03 maio 2014

a moça










A moça, coitada, se esgarça toda para cantar. No palco, dois homens fazem papel de segurança. Mas contra o quê? A menina continua cantando. Sua voz não me diz nada além do fato de estar desesperada querendo encontrar sucesso. Pessoas querem ser vistas e elogiadas ao extremo. Pobre menina. O garçom se aproxima.

— Já fez seu pedido, senhor?

— Me traga um conhaque.

Curto e grosso. O garçom é um moleque. Deve ter no máximo 25 anos. E me chamou de senhor. Em casa, quando estou sozinho, sou o homem mais jovem do mundo. A não ser quando tomo aqueles comprimidos para dor nas costas. Quando estou na rua, em ônibus, principalmente, sou um velho. E agora este moleque me chama de senhor. Que se dane. Sou senhor. Aceito o tratamento por pura educação. Sou educado demais. Duas mesas ocupadas. Em uma delas, um casal e, na outra, mulheres bebem enlouquecidas. Conheço o tipo. Saem juntas para que possam falar de suas vidas que são tristes, porém, maquiadas de felicidade. Todas juntas, as mulheres bebem e riem alto. Falam de homens. Ouço nomes. Tais homens que, provavelmente as abandonaram para que possam estar com outras que logo estarão com suas amigas, bebendo e falando mal destes homens. É um ciclo sem fim.

— Seu conhaque, senhor.

Agradeço. O garçom me serve e me indaga se irei pedir algo mais. Por hora, digo que não. Minha vontade, de verdade, seria pedir que a loura bonitinha do palco calasse a boca. Ela irrita. Canta tudo. Agora esta fazendo cover de (não consigo reconhecer a música). Norte-americanos? Talvez. Estamos sempre imitando norte-americanos ou algo que parece melhor que nós. Nunca seremos originais. Eu mesmo imito alguém. Não sei dizer quem, mas, obviamente, deve ter existido ou talvez ainda exista alguém igual a mim. Que seja. Eu aguento.

O conhaque me esquenta. Vou ao balcão.

— Você é o dono? Me dirijo a um cara, mais ou menos de minha idade, com cara de latino e algo de amarelo demais nos olhos.

— Sou. Pois não?

— Quanto a moça cobra para cantar?

— Ela ganha por cliente.

Quase soltei uma gargalhada. Mas me contive. O bar estava vazio. Somente eu, o casal e as mulheres solitárias.

— Posso pagar para ela parar de cantar?

— Isto não está no contrato, senhor.

— Convenhamos, amigo (digo ao cara do balcão). Esta moça não irá lucrar nada aqui. Diga o preço. Pagarei o dobro pelo silêncio.

— Bem, é o trabalho de uma artista.

— Conheço essa história. Não me venha com esta de trabalho de artista. Quantos anos ela tem? Trinta? Ninguém sai do lugar nesta cidade. Deixe que eu pague pelo trabalho da moça. Daí você joga uma música qualquer no som. Qualquer música será melhor que isto.

Tiro do bolso um pequeno envelope com algumas notas, as quais o cara do balcão observa e grita, no instante: o show acabou. Já passa das dez.

A moça joga o violão nas mãos de um dos caras do palco, desce furiosa e enfrenta o dono do bar. Disse algo. Eu não quis saber sobre o que falava. Voltei para minha mesa a fim de terminar meu conhaque. Percebi que a moça me olhava. E ela se aproximou.

— Por que pagou pelo show?

— Estou poupando suas cordas vocais.

— Seu filho da puta!

— Moça, escute, se contenha. Não diga palavrões a um homem que talvez tenha lhe salvado a vida.

— Eu sou artista. Não preciso de seu dinheiro.

— Veja como um ato de doação. Não quer sentar?

— Doação?

Ela estava quase fora de si. Na luz, pude reparar nas rugas que se formavam ao redor de seus lábios, na pintura exagerada em seu rosto e nas roupas; por um segundo, senti pena. Por um segundo quis realmente salvá-la.

— Como se chama?

— Não viu no cartaz? Está tão velho assim, que não consegue ler?

