31 março 2014

o vaso








Certa vez, comprei um vaso. Que sequer era um vaso de verdade. Parecia-se mais com uma garrafa. Lembro-me que eu estava com uma amiga. Eu, toda feliz com meu vaso em formato de garrafa, reparei que minha amiga não estava entendendo minha felicidade naquele instante. Afinal de contas, era apenas um vaso azul que nada dizia. Eu também teria agido de forma indiferente ao vaso se não estivesse em meu lugar. Levei o vaso para casa e me sentia contente. Demais até. Lembro que o lavei para retirar a poeira. Ele estava esquecido na loja em que o comprei. Após lavá-lo, dei ao vaso sua utilidade. Ele enfeitaria a mesa. Tratei de escolher flores para preencher o vazio do vaso. Saliento que não eram flores naturais. Eram flores falsas que se pareciam muito com flores naturais. A não ser pelo caule que era de madeira. Mas não era de madeira verdadeira. Era de um material parecido com madeira. Eu era criança naquele momento e tudo era de brincadeira. Como a comidinha falsa que a menina faz com plantinhas retiradas do jardim. Esta era eu. O vaso, que parecia uma garrafa, iria ser preenchido com flores falsas que pareciam flores naturais. Eu escolhi cada flor com muito cuidado. Pelo tamanho das pétalas e pela espessura de seus espinhos. Pétalas de tecido. Espinhos de plástico. Mas seria tudo em benefício do vaso. Comecei meu ofício quase artístico de preencher o vaso com as flores. Uma por uma eu as tocava e as colocava no vaso. A mesa ficaria bonita. Ao passo que eu colocava uma flor, o vaso, que não era propriamente um vaso, tornava-se um vaso, porque fora este o desígnio que eu escolhi para ele. Era um vaso. Um vaso azul. E ponto final. Mas alguma coisa estava errada. Quanto mais eu preenchia o vaso com flores, mais triste eu me sentia. Aquilo era paranoia minha. Não era o vaso. Não eram as flores. Era eu quem precisava me tornar algo. Abandonei o vaso sobre a mesa, guardei as flores, tomei um banho demorado, acendi um cigarro e tratei de ser algo verdadeiro. Pois minha alma, que para muitos também é consciência, estava farta do falso atributo que eu dava as coisas. O vaso foi apenas o início de uma vasta experiência.









2 comentários:

Nilson Ferreira disse...

Valeu pelo vaso. Linda reflexão.

Luis Eme disse...

há objectos assim, que mesmo pequenos, nos escondem atrás deles...