04 janeiro 2014

Sol e chuva








Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro


(Hilda Hilst in, Amavisse)








— Só irá levar isto, senhora?
— Como assim, só isto? Estou levando duas aspirinas. Não basta?
— Passe no caixa, senhora. Obrigada.

A vendedora sorriu azeda. Eu estava feliz porque, finalmente, eu havia conseguido enfrentar alguém e dizer uma verdade, bem na cara. Não aguento mais me entupir de palavras que não digo. De agora em diante, eu direi tudo.

A mulher saiu da farmácia sentindo-se gloriosa. O dia estava belíssimo para um passeio. Poucas pessoas nas calçadas, chuva e sol ao mesmo tempo... Espere. Como pode chover e fazer sol ao mesmo tempo? Mentiram para mim nas aulas de Física. Eles diziam que dois corpos nunca poderiam ocupar o mesmo lugar no espaço. Mas aqui estão a chuva e o sol, ocupando o mesmo espaço. A mesma rua. Estão no mesmo céu. Todas as mentiras vão por água abaixo. Ela riu vencedora. Atravessou a rua dando piruetas quase não vistas por ninguém. Muito tímida e cuidadosa em seus movimentos, jamais se deixaria ver em pleno momento de alegria e liberdade. Mas por que se sentia tão livre? Resposta: Há dias não saía de casa. Sua vida havia se tornado o piso de mármore, o café preto, berrando sua quentura na xícara e ele, o tal. Aposto que ele deve estar relendo aquela revista gasta. Sim, ele deve estar relendo a revista gasta. E seus óculos devem estar manchados de gordura. Algo que ele nunca percebe. Algo que está nítido, bem a sua frente. Somente eu limpo seus óculos porque não suporto vê-lo com aquelas manchas de gordura. Mas por que desperdiço meu tempo lembrando-me dele? Preciso me distrair.

A rua estava úmida, com pequenas poças d’água acuadas aqui e ali. Tímida como a mulher, a chuva se retraiu e deu espaço ao sol que não fervia. O clima estava ameno. Levemente quente. Levemente frio. Pelas características, digo, então, que o tempo estava morno. Que não é quente, nem frio. Assim como ele, com seus óculos engordurados: ele não é rude, nem educado. Ele não sabe se definir. Eu não me atrevo a defini-lo. Eu não quero pensar nisto. Irei ao cinema. Faz tempo que não vejo um filme sem que alguém me perturbe.

Parada na frente do prédio, que exibia vários filmes em várias salas, ela pensava na satisfação que sentiria ao sentar-se sozinha em uma sala de cinema. Comprou pipocas. Comeu as pipocas enquanto olhava os cartazes de alguns filmes que estavam em exibição. Este não. Este também não. Aquele, nunca. Mas será que só exibem isto? Da última vez que nós viemos ao cinema assistimos ao clássico Farrapo Humano, seu filme favorito. Ele diz que há cenas complexas demais e que precisa revê-las sempre para que possa entendê-las ao máximo. Será que pensa o mesmo ao meu respeito? Será que me considera complexa e por isto me analisa tão friamente? Está sempre a dizer detalhes de mim: Você é prática, mas se perde quando o assunto é política. Você é uma mulher forte, mas não tem argumentos para se defender quando alguém a insulta de forma inteligente. Como pode um insulto ser inteligente? Eu perguntei isto certa vez. Ele me explicou que insultos inteligentes são aqueles que não ferem. São aqueles que nos fazem refletir e nos tornam mais astutos para dar respostas. Então, creio que me tornei astuta ao dizer à moça da farmácia que levaria apenas duas aspirinas. Queria que ele tivesse visto a cena. Eu me defendendo. Eu reagindo. Eu mulher. E por falar nisto, sou mulher. Preciso me sentir mulher. Não irei ao cinema. Não quero mais estas pipocas. Caminho.

Vou ao salão de beleza e sou recebida de forma muito furtiva pela dona do estabelecimento que me sorri, me faz sentar em uma poltrona confortável e me serve espumante. Estou a salvo, penso. Ir ao cinema sozinha não seria nem a metade disto. Aqui serei eu mesma me recuperando dos dias em que me deixei amarrotar. Se eu quero pintar os cabelos? Sim. Se eu quero cortá-los? Sim. Eu me sentia plena. Mudar algo em nossa aparência é como retirar a casca apodrecida de um fruto e ver a carne do fruto e salivar ao desejá-la. Pronto. Eu estava um fruto. Eu havia retirado a casca apodrecida e estava nua e bela. Cabelos avermelhados como o tom do sol que, àquela hora, tombava pelas ruas e me fazia lembrar que precisava caminhar mais. E ser mais livre. Mas eu já estava sendo livre. De que me adianta ser tão livre fora da prisão se é a própria prisão que causa a necessidade de uma liberdade mesmo que seja transitória? Vou para casa.

Não bato a porta. Entro. Estou bonita e equilibrada. Não direi nada. Não perguntarei absolutamente nada. Ele já está à minha espera. Ou não estará? Não o encontro na sala. A revista gasta está largada sobre a mesa. Eu o procuro pelos cômodos e não o encontro. Terá fugido? Eu rio disto. Terá tomado coragem e feito o inevitável? Ouço um baque tranquilo na madeira da mesa da sala. Ele deposita as chaves. Ele me olha. Eu, parada a sua frente, como estive parada a frente do cinema, como estive parada a frente do espelho no salão de beleza. Nós nos olhamos e, de forma inacreditável, nós sorrimos. Ele está bonito. Diferente. O que fez nos cabelos? Gostou da cor? Pergunto. Ele me envolve com seu olhar e diz que sim. Eu adorei a cor. Sorrimos novamente e uma malícia trêmula invade meu corpo que também invade o corpo do homem. E já não estamos mais nos interrogando. Estamos livres no sofá de nossa sala, ouvindo Coltrane e nos beijando como se fôssemos dois prisioneiros em um dia de folga da prisão. Somos o sol e a chuva que retornam e tomam lugar no espaço. O mesmo espaço que antes era preenchido por nossa densa e casta solidão.









Um comentário:

Aline Gouveia disse...

Que perfeito esse texto, Vizinha.
Libertos, podemos amar.
Adoro você romântica.
Simplesmente amei o texto.

BejO