12 fevereiro 2014

convertida









Que está olhando? A lua. Não vê o quanto ela existe? Neste instante, só a lua existe. Não exagere. Deite. Vamos ler. Juntos? Eu nunca li em companhia. Considero toda leitura o estandarte de uma solidão ávida por estar sozinha. Você não faz sentido. Deite-se aqui. Ao meu lado.

Deitados.

Ele começa a ler.

Página primeira.

Não comece do início, ela diz. Pule capítulos. Mas por que devo evitar capítulos? Porque minha fome é esta: pular capítulos. Não quero beijo de introdução, aperto de mãos de bons vizinhos. Quero a guerra declarada por campos inimigos. Entendi. Você precisa dormir. De conchinha. Eu te faço um carinho. Ela não pôde deixar de imaginar coisas submarinas. Conchas, ostras, pequenos seres aquáticos, lentos no ritmo da água de um oceano seu e íntimo.

Aceitou o convite.

O que mais faria a não ser deitar-se ao lado dele e dormir (de conchinha)?

Desde os tempos de faculdade não faço isto. Você precisa se deixar conhecer. Prefiro não ser vista. Mas agora eu a vejo. Não estou certa disto. Você vê a superfície. O limo. Mas a lâmina, o corte, a alma que a razão se contorce por regenerar, você não vê. Vejo seus olhos. Estamos brincando de descobrir o outro? É isto? Por que não aceita este momento, esta conversa amena que é prova do que sinto? Porque sentir não é isto. Sentir é vago. Não há como definir. Você consegue dizer o que veem os olhos das esfinges? Mas nada quero com esfinges. Sou prático e, por esta razão, eu decido que quero somente isto. E o que seria?, ela pergunta. E, ao perguntar, sente-se presunçosa, crua e má.

Mas nunca será.

É ingênua, santa, profana de um altar só.

Ele olha a janela que ainda exibe o rastro da lua de minutos atrás e diz:

— Quero apenas deitar ao seu lado.

Ela sorri, quase pervertida. Pois sabe que no silêncio cada palavra não dita será convertida. Talvez em arte. Talvez em mentira.












2 comentários:

Luis Eme disse...

fingimos sempre, querer apenas isso...

Sonhadora disse...

Coolmadre, que delícia de texto. Diálogo, pensamento, rastro de lua. Perdida, me encontro por aqui. Lindo!