06 fevereiro 2014

arbitrários do ventre









Corava. Bastava que o professor a lembrasse dos insetos que sobreviviam na água, ela corava. Lembrava-se de seus banhos, lentos e demorados. Ardentes e solitários. Mas apenas ela sabia o que fazer com seu próprio corpo que tanto tocava ao molhar-se sob o chuveiro. Cantava. Todas as músicas eram solfejadas, murmuradas por sua voz de qualquer canto. Cantava a Deus se assim o quisesse. Cantava e tocava seu corpo úmido das águas passadas em tantas correntezas e, que agora, se debatiam contra ela. O encontro perfeito. Seu corpo e suas mãos. Suas mãos e sua voz. Sua voz e o silêncio solitário de quem se conhece mais que outros. Nunca teve coragem de matar uma formiga sequer. Que dirá um inseto tão minúsculo como aqueles que povoavam seu banho? Nunca. O banho era sempre a hora de sentir o estrondo. Contorcia-se inteira e só não beijava sua própria boca porque não havia meios. E isto lhe doía na alma. Tanto. Ela se amava de forma feroz. Faminta a fêmea que se descobria a cada mover de dedos em seus interiores ávidos. Queria o toque. Queria a quebra de suas correntes que a prendiam a seu corpo. Queria ser outra. Queria ser ele.

Conheceram-se no trabalho.

A esta altura, ela já era mulher de ganhar dinheiro. Trabalhava todos os dias. Certo tempo, às seis da noite, ela o viu. De primeira impressão, ele era um homem comum assim como todos os homens comuns: barba e sorriso. Mas caminhava como caminham homens pesados. Ele carregava seus pesos. E algo mais o distinguia dos outros. Ela percebeu isto com o correr dos dias. Ele se alegrava ao vê-la de forma que nenhum outro homem havia feito antes. Ele se alegrava demais ao vê-la. E ela se interrogava a respeito disto porque não estava certa de seus sentimentos. Mas sabia: "Ele não me faz alegre. Ele me faz corar. Sinto raiva." Ela corava por ele. Ao conversarem, ela corava. Ao saírem juntos, mesmo que não se tocassem, ela sentia o que somente em banhos a água lhe permitia. Ela decidiu que o queria. Tentou dissuadi-lo. Vamos sair juntos? Ele sorriu e sim, sairiam. Com o passar dos meses, ela fora percebendo nuances de diferença e igualdade. Ele era diferente dela em músculos e formas. Porém, os dois desejavam o mesmo. Ele também queria o ele que, por estranheza humana, é sempre o ele que não quer estar perto de quem o deseja. Fizeram, então, um pacto de estarem juntos sempre que a fome os devorasse. Sempre que a solidão fosse maior que o tempo. Ela o queria e ele manifestava carinho por ela de forma afoita, medrosa e recorrente. Foi através dele que ela soube de si, de suas vontades, de seus medos. E foi através dela que ele soube que seu corpo poderia entre fêmeas também mover-se. Ela nunca tivera a vontade de trazê-lo para si. Prendê-lo. Ela o queria como ele era. A continuidade dela. O gênero misto que a beijava e fazia com que ela sentisse o que somente a água lhe doava. Os dois sabiam que se amavam. Porém, eram iguais por dentro. Opostos apenas pelos desejos arbitrários do ventre.











Um comentário:

Thomaz Ribeiro disse...

Felicidade deve ser isso: encontrar a si mesmo no outro.
Abraços.