não está no topo da cadeia alimentar. A gente deixa de se cuidar, de estar bem consigo, de se preencher com mais conhecimento e experiências, para se preocupar apenas se fulano ou fulana irá telefonar após uma noite de beijo na boca.

Estar só não é o fim do mundo. É apenas o começo. Ou uma fase. Mirem-se no exemplo das crianças que começam a andar sozinhas para, somente depois, aprenderem a andar de mãos dadas.

Eu creio que é isto. Não adianta estar com alguém apenas por estar e ainda sentir-se capenga por não conseguir amor suficiente para preencher um sonho. Vida amorosa deveria ser mais uma partilha e não uma guerra de fazer feliz alguém que talvez esteja ali apenas por ter medo de morrer sozinho. Sim, isto pode soar frio. Mas nem tudo queima, baby. O amor é lindo. Apaixonar-se é perfeito. Mas não ocorre com tanta frequência como se mostra em filmes porque talvez estejamos muito preocupados em encontrar alguém que caia de amores por nós. E quase nunca o contrário. Então, antes ou depois da independência das mulheres ou dos homens, há sim uma solidão imensa dentro de todos. Estando ou não em boa companhia. E isto vai além de uma vida a dois. O homem (generalizo) precisa antes estar só. E, somente após isto, após engolir poeira de solidão, possa, talvez, aprender a amar outra pessoa por completo. Sem esperas ou muletas. Amar é verbo que se conjuga no plural. Reflexivo. E se o amor não der certo, como diz o poema, outro amor virá. Ou talvez não. Mas algo virá. E sua vida ainda será vida, mesmo que você passe tempos solitários. Vida amorosa, acima de tudo, é estar bem consigo mesmo nesta bagunça imensa na qual vivemos.










31 maio 2014

bonus track











Há extrema beleza em relações que são mais curtas do que o pavio que não alcança a pólvora. Melhor desertar. Melhor não recriar a história. 

(Flora Conduta)







Perigo. Mulher em cúmulo de TPM, portando cartão de crédito, vasculha sites de roupas e calçados. Minha mãe costuma dizer que TPM não existe. Ela diz que é frescura. E eu concordo. Não existe TPM, nem alienígenas. E também não existe isto que eu escrevo. É invenção besta. Genocídio particular. Matar ideias que não valem muito. Elas apenas valem o momento, que já não é lá essas coisas. De novo, enchimento para o travesseiro. Fula da vida com nada, a mulher liga a tevê. Pesquisas Revelam. Pesquisas estão sempre revelando algo. Deveriam, só por novidade, dizer que ocultam. Pesquisas ocultam. Assim como pessoas que ocultam. Assim como orações que ocultam o sujeito. Eu admito ter uma queda por orações deste porte. Por esta razão, eu nunca indico o sujeito. Posso até anunciar endereço, mas não aponto o dedo. Sou discreta. Igual cisco no olho. Eu incomodo, mas não me mostro. É preciso, para que eu seja vista, uma boa revirada em gavetas, rever álbuns antigos ou reler alguma anotação escrita por razão estúpida. Assim, talvez eu surja: a intrusa radiante. O cisco aparente. Salto agulha oculto por vestido longo. Liquidação virtual engana. Nada vale o preço que se cobra. É sempre mais ou menos. Não sei subtrair. Logo, sou levada a adicionar. E daí eu me ferro: adiciono até coisa que não sinto. Isto é absurdo. Exercito a indiferença. Mas, até com aqueles que jogam sujo, minha atitude é educada. Nunca desejo o mal. Desejo felicidade, passe bem, boa tarde e um punhado de culpa em dias de solidão. E a casa está vazia, Bruce Springsteen canta Thunder Road. Roy Orbison singing for the lonely. Trecho perfeito da trama. Mas ninguém é tão solitário assim. Todo mundo é múltiplo de um baita inventário de gente que vai e vem. E de gente que não volta. Gente que escapa pelos vãos. Gente que a gente inventa de enfiar em nossa história. Gente que nem estava no script. Somos palco estreito. Melhor poucos personagens a multidão que apenas enfeita a paisagem. Por fim, a mulher desiste da compra, pensa na importância de outros assuntos e se enfia nas cobertas de sua cama. E ela diz que sente muito por tudo que disse sentir. Ela nunca soube ficar calada. Do dicionário, a mulher sempre quis usar todas as palavras.













