11 janeiro 2014

contemplativos











Na verdade eu nunca tive mesmo muita coisa importante a dizer. Ou falar. Usar da boca. O que me basta é a palavra. Escrita. Manuscrita. Pensada mil vezes antes de ser escolhida.


(Flora Conduta)





Ela escrevia. Havia cartas amontoadas sobre a mesa. E ele criou o hábito de ler o que ela escrevia. Todas as cartas eram apenas enviadas. Ela não esperava respostas. Ele sabia que ela não queria respostas. Tampouco, explicações. No entanto, em uma das cartas, ela descrevera tão bem um passeio feito a um lago de uma cidade onde havia passado suas últimas férias que ele, em um impulso, decidira escrever uma breve carta, dizendo que iria visitar o lago. Dizia na carta que, embora ela nunca esperasse respostas, suas últimas palavras descreviam de forma tão perfeita o lago que fora preciso respondê-la. Deixou claro que a resposta não era para ela, a mulher. Mas sim, para a própria carta que dizia do lago de águas de um azul profundo que lembravam os vidros das janelas das casas mais altas e nunca vistas.

Após esta carta, ela silenciou.

Não mais escreveria.

Ela, às vezes, tentava se lembrar de como haviam se conhecido. Nunca conseguia se lembrar da data exata. Lembrava-se que tudo ocorrera em um dia quente, de sol ido, de tempo estanque e noite quieta. Cumprimentaram-se por mera educação. Mas os olhos de um se aprofundaram demais nos olhos do outro para que aquele encontro fosse apenas mais um trafegar de amenidades.

Fora ela quem decidira escrever cartas.

Conseguiu o endereço dele com uma amiga e, sem maiores motivos, a não ser o interesse de enviar-lhe palavras escritas, ela passou a escrever cartas para ele. Na primeira carta, ela enviou apenas saudações. Olá. Sou eu. Não pude deixar de reparar em você por tais motivos. Citou todos. Meiga e audaciosa. Foram tão doces as saudações que ele leu e releu a carta diversas vezes. Na segunda carta, ela deixou claro: não me escreva. Eu quero apenas que me leia. Algo que ele imediatamente obedeceu, pois já havia escrito uma carta para ela e, ao ler aquelas palavras, rasgou o escrito em diversos pedaços. Ele não obedecia à mulher. Ele obedecia à vontade de ler a mulher. Não queria bagunçar a comunicação que havia entre eles. Portanto, aceitou ser apenas o destinatário. Ela continuou a escrever. Uma vez por mês. Falava de tudo; de seus dias, amores, decepções, livros que estava lendo, músicas que ouvia. Quando passou a conhecê-la melhor, através de suas palavras, mesmo não sabendo ser de verdade a vida que lhe era contada, ele criou o hábito de ouvir as músicas que ela ouvia, frequentava bares e bebia o que ela dizia beber e citava autores que ela dizia ler. Através das cartas, eles se tornaram cúmplices. Iguais. Duas pessoas da mesma corte de ideias e ideais malucos que poderiam, nos pensamentos dele, mudar o mundo ou mudá-los (os dois) de uma vez por todas. Mas havia o medo. Ela não queria que ele a respondesse. Porém, ela temia que ele não a estivesse lendo. Mas soube da verdade quando recebera a carta dele, avisando de sua visita ao lago. Ele fora corajoso o bastante para escrever e dizer que iria estar lá, à tarde, à vontade (em data mencionada) e que iria ver, com seus próprios olhos, o que ela havia enxergado: as águas de um azul profundo que lembravam os vidros das janelas das casas mais altas e nunca vistas.

Chegado o dia, ele caminhou ao redor do lago, observou crianças brincando, pássaros bicando presas nas superfícies da água, parou e sentou-se em um banco que ficava nas encostas do lago. A tarde estava azul. Como o azul da água, de suas meias, de suas palavras que se aglutinavam quietas à espera de um sinal da mulher que lhe escrevia cartas. Um mês e meio sem ler suas palavras. Ele já estava certo de que havia quebrado a confiança entre os dois. O pacto fora quebrado. O vidro havia se partido. A palavra estava perdida. Porém, embora distraído em seus pensamentos, ouviu, acima de seus ombros, a voz tímida e risonha: eu não disse que eram azuladas as águas? Ele se virou e a viu. Lembrou-se da primeira vez. Lembrou-se dela e de tudo que sabia a seu respeito. Sorriram. Então, ele disse: eu trouxe Dostoievski. E caminharam juntos ao redor do lago de azul profundo de vidro de janelas de casas que não mais importavam. Uma vez vistos um pelo outro, jamais se deixariam novamente. Eram feitos de voz e de corpo a partir de agora. E até hoje caminham pelos arredores do lago e escrevem cartas, um para o outro, por amor e por serem igualmente contemplativos e correspondentes.










2 comentários:

Luis Eme disse...

também gosto da tua palavra escrita.

Camilla disse...

Nós, as garotas missivistas, somos as que desaparecem mais rápido. Esse amor de lago não vai durar.

Camilla tebet