21 fevereiro 2014

de amores crônicos










homem de poema


Ele dizia não gostar de poesia. Era rígido em sua opinião. Não gosto e ponto final. Ele não suportava poemas. Não os lia de forma alguma. E sequer se explicava. Eu, com a minha mania de silenciar perguntas, nunca o questionei. E eu queria lá saber por que ele não gostava de poesia? O que me importava mesmo era seu verso em meu corpo e tudo que fazíamos completos de tanto que dizíamos amor. Ele nunca soube. Mas a verdade é que ele era o poema. Inteiro. Indiscreto. Metrificado para meu prazer prático de mulher de prosa. Ele não lia poemas. No entanto, ele os criava com seus movimentos e, por minha sorte, com toda a veneração.





Passionais de excessos


Não havia medo. Havia apenas um pouco de crueldade que surge entre amantes que se tornam ágeis em fazer com que o outro sofra. Ele sofria. Lembro-me do dia em que ele se sentou em uma das quinas do quarto. No chão, parecia um ser que acabara de nascer de um parto ruim. Dizia convicto que eu o fazia sofrer. Ele dizia que minha existência doía em seu corpo. Eu sabia que ele exagerava. E dava glórias aos céus por ter ao meu lado um homem trágico e estilhaçado por si. Eu idolatrava seus exageros. E ele se alimentava de minha forma distraída de fingir que nunca percebia que eu o afligia. De rancores. De mágoas. De ciúme, talvez. Neste dia, sentados, olhando um para o outro, pela primeira vez, após o ato que faz tremular pernas, adormecer lábios e agigantar amores, sorrimos. E eu me vislumbrei no espelho. Nua, avermelhada pelo excesso de forças do homem, eu soube que, ao tocar-me, de forma lenta e rude, ele fazia com que eu sentisse suas dores.





Funeral e flores em memória


Eu nunca mais o vi. Não busquei saber a seu respeito. Não fora preciso apagar nome da agenda, nem número de telefone de minhas notas. Porque tudo fora perfeito até o fim. Equação matemática resolvida a cada hora. E a mulher que eu sou aprendeu a viver de novo amor e enterrar sobras póstumas.












7 comentários:

Luis Eme disse...

e ele deixou de ser o homem do poema e passou a homem da prosa poética. :)

Erica de Paula disse...

Funeral e flores em memória = ♥
Tú é demais mulher.

Adorei a imagem também.

Karine Tavares disse...

Vem!
http://www.feitaparailetrados.blogspot.com.br/
; )

Camilla disse...

É o seguinte, se não for assim, não é amor!

Camilla disse...

Com o passar do tempo, "os póstumos acabam se transformando em mentiras só nossas.

Janicce disse...

Todos nós enterramos de alguma forma ou pelo menos tentamos enterrar o passado de amores.
Muito bacana parabéns.

ediney santana disse...

"Ele dizia não gostar de poesia".Ele era um poema concreto.
"Nua, avermelhada pelo excesso de forças do homem, eu soube que, ao tocar-me, de forma lenta e rude, ele fazia com que eu sentisse suas dores."
Não era egoísta, quis doar o melhor de si
"E a mulher que eu sou aprendeu a viver de novo amor e enterrar sobras póstumas." Melhor a fazer, enterra o que não presta.
Ps- Bom carnaval, o meu é muito bom, viver perto de Salvador tem suas vantagens, todo mundo vai pra lá e em silêncio e calma posso ler sua literatura que é sempre maravilhosa .