19 maio 2014

caetano entorpecente










Eu não queria muita coisa. Eu me contentava com pouco. Queria só aquele tempo de ficar a tarde inteira olhando o mar e fumar cigarros que enchiam as vistas e traziam a lua em plena tarde. Eu só queria aquilo. Uma pausa entre as faixas. Mas eu cresci, você morreu (sentido figurado filho da puta) e eu decidi que seria cada vez mais canalha. Cansada da guerra, de ser boa e levar na cara, me tornei isto. Agora aguente. Da rebordosa, sou a ressaca. Fantoche de fêmea inconveniente.





Homenzinhos lindos malham seus corpinhos pela praia. Cada um mais parecido com o outro. Camisas suadas e braços de fora. Eu gostaria de conversar com um deles. E saber o que pensa. Mas será que pensa? Isto é raiva. E preconceito. Meu ato de pura violência. Não nego minhas falhas grosseiras. De novo, consulta. Como você está hoje? Explico, passo a passo, como me sinto. Nauseada? Triste? Cansada? Nenhuma das alternativas. Eu me sinto bem. E a culpa sumiu. Eu me exorcizei. Falei um pouco mais, contei mentira e vantagem e parti, controlada como uma tempestade enlatada. Primeira esquina, um bar. Eu não bebo, não gosto do gosto que enche a boca, mas, naquele dia, eu iria beber. Pedi vodca. E Fanta — sabor Laranja. Uma merda. Acendi um cigarro e fitei as ruas. Muito calma. Sincera e quase febril, percebi que um cara me olhava. Não era bonito. Mas eu não buscava beleza. Eu só queria conversar. Ele veio e sentou. Sorriu. Fuma? Aceito. O melhor de tudo é quando dizem ACEITO. É sinal aberto. Já chega de frescura neste mundo cão. Conversamos muito até que começou a sessão de tortura: muitos elogios para acelerar a fúria. Ainda era de tarde. Eu moro perto daqui. Palavras mágicas. Caminhamos juntos e a vodca fez o favor de me favorecer. Não lembro o andar. Mas era alto. O cara, de uns 38 anos, professor de filosofia. Pura sorte minha. Vou dar com um intelectual sensacional comedor de quentinhas. O apartamento não era lá essas coisas. Se bem que nem reparei. A cama era boa. Desde quando isto é importante, não sei. Me esbaldei de cara e música. Ele era mais um do tipo que ainda ouve música bacana. Caetano entorpecente. Subo e desço. Saio da ordem. Enlouqueço. Repudio bipolar. E o cara foi ficando bonito e perfeito. Um não sei o quê. Adorei, mas só analisei com mais cuidado depois da segunda cena. Vodca perde efeito e eu me vejo como você me vê. Mais conversa surge e eu digo coisas de mim. Meio segredo. Nunca se diga por inteiro. Colidem no ar as palavras malvadas que penso. Ele sorri ao se despedir. Digo que preciso ir. Ele entende. Melhor coisa é homem que entende, que compreende, que se arrebenta. Da segunda vez que nos vimos, avisei: eu sou assim e descuidada. Causo espanto. Ele deu uma risada que parecia mais uma explosão de alívio. Disse que gostava de seres ruins. Após percebemos o quanto somos afiados para a maldade, tudo fica melhor, ele disse. E o cara entende quase todas as minhas histórias. Eu finjo que me importo com o que ele mente e a gente já está nessa há tempo suficiente para dizer amor, inventar desculpas e planejar nossas horas inconsequentes.










5 comentários:

Camilla disse...

Você tem essa prosa única de Caetanear o que há de bom!

Letícia Palmeira disse...

Mas será que é bom mesmo?

Anônimo disse...

Por ser mulher, Letícia, ou a "fantoche de fêmea", já tens em si a potência magna e inexorável de arcar um tudo e um mundo de sensações. Li e tive a sensação de estar vivendo ao lado do casal, ouvindo seus ruídos através das paredes.

Luis Eme disse...

o mundo nos torna coisas diferentes, quase sempre piores.

o melhor de tudo é realmente não nos levarmos demasiado a sério, pudermos brincar com quase tudo, até com as palavras.

e como gosto da forma como agarras e soltas as palavras, Letícia. :)

Aline Gouveia disse...

Eu me divirto com essa maluca lucidez que só os seus textos tem, Vizinha. Adoro te ler. BeijO