15 maio 2014

os pés pelas botas








Que horas são? Pergunto. A resposta está no carro que passa e atropela sapo que saltava em poça d’água. O céu está azul e, certamente, há pessoas aproveitando o sol que se deixa estampar em alguma praia. A campainha toca. É o carteiro. Ele arremessa um envelope imenso que não abro. Apenas verifico se estão corretos endereço e destinatário. Enquanto isto, há um pequeno aparelho ao meu lado. O aparelho não para de vibrar; ele insiste, ele coexiste. É o celular. Lembro ainda o tempo em que telefone só servia para telefonar. Era bom. A gente dizia alô, ouvia alô, falava alguma coisa e dizia até mais ou tchau. Hoje não. Ter um telefone é como estar ao lado do mundo inteiro de gente falando e contando histórias ou praguejando ou chamando atenção. Não me lembro disto no passado. Era tão difícil ver alguém irado ou fulo da vida ou pelado. A vida era mais discreta. Hoje em dia dizem que ganhamos liberdade de expressão. Acho que não. O que ganhamos, por nosso excesso de liberdade, é o avesso dela: estamos aprisionados. Envidraçados. Agimos de acordo com as normas: Não diga o que você está pensando. Diga o que você deveria estar pensando. É isto. A verdade se traduziu no ato de fingir. Ou mentir mesmo. E, quando o fingimento transborda, a corda arrebenta e alguém acaba metendo os pés pelas botas. Entende? Repare bem que eu estou dizendo o que eu penso, mas de forma que pareça que estou pensando em algo que não seja isto. Inventei de criar uma conta em um aplicativo de fotos. Um horror. Sempre que vejo as tais fotos (que são minhas), digo: Mas eu estou tão diferente aqui, nesta imagem. E o aplicativo ainda informa o tempo. 16 semanas atrás. Socorro! Estou mudando muito rápido. Estou envelhecendo. Estou engordando. Estou acontecendo. Estou morrendo. Estou tão tempo. E as notícias surgem instantâneas. Arrastão ocorre agora, multidão grita por seus direitos, tente não enfrentar o tráfego na Avenida Dom Pedro II — tudo está engarrafado. Só agora perceberam? Este engarrafamento vem se formando há décadas. Tudo começou pelo começo, quando a gente se esqueceu de ser de verdade e passou a agir feito ponteiro despencado que desrespeita a lógica dos números inteiros. Eu tenho medo de abrir meu e-mail. Eu evito telefonemas. Eu ligo a tevê e não consigo mais ver tanta barbaridade que ocorre enquanto a gente sorri em fotos que sequer são de verdade. Se estou fugindo? Não creio. Estou apenas observando o céu que está azul. E não sei bem no que estou pensando. Talvez eu esteja apenas elaborando. Sem pressa. E, com todo respeito ao tempo, estou apenas vivendo uma fase silenciosa que não berra ao fervor da chaleira. Penso que somente quando pararmos é que saberemos o que o tempo está nos fornecendo: se morte, vida, alegria ou fartos instantes de arrependimento.












16 abril 2014

dia vulgar









Ao amor,
este segredo.





Estou escrevendo para alguém em particular. Com as mãos abertas para dar o que não recebo. Sou altruísta e, ao extremo de meus excessos, me vejo. Acampada em uma colina, penso estar observando o céu. Preciso deste momento de solidão para saber que não estou só. Estou inteira. E escrevo para organizar palavras que a voz não diz. Os dias estão cheios de trabalho. Recebi reclamações. Aceitei de bom grado. Mas fiz cara de menina mimada e triste. Quase sofri. Em telefonema, eu disse a uma amiga que não me permito sofrer (em vão). Mas penso que evitar algo já é quase dor. Entende? Recebi conselhos religiosos que me fizeram pensar a respeito de Deus. E eu o imaginei. Sentado à mesa, a repartir o pão em minha presença. Estávamos juntos. E conversamos sobre coisas triviais. E Deus sequer citou a Bíblia. Eu não gosto de conselhos que me digam quem eu sou. Pessoas gostam de dizer que sabem quem você é. Pessoas gostam de caracterizar tudo aquilo que não entendem. Troco pronomes possessivos para não permitir compreensão. Veja só como me limito. Li trecho de Bukowski em que ele dizia ficar em silêncio para não ferir. Eu também faço isto. Dia desses, banquei flor de enfeite para alguém que não demonstra afeto. Eu o fiz porque pessoas precisam falar de si. Esta lição eu aprendi. E com louvor. Eu deixo minha presença aos que me convidam. Não aprendi a me negar. Mas tanta doação pode deixar o bolso vazio, eu penso. E assim eu me senti: vazia. Como um bolso vazio. Sem dor alguma. Felicidade? Talvez metade. Indiferença não me fere porque eu me protejo com um sorriso e me cuido para não perder o que ainda tenho que é de mim: este segredo. Este que nunca direi por pura falta de coragem. Cães ladram enquanto redijo. Eu não sou santa. Eu sempre tenho interesses ocultos. Mas não posso contá-los. Nunca. Porque eu não os conheço. Meus segredos são criados pelo tempo. Escondo coisas pela casa. Pingentes, anéis, marcadores de livros. E, quando as encontro, sinto-me feliz por não tê-las perdido. E isto é quase um diário. Só erra em gênero por eu não me deixar tão vista. É preciso olhar com lupas, e bem de perto, pois estou acontecendo escondida. Estou acordada para minhas urgências e imaculada por amor e tinta. Eu sou uma mulher viva. E estou imensamente feliz. Embora eu nunca o diga.











