05 março 2014

pura vespertina









Frase que ninguém diz: Eu entendo você. Seria presente de grego em tempos de mentir tão bem. Eu aceito mentiras de bom grado. E agradeço. Saio pelas ruas de asfalto quente. Um homem carrega uma caixa de ovos em uma sacola e que deus o proteja: que a sacola não se arrebente. Adolescentes fazem misérias na praça. Eles bebem. Eles se acham descolados. Eu os considero uns velhos que estão apenas congelados para um futuro que é amanhã. Outdoor fora de época. Não é verão. Sigo ruas discretas de casas conjugadas. Casas que são como verbos em minha antiga cartilha modernizada. Penso sem parar e isto enlouquece. Estou sorrindo. Compro pastilhas e cigarros no jornaleiro. Não irá levar o jornal? Sim, eu desisto. Compro também o jornal. Leio absurdos. Só há mortes. Quase não há vida. Jornais são necrópsias muito mal escritas. Volto para casa, abro a porta e lembro: eu me esqueci de molhar as plantas. Mas lembrar do fato não faz com que eu o realize. Deixo para depois. Adio o futuro como quem dorme por mais alguns minutos. Vodca ou café? Prefiro ouvir música. Cole Porter fala em noite e dia. E eu leio jornal com a preguiça típica de minha mesquinharia. Eu economizo orações, elaboro invernos e leio poemas para me maltratar. O sol desperta o que ainda é escuro. Nove da manhã — horário de Brasília. O radialista está errado. Em meu relógio já são quase outras horas. Todas tardias. Decido ler. Manchete sensacionalista. Por que não dizem a verdade toda de uma vez? É mesmo preciso que ela só venha aos poucos? Eu sou aos poucos. Eu entendo. E muitos me consideram chata, antipática, enfurecida. Mas somente eu sei o quanto eu guardo minha mulher etérea, ingênua, a pura vespertina. Somente eu sei a respeito dela. A mulher que passeia entre flores, decora nomes e beija salutar de amores. Sou a mulher devota de um único homem. O corpo ainda dói. Uma dor larga e sufocada como a larva que penetra minhas terras. No mais, tudo está em seu devido lugar. A não ser as peças íntimas. A não ser a vontade implícita. A não ser isto que não digo pelo excesso de razão que compõe meu fluído existencialismo. Agora o sol já está alto. Pessoas acordam, ouço seus passos calmos pelas calçadas e meus quadris imploram por minhas memórias. Eu as protejo. Eu as venero. Eu me atrevo a sentir tudo o que eu quero. Não mastigo metades. É dia e eu nunca serei covarde. Decido molhar as plantas e estou plena da mulher que sou. Sorrir é meu estandarte.











4 comentários:

Luis Eme disse...

um sorriso para ti também. :)

Anônimo disse...

Isso não é para qualquer um. Você desenvolveu um estilo muito original de escrever. Empolgante, bem escrito, com um lirismo moderno, capaz de envolver o leitor. Não sei se o texto fala de você. Mas se fala, o teu sorriso não é teu único estandarte. Tua palavra também é, Letícia.

Abraço terno.

Aline Gouveia disse...

Verdade. Todo mundo parece possuir a sua. O jornal vende aos montes suas mentiras verdadeiras. Nós, distribuímos verdades mentirosas a torto e a direito. Fingir está tudo as maravilhas, talvez seja uma decisão sensata. Ou não. Nunca se sabe se minto ou falo a verdade. Melhor ir regar as plantas.

Camilla disse...

Eu entendo voce.