29 junho 2014

epitáfio de um só











Mas, e se eu morrer de repente? Quem irá lavar minhas roupas sujas? Isto me preocupa mais que a política. Isto me faz não dormir mais que o amor que eu sinto. Minha preocupação de morte é muito viva. Mais viva que as flores de todo jardim. Epitáfios. Penso neles. Às vezes, até os celebro por ter escrito algo que talvez venha a fazer sentido. Não é medo da morte. Entenda. É medo de não estar presente ao morrer. Sei que isto acontece a todos nós. Todos os dias. A cada segundo, alguém morre. Terá esta pessoa deixado algo importante? Algum legado? Meu legado também me preocupa. Não quero deixar despesas. Não quero deixar lamúrias. Quero que todos sintam que parti, mas tão feliz quanto um pássaro em pleno voo aberto. Não quero que pensem que estive sofrendo ou chorando dramas. Não quero que me considerem vil. Quero morrer de forma intacta como um vidro nunca trincado. Morrer com uma simplicidade aguda de não mais respirar e apenas adormecer em tranquilidade. Mesmo que a morte física que me ocorra seja algo fatal e avassalador, quero estar sorridente em mim como uma estátua nua que jamais esconde seus defeitos de acabamento e retoques. E não me maquiem em minha plena morte. Não pintem as falhas de meu rosto que tanto fez de sorriso quanto de vasto sofrimento o choro. Não me escondam em esquife fechado porque a morte deve ser vista como ponto de partida para outro estágio. Menos trágico e mais denso. Morrer deve ser denso como tocar lençóis de algodão de tantos milhares de fios. Ou deve ser como sentar-se na grama e respirar fundo o ar que agita as plantações. Morrer não é fúnebre como o homem fez o traje deste verbo. Morrer é ir. É andar. Continuar a partir do fim. E, mesmo que não o seja, eu escolho este o enredo de minha partida. Irei de forma inteira, mesmo que eu deixe para trás amores e muitas dívidas.













2 comentários:

Luis Eme disse...

às vezes também penso nisso, Letícia.

mas é mais no sentido de deixar as coisas demasiado desorganizadas para quem fica (como por exemplo os livros, que ocupam todos os cantos da casa e da garagem...).

Zélia disse...

Às vezes, penso nisso: que linhas deixar em minha lápide? Não cheguei à conclusão alguma. Talvez, porque a hora não seja chegada. Então, vivo. Porque a forma de como morrer depende da forma de como eu viver.