16 abril 2014

dia vulgar









Ao amor,
este segredo.





Estou escrevendo para alguém em particular. Com as mãos abertas para dar o que não recebo. Sou altruísta e, ao extremo de meus excessos, me vejo. Acampada em uma colina, penso estar observando o céu. Preciso deste momento de solidão para saber que não estou só. Estou inteira. E escrevo para organizar palavras que a voz não diz. Os dias estão cheios de trabalho. Recebi reclamações. Aceitei de bom grado. Mas fiz cara de menina mimada e triste. Quase sofri. Em telefonema, eu disse a uma amiga que não me permito sofrer (em vão). Mas penso que evitar algo já é quase dor. Entende? Recebi conselhos religiosos que me fizeram pensar a respeito de Deus. E eu o imaginei. Sentado à mesa, a repartir o pão em minha presença. Estávamos juntos. E conversamos sobre coisas triviais. E Deus sequer citou a Bíblia. Eu não gosto de conselhos que me digam quem eu sou. Pessoas gostam de dizer que sabem quem você é. Pessoas gostam de caracterizar tudo aquilo que não entendem. Troco pronomes possessivos para não permitir compreensão. Veja só como me limito. Li trecho de Bukowski em que ele dizia ficar em silêncio para não ferir. Eu também faço isto. Dia desses, banquei flor de enfeite para alguém que não demonstra afeto. Eu o fiz porque pessoas precisam falar de si. Esta lição eu aprendi. E com louvor. Eu deixo minha presença aos que me convidam. Não aprendi a me negar. Mas tanta doação pode deixar o bolso vazio, eu penso. E assim eu me senti: vazia. Como um bolso vazio. Sem dor alguma. Felicidade? Talvez metade. Indiferença não me fere porque eu me protejo com um sorriso e me cuido para não perder o que ainda tenho que é de mim: este segredo. Este que nunca direi por pura falta de coragem. Cães ladram enquanto redijo. Eu não sou santa. Eu sempre tenho interesses ocultos. Mas não posso contá-los. Nunca. Porque eu não os conheço. Meus segredos são criados pelo tempo. Escondo coisas pela casa. Pingentes, anéis, marcadores de livros. E, quando as encontro, sinto-me feliz por não tê-las perdido. E isto é quase um diário. Só erra em gênero por eu não me deixar tão vista. É preciso olhar com lupas, e bem de perto, pois estou acontecendo escondida. Estou acordada para minhas urgências e imaculada por amor e tinta. Eu sou uma mulher viva. E estou imensamente feliz. Embora eu nunca o diga.











07 abril 2014

euforia











De segunda a sexta nós acumulamos nossa sede para viver no fim de semana. Já reparou? A gente vai alimentando o que sente (se é que sente), esperando que tudo venha para nossas mãos. É um tal de deixar agenda em dia, pessoas em dia, tudo em dia. Até depilação. E é claro: a gente também corta o que não nos serve mais. A gente não quer café de ontem. Então, a gente dispensa. E a gente se engana ao pensar que nós não seremos dispensados. Também é largado o jogo que se torna decorado. Entende? O mundo é vasto e há novidade sempre. "E a gente não quer só comida". A gente quer comida, conversa, bom trato e amor de sobra. Mulheres maquiadas e homens em forma. Sempre que eu saio por aí, vejo esta cena que me faz lembrar festinhas dos anos 80. Todo mundo esperando a hora da dança. Naquele tempo era romântico. Hoje em dia, é escracho. Porque não é só dança. É beijo na boca de estranhos, sexo sem vênus e muita grana gasta para, quando chegarmos em casa, aguentar o vazio da bebedeira. Ressaca pior não há. Ou talvez haja. Mas eu não quero falar a respeito. Saí ontem e conheci alguém que, por via das regras, fingirei não conhecer da próxima vez que nos esbarrarmos. Conhece esta história? Tão comum quanto um mais um. Na verdade, velha e boa, a gente não passa de um bando de pessoas egoístas, chatas, medrosas e vaidosas, que morrem por doses pequenas de afeto e sexo que nem sempre é bom. Te digo que sexo só é bom seguido de conversa. Ou silêncio. Ou porta fechada na cara. Assim como cavalgar, que só traz prazer em belo cenário. Enfim. Não estou muito para escrever. Mas ainda há algo que preciso dizer: O problema não é o palheiro. Mas a agulha que gasta sua linha fazendo costuras em farrapos imensos.