24 março 2014

o vão entre as costuras










E quanto mais berrarmos,
Menos seremos ouvidos.







Corre o vento mais que o tempo e vasto é este expurgar de dores que sequer conheceram maiores contentamentos. Não posso denominar isto que sinto, em modo e metro de angústia, se em minha vida nunca conheci outro jeito de estar viva. Aos trancos eu aprendo que quanto mais livre a língua em uma boca, mais esta correrá o risco de falar em vão. Por isto eu calo atravancada. Pois até aqueles que estão comigo julgam estarem sujas as flores que caem no chão. Eu tombei há tempos. Pisada, caminhei mancando pelas ruas por onde peregrinei. Ameaçada do arremesso ao lixo, tentei ainda demonstrar delicadeza em minhas pétalas murchas. Sofri todo tipo de retaliação quando eu estava em busca de mim. Ferrenha dentro de homens. Odiosa em santas mulheres. E perceba bem que sempre pensei estar ao lado delas em algum altar de perdão e misericórdia. De riso frouxo, eu acreditei estar ao lado das mulheres. Mas foi exatamente ao lado delas que experimentei a exaustão e o flagelo da culpa por sentir fome em tempos de dietas. Não houve revolução alguma, dilatada égua. Ainda está a lavar roupas em imensas pedras a consciência da Eva que sofre por motivos minúsculos. Eu sequer os deixo ver. São como agulhas escondidas entre os vãos de uma costura. Em dias de ágeis ideias, eu denomino mísera minha dor para tão excelente plateia. Em aleluias, ela existe. Em altar, ela exibe o que em mim é triste. E revoltada ainda me devora a mulher forjada, ao compasso da régua, que se alinha em trajes de obediência a tudo que dita a masculina e universal estética.















3 comentários:

Nilson Ferreira disse...

Oi, dizer que gostei do seu texto poderá lhes parecer simples clichê, no entanto adorei poder ler isso hoje e perceber que o meu mundo ficou melhor depois dessa leitura.
Abraço.
Att
Nill

Luis Eme disse...

sim.

tudo muda lentamente...

Germano Xavier disse...

Eu concordo, Branca.