21 maio 2014

um amor de vício









Era vício aquilo. Coisa que se cria na cabeça, da noite para o dia. Foi em uma segunda-feira que ele percebeu. No trabalho, mal havia começado o expediente, e ele já roía as unhas e sentia seus joelhos tremerem. Inventou, então, uma desculpa qualquer — é azia — algo que não me fez bem. Dispensado da obrigação, foi para casa. Dirigiu o carro feito doido. Ao chegar, tirou a gravata, sentou-se no sofá e colocou no colo o treco: seu aparelho telefônico. Há meses havia notado o quanto aquilo o fazia bem. Sentia-se o máximo. Era homem, enfim.

E o telefone tocava.

— Alô. Eu gostaria de falar com o Sr. Alves de Arruda.

Ele respondia com toda a felicidade. O corpo arrepiado. Era a operadora de telemarketing. Ele adiava compromissos, faltava ao trabalho, fazia de tudo, só para ouvir aquela voz, gerundiando verbos, e alegrando seu dia. E não era uma voz somente. Eram quase todas que o faziam sentir-se assim. Mulheres representadas por vozes que falavam por bancos, financeiras, instituições de caridade, o escambau. Ele as amava. Conversava feito cliente, de início. Mas depois, conseguia levar a conversa até o ponto em que a mulher já o chamava pelo primeiro nome. E ela ria. E ele também. Imaginava como ela estaria vestida. E perguntava: — O que você faz quando não está trabalhando? Estuda? Elogiava a voz da mulher. Elogiava o que não via. Estava louco. Colecionava vozes como quem coleciona gibis. Gostava muito das vozes mais suaves — porque era sinal de pouca idade. Gostava das novinhas. Era gentil com as mulheres para ganhar uma resposta satisfatória: uma foto por e-mail, um número de celular, algo mais. E ganhava. Tinha fotos de muitas. Eram geralmente fotos de mulheres na praia, sorridentes, de óculos escuros e cabelos longos. Gostava dos cabelos longos. Decorava o nome daquelas que tinham cabelos longos. Das outras, ele sempre desistia. Fazia listas: Esta tem filho (não quero). Esta é tagarela (não quero). Esta é muito velha (não quero). E isto continuou até o dia em que surgiu a voz de Viviane. Que maravilha de voz. Viviane não foi difícil. Em menos de um mês, ele conseguiu dela foto, número de telefone, endereço e tudo mais: um encontro para almoço. Ao vê-la, sentiu-se completo. Viviane era linda. Bronzeada, bem torneada, pernas lindas e falava feito anjo. Toda suave. Alves de Arruda sentiu, a partir daquele dia, que seu vício fora domado por aquela criatura mulher de voz. Passaram a se encontrar muito. Quase todo dia. Começaram a namorar. Alves de Arruda era o tipo de homem que gostava de namorar bastante. Beijava de língua e comprava presentes. Viviane o levou para conhecer sua família. Viviane o fez sentir prazer. Viviane ganhou o prêmio nobre de ter Alves de Arruda para si. O homem passou a trabalhar o dia inteiro, não queria mais saber das outras mulheres; ele queria apenas Viviane. Estavam juntos há quatro semanas e decidiram dar o passo maior: — More comigo, Viviane. Ela aceitou. Foi num domingo. Mudou-se. De mala e cuia. Viviam felizes e satisfeitos na casa de Alves de Arruda que agora era homem casado. Ele dizia isto aos amigos. Estou casado. Tão alegre. E esta situação se prolongou até o décimo dia de convivência com Viviane. Algo não estava funcionando. Alves de Arruda sentia-se levemente desconfortável e infeliz. Conversou com Viviane para que, juntos, encontrassem o problema no relacionamento. Ela chateou-se. Afinal de contas, não estavam juntos há tanto tempo assim. Começaram a brigar. Quase todo dia. Ele mal ficava em casa. Alves de Arruda estava sofrendo. No trabalho, seus joelhos voltaram a tremer. Ele voltou a roer as unhas. Inventava desculpas para não voltar para casa. Ficava vagando pelas ruas como mosca que não encontra luz para circular. Sentado em um banco de praça, sozinho e doído (Pois gostava de verdade de Viviane. O fim do relacionamento, que já estava por se dar, o fazia sofrer). Ele pensava no que seria dele daqui pra frente. Sozinho e desabrigado de amor. Foi quando o telefone tocou.

— Onde você está?

Uma luz se acendeu em Alves de Arruda. Era Viviane. Ela não costumava ligar para ele. Os dois, após se unirem feito casal, nunca mais haviam falado ao telefone. Ele sentiu frio na barriga, seu coração inflamou de paixão, seu "aquilo" voltou a reagir. Como não havia pensado nisto? Ali estava a solução para tudo. O amor havia retornado e estava tão belo quanto antes. Voltou para casa, feliz e traiçoeiro, e beijou Viviane. De língua. Contou à companheira o que havia ocorrido. É isto, Vivi. Bastou que você me ligasse. Tudo voltou. Viviane sorriu de tanta felicidade. Sua vida com Alves de Arruda estava salva. Deste dia em diante, ela passou a telefonar para ele, sempre no mesmo horário, e operava seu telemarketing, vendendo seu gerúndio, para que seu homem ficasse de novo feliz. Viviane era boa e entendia. Pois era vício aquilo. Coisa que se cria na cabeça, da noite para o dia.










4 comentários:

Luis Eme disse...

todo o vício comporta perigos, mesmo o pequenino, Letícia. :)

Aline Gouveia disse...

Eu ri. hahahaha
Há de tudo no amor.
Estava esperando um final trágico. Mas que bom que foi feliz. :)

BeijO, Vizinha.

Marcelo R. Rezende disse...

Vício, fetiche, tantos nomes. Só sei que me identifiquei. A gente encontra felicidade, satisfação, tesão, em cada desculpa esfarrapada. A cabeça cria essas armadilhas e caímos feito patos.

Bom ler você, Lê. A gente aprende um bocado.

Beijo ;*

Letícia Palmeira disse...

Beijo para vocês todos.