07 abril 2014

euforia











De segunda a sexta nós acumulamos nossa sede para viver no fim de semana. Já reparou? A gente vai alimentando o que sente (se é que sente), esperando que tudo venha para nossas mãos. É um tal de deixar agenda em dia, pessoas em dia, tudo em dia. Até depilação. E é claro: a gente também corta o que não nos serve mais. A gente não quer café de ontem. Então, a gente dispensa. E a gente se engana ao pensar que nós não seremos dispensados. Também é largado o jogo que se torna decorado. Entende? O mundo é vasto e há novidade sempre. "E a gente não quer só comida". A gente quer comida, conversa, bom trato e amor de sobra. Mulheres maquiadas e homens em forma. Sempre que eu saio por aí, vejo esta cena que me faz lembrar festinhas dos anos 80. Todo mundo esperando a hora da dança. Naquele tempo era romântico. Hoje em dia, é escracho. Porque não é só dança. É beijo na boca de estranhos, sexo sem vênus e muita grana gasta para, quando chegarmos em casa, aguentar o vazio da bebedeira. Ressaca pior não há. Ou talvez haja. Mas eu não quero falar a respeito. Saí ontem e conheci alguém que, por via das regras, fingirei não conhecer da próxima vez que nos esbarrarmos. Conhece esta história? Tão comum quanto um mais um. Na verdade, velha e boa, a gente não passa de um bando de pessoas egoístas, chatas, medrosas e vaidosas, que morrem por doses pequenas de afeto e sexo que nem sempre é bom. Te digo que sexo só é bom seguido de conversa. Ou silêncio. Ou porta fechada na cara. Assim como cavalgar, que só traz prazer em belo cenário. Enfim. Não estou muito para escrever. Mas ainda há algo que preciso dizer: O problema não é o palheiro. Mas a agulha que gasta sua linha fazendo costuras em farrapos imensos.









