31 janeiro 2014

invasora de domicílios










Enquanto tantos escrevem poemas, a chuva cai sobre minha cabeça. Chuva leve, eu devo dizer. E ainda há esta ausência de coisas que ocupa imenso lugar. Não descobri do que sinto falta. Mas sinto. E sentir é tudo. Ou não. Talvez viver seja tudo. Do fio, a meada. Não procuro razões para que meus dias estalem perfeitos em minha boca. Espero, apenas, que sejam bons e harmoniosos e que me surja alimento para que eu não padeça de fome. Mas não falo da fome que sente a lagartixa que abre sua minúscula mandíbula para engolir insetos. Eu falo de uma fome maior que sequer sei nomear. Só percebo que estou alimentada quando a fome passa. Por isto eu leio. Leio aos bandos. E, quando termino um livro, invado outro. Não me digo devoradora de livros. Eu prefiro dizer que sou invasora de domicílios. Pois, para mim, cada livro é casa. Casa de vidas, de anos, de tempos. Eu leio para viver mais. Dia desses, ao caminhar por entre as estantes de uma livraria, percebi que eu não buscava livros. Eu buscava mais vida para meus dias que são até bacanas. Porém, por nossa vivência ser um tanto limitada, meus dias seguem um enredo de um cotidiano que é cansativo, às vezes. Logo, ler é a minha saída para me expandir. Há quem faça ioga, corra na praia, escale montanhas. E há quem leia livros. Livros que não são enfeites. Livros que não servem somente para que sejam exibidos em fotos. Livros que são escritos para que sejam lidos. Não sou traça, mas digo: meu alimento é livro. E felizes daqueles que comungam desta ceia. Não há mesa mais farta do que uma estante cheia.













17 janeiro 2014

estrangeira















Dois escritores me escreveram. Isto é redundante? Creio que não. Eles me escreveram e agiram de forma muito amável, pedindo que eu os lesse. Aliás, fora eu quem pedi para ler seus escritos. E ainda estou lendo. A escritora, uma contista, escreve em detalhes. Nada lhe escapa. Perfeita como costura de fina agulha. Preciso ler com olhos de lupa. O escritor é romancista. Ácido. Forte. Eu seria assim acaso eu não fosse quem eu sou. Estou lendo os dois livros e digo que eu já os amo. Ligo a TV durante o jantar: Jovem morto espancado. Vinte e duas pessoas morreram (na Síria?). A copa promete. De novo a mesma mentira (tantas vezes dita). A xícara de café quase entorna quando vejo viciados em crack varrendo ruas para que se distanciem do vício ou para que façam algo de produtivo na vida. Quem engana quem? Fumar faz mal, mas eu acendo um cigarro enquanto a lua exagera no céu do jardim. Cada lugar tem o seu céu particular. O meu é escapista. Viajei para respirar novos ares. No entanto, ao desfazer malas na pousada em que me hospedei, lá estava eu comigo. Eu me carrego o tempo todo. Como posso me enganar e pensar que irei respirar novos ares se estou ali, sendo a mesma, requentando resto de sobremesa e pensando somente em meu umbigo? Estive, por alguns dias, em um lugar paradisíaco, embora já tenha sido descoberto por todos. Muitos estrangeiros, muitos pescadores, lugares exóticos e praia mais praia versus praia. Eu gosto do mar porque ele é sempre o mesmo e nunca é o mesmo. As ondas fazem com que ele se renove. Fiz uma pequena ligação entre o mar que vi e o livro As Ondas, de Virginia Woolf. Viver é isto: enquanto o mar se renova em ondas, nós vivemos, adquirimos nossas responsabilidades, nossos amores e envelhecemos. Envelhecer não deve ser amargo. Deve ser algo como o murchar de um fruto que, ao amadurecer, se torna melhor. Será? Saberei disto? Não me envolvo em questões tão amplas. A lua se move e eu ainda a observo. Quem estará mudando de lugar, a lua ou eu? Eu ‘é’ sempre tão falado. Mudarei de pronome, de nome, cortarei o cabelo, sairei por aí e, quando eu voltar ao meu lugar, ainda serei eu. Não há fuga. Escrevi uma carta imensa, mas, como há palavras que são secretas, não enviarei. Logo, não escrevi carta alguma. Uma senhora muito bondosa me disse que sou gentil. Adoro este adjetivo. Ele é açúcar. Não suportaria ser somente educada. Ser educado é dietético. Eu prefiro ser o adjetivo diabético. E, no fim da noite, ele me beijou e disse que sou a mulher mais bela que existe. E isto foi há séculos. Pois, para o bem ou para o mal das coisas, meus dias são eternos.