01 maio 2014

danificada














Eu não sei o que quero dizer. Ou talvez eu saiba. Isto é meio abracadabra. Sem coração partido, aqui está o que não digo. Sem forma, sem preço. Mas com afeto. Talvez haja um pouco de paciência também. Sentada, equilibro pernas — uma de cada vez, para não sentir formigamentos. Eu uso desculpas como entrada. Sinto muito por não estar interessada, digo, em tom de recato, à moça que me ouve ao telefone. Cansada de pedir desculpas, ligo o som. Canto alto para espantar corujas. Já é tarde e meu sangue pulsa. Cansada de amar a mais. Penso que nem todo amor termina em alguma coisa. Alguns nem começam. E outros amores esperam na fila, loucos pela próxima sessão. Catei duas cartas antigas e as li solenemente. A pieguice grafada me fez rir. E eu me senti bem. Depois rasguei as cartas como quem se despede das cinzas de um parente. A deus, o pó. Acenei e tudo. Pedacinhos de papel voando pelos ares. Cena bonita de novela que só eu vi. Andei pela casa e contei quadrados no piso. Quarenta, de uma quina a outra. E contei azulejos na cozinha. Ao invés de ler, decidi rezar. Minha prece foi direcionada. E, após rezar, fiz o que não se deve fazer sozinha. Esta é a parte mais egoísta da vida. Prazer de única sílaba. Descobri que não tenho receita para dar certo. Porque, em meu inventário, quase sempre é o contrário. Um amigo me disse que só há uma coisa exata nesta vida: Matemática. Preciso de uma tabuada (urgente). Daí ele fez contas para exemplificar. Enquanto ele contava, eu olhava estrelas e pensava em escrever. Mas é claro que eu não escreveria isto. Eu escreveria qualquer coisa. Talvez eu inventasse rimas tolas. Mas isto é qualquer coisa. Estou apenas jogando uma palavra contra a outra. Numa batalha doida. Da vida, quero o prazer de estar encantada. Como as fadas. Mas espere: eu nasci danificada. Tudo o que vejo é matemática em minhas contas tão ingênuas e enigmáticas.  

4 comentários:

Luis Eme disse...

ninguém é perfeito. :)

e claro que a vida ás vezes é o contrário da matemática e das suas lógicas, Leticia. :)

abraço

Aline Gouveia disse...

Acho que também, nasci com defeito de fábrica. A matemática nunca teve lógica pra mim, talvez nunca tenha.
Mas tenho aprendido a conviver com meus defeitos preestabelecidos e com minha própria lógica.

Adorei o texto, Vizinha.

BeijO <3

Camilla disse...

Parece seus textos mais antigos. Amei.

Zélia disse...

Eu vim fazer faxina em um outro local e acabei aqui.

Gostei muito do texto. Tentei pensar na razão disso. Não porque eu 'não pudesse gostar'. Mas, porque é isso que a gente faz. Procura razões para tudo quando, na verdade, algumas coisas só precisam ser sentidas... ;)