26 março 2014

sobrevivente









Aos amigos
Que estão vivos







Eu nunca admiti, mas eu tenho medo de gente. E principalmente de gente que julga. Mas daí que todo mundo julga. Logo, eu tenho medo de todo mundo. Sinto-me tão infantil ao dizer isto. E medo é coisa de criança, né? Então eu sou criança. E hoje não é dia de brincar no parquinho nem arremessar pedrinhas na água até que elas formem grandes círculos. Hoje é dia de brincar de espelho, olhar bem nos olhos e tentar entender o que temos feito. Antes, bem no começo, tudo o que me importava era escrever. Eu só queria escrever. Eu lia muitos livros e escrevia. Dia e noite. Anotava tudo que eu sentia ou queria sentir. E escrevia. Eu transformava a vida no que eu queria que ela fosse. A vida era minha. Dentro de minha casa, de paredes forradas de quadros, eu estava protegida de qualquer agonia que fosse real. Os únicos conflitos que eu vivia eram os de meus personagens. Este era o meu perímetro de conforto. Ou zona de conforto. Mas daí eu inventei de viver. Inventei de conhecer o mundo e as pessoas (das quais eu disse sentir medo). Foi só tirar meu corpo de minha redoma de livros e ideias, que entendi o quanto eu me escondia de tudo. Porque era seguro o esconderijo. Era sexo feito de voyeurismo. Agora é a hora em que digo que viver é foda, igual dizia o Renato Russo. E é foda sair da zona de conforto. Eu nunca me sentia pronta para lidar com as realidades todas. Sempre fugi. Porque o contágio humano é perigoso. É arriscado. E sempre sobra algum estilhaço que fere a gente. Quando decidi largar minha casa e meus papeis de contos inventados, foi o momento exato de sentir que era preciso viver um pouco. Mas quanto é pouco? Fui vivendo e conhecendo gente. Gente boa, gente não boa, gente que mente. Todo mundo igual, mas tentando parecer diferente, com opiniões grandiloquentes e muito medo. Todo mundo sente medo. Ao perceber isto, que é muito fácil de se notar, eu passei a observar com maior humildade a atitude das pessoas. A forma como falavam, as formas como amavam e odiavam. Uma coisa que percebi ao sair de minha proteção é que há amor demais no mundo, embora haja tanta gente sofrendo. Isto é do Bukowski, né? Que seja. Mas é assim. Todo mundo de bandeira na mão, cantando revolução por um mundo melhor, "mas ninguém quer sair para comprar o pão". Pessoas querem velocidade ao sentir e ao se relacionarem, mas não possuem paciência alguma ao elaborarem seus afetos. Eu também sou assim. Acendo lâmpadas e quero luz. Naquele instante. Se tudo me demora, desisto e volto a contar histórias. Mas isto não é certo. O adequado para a idade que me contamina de experiências seria a tolerância com as coisas e com o tempo. Tolerância e esforço para que tudo se transforme em algo melhor. Estamos em crise, todos dizem. Mas ninguém conserta os erros que suas atitudes produzem. E nem sei por que escrevo isto. Talvez seja medo de me perder na multidão de gente que conheço. A gente se perde em outra gente, sabia? A gente se esquece em outras pessoas. E, talvez, quando isto acontece, seja a hora de voltar ao abrigo. Mas eu volto sobrevivente. Aprendi que nem tudo pode ser meu, mas o que tenho é meu somente. Ouvindo a música que um amigo me enviou, eu escrevo. E a este amigo eu digo que só estamos inteiros por termos tido coragem, por termos perdido algumas lutas, por termos nos deixado partir em pedaços. É por tudo isto que estamos intactos. Você entende? Eu ainda tenho medo. Mas agora posso ir e vir mais segura de meus passos. Ou não. Quem sabe? O futuro sempre será mais tarde.









02 março 2014

carne viva










Construíram uma igreja perto de casa. E já está em pleno funcionamento. Mulheres cantam. Não há vozes masculinas. As mulheres cantam aleluias e rezam alto. Com meus tímpanos pagãos eu ouço com muita atenção o que elas cantam. Sinto até vontade de ir à igreja. Mas certamente não me sentiria bem estando lá, ao lado das mulheres que cantam. Porque eu desafino. Não comungo, não leio a Bíblia e converso com Deus como se Ele fosse um amigo muito íntimo. Eu o chamo de você. E escrevo em letra minúscula. E, para completar, eu desejo o que não é meu. Eu peco. Tu pecas. E ele, possivelmente, pecará. Há um certo ar de conforto nestes dias. As ruas estão vazias. Como sempre estiveram, devo salientar. Abro a janela e as cortinas. Observo os vizinhos jogarem lixo quando ninguém mais os vê. Eles não querem sujeira em suas casas. Por isto arremessam sacos de lixo na rua em dias que não haverá coleta. Tantas vezes a palavra lixo é seguida de luxo em alguns poemas modernos. E por falar em poemas, recebi conselhos para ler os românticos. Baudelaire era romântico? Baudelaire contraiu sífilis. Ele morreu. Mas deixou um legado incrível. Flores de todos os aspectos. Leio um trecho que me investiga. Aliás, é um verso. "E por dominares tudo é que nada te interessa". Isto é verdade. Mas também pode ser mentira. Tudo é via de mão dupla. Assim como as vozes das mulheres que exaltam Deus. Talvez elas estejam competindo entre si para saber qual delas canta melhor. Eu já vi isto acontecer. Nos tempos de escola de freiras, as irmãs costumavam elevar suas vozes e declamavam cânticos. Cada uma mais soberba que a outra. Eu gostava de ver suas caras sorridentes e cheias da malícia bíblica que tanto evitamos. Todos pecam. Todos erram. Fecho a janela e penso no homem que amo. Ele quase não fala. Ele quase não sorri. Ele é paciente. Transborda compreensão quando digo que não, que nunca, que prefiro estar só. Ele me diz que ninguém está sozinho por completo. Ele fala de forma filosófica, mas, no sexo, urra como um bicho cujos demônios cantam. Ele sorri perverso. Ele fala de minhas curvas. Ele bebe de minhas águas e sequer agradece. Será este o papel da mulher moderna? Eu não quero ser moderna. E não quero dialogar a respeito de todas as complexidades. Eu não quero ser a mulher esperta a qual todos agitam bandeirinhas de admiração e fazem carinho na cabeça como se fosse uma espécie de cria doméstica. Eu quero apenas o que ainda não sei se realmente quero. A dúvida é o meu anseio. E quando digo ao homem que ele é belo demais para se perder em palavras, estou na verdade dizendo que o quero, urrando seus cânticos maliciosos, enfiado entre minhas pernas e seios.










