13 março 2014

a doutrina e o poema









Decido visitar uma casa que não é minha. Entro e já estou bem-vinda. Em um quarto imenso, a cama. Deito. Adormeço. Acordo. Lembro-me da mulher que vi mais cedo, na rua, de mãos dadas com uma menina. Era a filha dela, decerto. Ele deita ao meu lado e pergunta se sou católica. Digo que sim, fazendo sinal da cruz. Sou católica não praticante. Então ele verbaliza discurso a respeito de pessoas que se dizem vegetarianas e, mesmo assim, ainda comem carne. Ele diz que não sou católica. Em seu corpo exposto eu me prostro. Agora sou católica? Ele sorri. Puro pirata aguardando o gole que embriaga. Sou católica e amazona. Eu cavalgo milhas por hora. Percebe? O cavalo está ali, alado, e puxando assunto. Com as unhas faço desenhos. Sua pele alva se torna um mapa. Qual tesouro?, ele diz. Nenhum. Ostento o silêncio que diz alguma coisa. Trote a trote, o cavalo engole o feno. Você sabe rezar? Ele interrompe a cena para ler poema. Escuto com minha audição prejudicada pelas buzinas destoantes da Serra de Botucatu. Ele não sabe ler poema. Mas lê. Eu não sei amar. Mas minto. O poema fala em clausura, loucura e desmerecimento. Ele diz que poetas abordam o mesmo tema. Eu não quero brigar. Então, me calo. Estou sorridente e felina como em uma foto que enviei para um amante. Eu sorria na campina de uma fazenda no interior. Meus cabelos estavam presos feito um rabo de cavalo. Eu sempre fui muito mais menina que mulher. E sigo felina, deitada sobre o corpo do pirata que me aborda em filosofias. Giro o corpo e dou de costas. Ele tem agora as ondas frequentes de meus oceanos graves. Subo e desço em acordes de uma música que eu mesma crio. Cante. Kant. Não se pronuncia da mesma forma. Nós sabemos. E por isto nos desgraçamos. Por que não para de falar? Porque você exige que eu fale. Em sua presença, eu preciso falar. Avanço meus trotes. Mais rápido. O homem é monte que escalo até o topo, o cume, e a umidade será vista em alguns segundos. Quero ouvir sua voz, ele diz. Eu falo. E canto. Este é meu poema contente e cortante. Você é absurda. Rimos. A montanha se contorce e se torna um rio de peixes dos quais eu me livro. O homem se ergue. Caminha cansado o pirata embriagado. Mas retorna. Beija minha boca e diz que sim, você é católica. Não respondo, pois meu cansaço é véspera de outra história. Ele tranca a porta e de novo o monte se exaspera na metade cortada da hora. Com as mãos segurando o meu rosto, ele me beija e me provoca. Então recomeçamos nossas rezas. E, desta vez, com algum amor e rastros de misericórdia.









2 comentários:

Luis Eme disse...

doutrina e pêras. :)

Germano Xavier disse...

Simplesmente bonito.