— Menina, eu não perco mais tempo lendo cartazes. Vou direto à informação. Mas tudo bem se não quer dizer seu nome.

Ela suavizou seu tom de raiva. Enquanto os homens guardavam o equipamento de som, ela, desarmada, sentou-se ao meu lado.

— O que está bebendo?

Acenei para o garçom e pedi que trouxesse uma dose de conhaque para a moça ao qual ela bebeu de um só gole e exigiu do garçom uma segunda dose.

— Rita.

— Mas no cartaz diz Dizzy.

— Você disse que não lia cartazes.

— E você disse se chamar Rita.

— É o meu nome.

Logo, Rita e eu estávamos íntimos. Ela me contou toda sua história. Família pobre, vida difícil, homens complicados e dois filhos.

— E quando começou a cantar, Rita?

— Canto desde criança.

Rita me falou de seu trabalho. Ouvi sua história com muita atenção, até que o conhaque, que das doses já havia perdido as contas, começou a fazer sentido em tudo.

— Quer ser ouvida, Rita? Cante em igrejas.

— Igrejas? Mas não sou religiosa.

— E quem disse que precisa ser?

Eu disse a ela, pacientemente, tudo a respeito de igrejas e dogmas e fieis. Eu disse a Rita o que ela teria de fazer para ser ouvida. Artistas são bichos tão devoradores que, ao fim de minha explicação, Rita perguntou:

— Gravarei minhas músicas?

— Mas é claro que sim.

— E serei ouvida?

— Não tenha dúvida.

Expliquei a Rita todas as artimanhas para se tornar uma cantora de igreja. Cante o que eles querem ouvir. Fale de sua vida de esbórnia e, depois, narre em suas músicas o caminho para sua salvação.

— Vou ganhar dinheiro?

— Sim. Irá.

Rita sorria. E eu admito nunca ter visto sorriso mais encantador.

Rita me visitou muitas noites após aquela noite. Sempre pintada e com o corpo leve de seus pileques santos. O tempo passou e as visitas diminuíram. Rita estava famosa. E narrava sua história em programas de tevê. Ela até me citou em uma entrevista, dizendo que, embora eu tenha agido feito satanás que devora rebanhos, ela sabia que O Senhor havia me usado para levá-la ao caminho de Jesus. Dela, guardo rancor algum. Consegui, através de meus conhecimentos no alto clero, continuar celebrando missas em uma cidade do interior. E, de vez em quando, ainda salvo moças da completa danação. Talvez eu seja santo. Ou apenas eu seja um homem bom.

6 comentários:

Camilla disse...

Sou Rita e preciso de salvação!

Aline Gouveia disse...

Sabe que eu não esperava esse final.
No fim, todos buscamos redenção.

BeijO, Vizinha

Luis Eme disse...

Santo é muito...

:))

Lucas - Blog: Overture disse...

Tens um texto muito interessante. Há entre nós muitos senhores em bares vazios, procurando afogar nossa inépcia em conhaques e despistar nossos recalques e fracassos nos dos outros. Isso não nos torna santos. Nem homens bons. Não há nem talvez nisso. Mas existe, certamente, em 'salvar' aqui e ali, moças da danação, algo que nos redima de nós mesmos. E há muitas Ritas que cantam desde criança o que não cantam, que são desde crianças o que não são, que precisam de um norte para além de seu horizonte limitado e que se encontram num desencontro, e se transformam profundamente. Sim, é um belíssimo texto. Beijosssssss

Bruno Oliveira disse...

Eh, me convenceu, sua voz masculina é verossímil - sentenças curtas, bem diretas, típicas de homens objetivos. Contudo, ainda acho que esse cara não é santo. Pra mim, era o capeta em forma de boêmio.

António Jesus Batalha disse...

Seu blog é encantador, estive a ver e ler algumas coisas, não li muito, porque espero voltar mais algumas vezes,mas deu para ver a sua dedicação e sempre a prendemos ao ler blogs como o seu. Se me der a honra de visitar e ler algumas coisas no Peregrino e servo ficarei radiante, e se desejar deixe um comentário. Abraço fraterno.António.