13 fevereiro 2014

incoerência











as pessoas correm da chuva mas
sentam
em banheiras cheias
d'água.

(Bukowski)






Tevê ligada. Padre fala em salvação. Eu apenas ouço. Acredito que ele terá de falar muito. Porque muitas coisas estão perdidas. Meus óculos se perderam. Minha fé está partida. E os carteiros estão em greve. Hoje a vida me expôs mais um dia de coisas comuns. Comuns porque eu as aceito. Mas não porque o sejam. Não houve aula na escola em que leciono. Não havia comida para as crianças. A verba para a merenda se perdeu. Onde está a salvação, senhor? Se salvar refere-se ao fato de fazer voltar ou alinhar algo que se desvia, creio que a política já está nos infernos. Eu teria vergonha caso eu trabalhasse com política. Mas quem disse que não trabalho? Tudo é política. Desde a hora em que desperto à hora em que me despeço e adormeço, tudo é política. Atitudes, palavras, reis na barriga, pessoas que passam, pessoas que mendigam. Tudo é política. Até a moça do jornal que fala em meteorologia. De saia e saltos altos, ela diz: sol quente aqui, sol quente ali, pancadas de chuva ao leste e tudo às boas no sul do Brasil. Mas será que está tudo bem? Tento mentir para me sentir melhor. Há tempos perdi minha fé no país. Que é nação. Que é gente. Não falo do país Praia e Carnaval. Isto é outro assunto. Falo do país em que um certo presidente barbudo jogou tudo sob o tapete e agora, meu deus, tudo está tão aparente. Até as rachaduras nas caras ricas que antes eram tão contentes. Tenho pena de quem é brasileiro. Logo, tenho pena de mim. Mulher, brasileira, negra e leitora de Mário de Andrade. Que, aliás, tem sido minha companhia nos últimos dias. Estou lendo Amar, verbo Intransitivo. Estou apaixonada pelo modernismo que esconde as cenas de sexo entre Carlos e Elza. Tudo tão bonito. Livro é o melhor esconderijo e, também, a melhor forma de enxergar o quanto estamos perdidos. Leio e penso. Penso e sinto vontade de fugir. Fujo e dou de cara comigo e me revolto ao me perceber incoerente. Mas será que sou incoerente? Pessoas não me parecem coerentes. Sou pessoa também. Falei a respeito disto com uma amiga. Chegamos ao ponto g da questão máxima: quase todo mundo age de forma contrária ao que diz. Comunistas vestem Adidas. Mulheres berram por liberdade, mas imploram que seus homens (ou amores) não as abandonem. Quase todo mundo diz que ama, mas na hora do amor, dorme na cama. Entende? Isto é metáfora? Isto é bobagem? Estou farta. Quero apenas Sartre de volta. E uma boa dose de verdade para que tudo em mim se salve. Eu tenho amor, a dama da noite perfuma a casa, faço tudo que gosto de fazer. No entanto, ainda engulo esta acidez de infelicidade. Ainda a verborrágica revolta me invade. E todo dia eu volto para casa cheia de tanto viver nesta cidade.










