09 janeiro 2014

rubro à memória intacta










Às vezes sentia tanta fome e roía todas as unhas. E, quando não, cravava seus longos dedos na espuma do travesseiro de forma que o tecido que o envolvia se rasgava. Era fome de algo. Uma fome nua. Sem vergonha alguma. Não havia um alimento que pudesse aliviá-la. Por isto permanecia silenciosa. Não se atrevia a conversar. Era injusto falar de si. Era injusto ocupar alguém para ouvir suas histórias descabidas e despenteadas de razão. Falava sozinha, então. Eu a observava. Analiticamente. Às vezes, eu a olhava pelo vão da porta. Certo dia, ela ainda não havia roído as unhas. Estava calma. Era cedo. As unhas estavam longas e um vermelho vivo as encobria. Elas brilhavam. Eu a observava enquanto ela andava pela casa de assoalho antigo. Suas pernas eram as pernas de uma mulher que me serviria. O torneado de seus ângulos poderiam me satisfazer por anos. Seu rosto era vivo, nítido, boca carnuda de um ser úmido. Seus cabelos eram curtos, o que fazia com que seu pescoço ficasse aparente e esguio como a haste de uma flor que desabrocha sempre. Em seus quadris eu repousaria. Era farta em detalhes. Era uma mulher cheia de uma outra mulher que a habitava. Ela não era somente uma. Ora chorava, ora lavava os pratos. Ora via tevê, ora olhava o tempo pela janela. E fumava seus cigarros. A fumaça saía de seus lábios como a voz de um vento que não se diz. Mas eu sabia que ela sofria de uma dor que, um dia, talvez, chegasse a arrebentá-la. Por isto eu a olhava à espera de algo que a fizesse se sentir sensível e, talvez, desta forma, eu tivesse a chance de tê-la. Mas era forte demais a mulher. Eu nunca a vi cair em prantos. Eu nunca a vi desnorteada. A não ser na noite em que me invadiu. Era tarde. Meus pais dormiam. A casa repousava em seu silêncio rigoroso. Tudo ressonava. A louça. A prataria. Os relógios. Eu estava de olhos abertos, fitando o teto que me trancava do mundo. Foi neste momento que ouvi passos. Seus passos, eu pensei. Eu havia decorado seus movimentos. Eu sabia o som de seus pisares em terra. Eu sabia o som de suas ancas se movendo. Eu a amava como um louco. Corri à porta do quarto e esperei que ela passasse. Eu olhava pela fechadura. Eu precisava saber o que ela estava fazendo de pé, acordada, àquela hora. Me assustei com seu vulto parado abrupto à porta de meu quarto. Ela não bateu. Eu abri a porta. Ela vestia sua camisola composta e rendada de fendas. Eu me senti rubro ao vê-la. Ela disse nada. Apenas me abraçou, chorando, rompendo-se em lágrimas e me beijou de forma cálida e logo nós estávamos na cama, eu, o menino que a olhava, estava, enfim, a confortar seus juízos insanos. Ela era louca. Talvez fosse. Mas era a louca que eu amava. Por meses retesei o que sentia, acolhendo-me em recintos e tocando meu próprio corpo, febril, ardente, simulacro de querer a mulher. Eu sofria mais que a louca que caminhava de um lado a outro da casa. Eu sofria porque eu a queria. Ela sofria e eu queria, em minha forma inocente, curá-la. Mas nunca houve cura. Nesta noite, na qual nos enfrentamos na cama, ordenhados por uma força maior que o diabo, em uma ardência violenta de sentidos, ela estava aberta e tímida, com seu olhar de lágrima partida e caramelos dissolvidos n’água. Eu me tornei o mais bravo dos homens ao me enfurecer penetrando em tão bela mulher que era minha naquela noite em que tudo ressonava. Ela era minha. A louca de unhas longas. A bela de lábios vermelhos. A mulher de nervos dúbios. Nos pertencemos em tão breves minutos. Ela me deixou na cama ao amanhecer e nunca mais nos vimos. Partiu de nossa casa. Minha família nunca mais mencionou a mulher. Eu tentei saber de seus caminhos. Mas fora inútil minha busca. Aquela fora a despedida mais autêntica que tive de uma mulher. No tempo de agora meus pais estão mortos pelas idades. Nossa casa fora vendida e eu moro afastado daqueles dias que eram feitos de pensar na mulher de cabelos curtos e unhas avermelhadas que tanto me fizeram sofrer de amor. Hoje eu a procuro em cada uma das mulheres que me inflamam. E a impressão que permanece em mim é a de que os relógios pararam de me dizer as horas fúteis desde o dia em que os passos da mulher não mais se alongaram pelo chão.









3 comentários:

Luis Eme disse...

o amor também é isso...

Germano Xavier disse...

Retrato poético de um momento sublime, feito de dúvidas e afetos. Um homem e uma mulher e uma legião de sentimentos. Simone e Justine menos safadas, ou mais, juntas, como elos e um leão com a boca aberta a espera de qualquer vacilo. Um texto sobre o canibalismo amoroso e imprescindível que aviva a vida de nós todos.

Um beijo, Branca.

Camilla disse...

Essa coisa de menino observando uma mulher atrás da porta é para sempre. Eles nunca deixam de ser meninos e nunca deixam de nos olhar pelos vãos. Mesmo que as vezes sejamos rápidas como sombra.