31 janeiro 2014

invasora de domicílios










Enquanto tantos escrevem poemas, a chuva cai sobre minha cabeça. Chuva leve, eu devo dizer. E ainda há esta ausência de coisas que ocupa imenso lugar. Não descobri do que sinto falta. Mas sinto. E sentir é tudo. Ou não. Talvez viver seja tudo. Do fio, a meada. Não procuro razões para que meus dias estalem perfeitos em minha boca. Espero, apenas, que sejam bons e harmoniosos e que me surja alimento para que eu não padeça de fome. Mas não falo da fome que sente a lagartixa que abre sua minúscula mandíbula para engolir insetos. Eu falo de uma fome maior que sequer sei nomear. Só percebo que estou alimentada quando a fome passa. Por isto eu leio. Leio aos bandos. E, quando termino um livro, invado outro. Não me digo devoradora de livros. Eu prefiro dizer que sou invasora de domicílios. Pois, para mim, cada livro é casa. Casa de vidas, de anos, de tempos. Eu leio para viver mais. Dia desses, ao caminhar por entre as estantes de uma livraria, percebi que eu não buscava livros. Eu buscava mais vida para meus dias que são até bacanas. Porém, por nossa vivência ser um tanto limitada, meus dias seguem um enredo de um cotidiano que é cansativo, às vezes. Logo, ler é a minha saída para me expandir. Há quem faça ioga, corra na praia, escale montanhas. E há quem leia livros. Livros que não são enfeites. Livros que não servem somente para que sejam exibidos em fotos. Livros que são escritos para que sejam lidos. Não sou traça, mas digo: meu alimento é livro. E felizes daqueles que comungam desta ceia. Não há mesa mais farta do que uma estante cheia.













17 janeiro 2014

estrangeira















Dois escritores me escreveram. Isto é redundante? Creio que não. Eles me escreveram e agiram de forma muito amável, pedindo que eu os lesse. Aliás, fora eu quem pedi para ler seus escritos. E ainda estou lendo. A escritora, uma contista, escreve em detalhes. Nada lhe escapa. Perfeita como costura de fina agulha. Preciso ler com olhos de lupa. O escritor é romancista. Ácido. Forte. Eu seria assim acaso eu não fosse quem eu sou. Estou lendo os dois livros e digo que eu já os amo. Ligo a TV durante o jantar: Jovem morto espancado. Vinte e duas pessoas morreram (na Síria?). A copa promete. De novo a mesma mentira (tantas vezes dita). A xícara de café quase entorna quando vejo viciados em crack varrendo ruas para que se distanciem do vício ou para que façam algo de produtivo na vida. Quem engana quem? Fumar faz mal, mas eu acendo um cigarro enquanto a lua exagera no céu do jardim. Cada lugar tem o seu céu particular. O meu é escapista. Viajei para respirar novos ares. No entanto, ao desfazer malas na pousada em que me hospedei, lá estava eu comigo. Eu me carrego o tempo todo. Como posso me enganar e pensar que irei respirar novos ares se estou ali, sendo a mesma, requentando resto de sobremesa e pensando somente em meu umbigo? Estive, por alguns dias, em um lugar paradisíaco, embora já tenha sido descoberto por todos. Muitos estrangeiros, muitos pescadores, lugares exóticos e praia mais praia versus praia. Eu gosto do mar porque ele é sempre o mesmo e nunca é o mesmo. As ondas fazem com que ele se renove. Fiz uma pequena ligação entre o mar que vi e o livro As Ondas, de Virginia Woolf. Viver é isto: enquanto o mar se renova em ondas, nós vivemos, adquirimos nossas responsabilidades, nossos amores e envelhecemos. Envelhecer não deve ser amargo. Deve ser algo como o murchar de um fruto que, ao amadurecer, se torna melhor. Será? Saberei disto? Não me envolvo em questões tão amplas. A lua se move e eu ainda a observo. Quem estará mudando de lugar, a lua ou eu? Eu ‘é’ sempre tão falado. Mudarei de pronome, de nome, cortarei o cabelo, sairei por aí e, quando eu voltar ao meu lugar, ainda serei eu. Não há fuga. Escrevi uma carta imensa, mas, como há palavras que são secretas, não enviarei. Logo, não escrevi carta alguma. Uma senhora muito bondosa me disse que sou gentil. Adoro este adjetivo. Ele é açúcar. Não suportaria ser somente educada. Ser educado é dietético. Eu prefiro ser o adjetivo diabético. E, no fim da noite, ele me beijou e disse que sou a mulher mais bela que existe. E isto foi há séculos. Pois, para o bem ou para o mal das coisas, meus dias são eternos.