18 junho 2014

minuto de acesso











biblioteca



Não quero muito. Não quero as mesmas coisas que quer o mundo. Quero apenas uma modesta biblioteca e alguns livros. Alguns que sejam antigos. E outros novos em contemporaneidade. Quero livros de vários tipos e autores diversos. Quero, em tarde qualquer, olhar a estante e saber que há possibilidade de ser mais que um. Ser um não é o bastante. Por isto busco a leitura como forma de me multiplicar. Ontem, e já era noite, me tornei personagem mulher. Esguia e cautelosa, eu andei pelas ruas de Paris. Tão em mim eu estava. Não recordo a página, nem o romance. Mas era eu quem tomava um café e observava aves sortidas que voavam raso em praça vazia. Não tenho mais o costume de dizer que ler é a única forma de vida. Digo apenas que o ato de leitura torna a vida menos esquisita.





a louca



Em consulta médica, fui interrogada. Qual é a sua idade? Sorri. Mas não por me sentir mais velha. Sorri por ter perdido o antigo medo de ter na pele o rastro do tempo. E nos olhos. Usarei óculos de graus aumentados. Isto não é nada, pensei. Ao sair do consultório, ao caminhar por calçadas, me deparei com ela: uma mulher de minha idade, talvez. Muito maquiada para o horário. Muito viva para os riscos da cidade. Ela sorria e falava. Dizia, em voz alta: Eu sempre falo com os vizinhos. Aquilo não me assustou. Era uma mulher falando em voz alta. Que mal há nisto? Não há loucura em falar consigo mesmo. Loucura de verdade eu vi alguns passos à frente. Homens e mulheres, carregados de trabalho e cansaço, esperavam condução para retornar a suas casas. Isto sim é loucura. Trabalhar até exaurir nossas forças. Reclamar e não ter a chance de sorrir. Morrer sem ter tido a chance de viver. Não era louca a mulher. Louco é o mundo. Louco é o relógio que não se cansa de correr.





dos gatos



— Para que o gato?
— Para perseguir o rato?
— E se o rato escapar ileso?

A gente nunca pondera opções. Apenas atira. De olhos fechados. Fazer plano é prazer imediato. Quase falho. Canastrão que pensa ter nascido para o palco. Poste aceso em rua distante. Rua que ninguém trafega. Rua que nem o vento invade. Tudo nos é parte.










5 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Maravilhoso.

Aline Gouveia disse...

Vivemos tão atarantados nessa vida de "ter de ser" mais jovem, mais bonita, mais intelectual, mais moderna, mais simpática... E haja reticência. Que acabamos nos anular.
Eu, como no primeiro escrito, tenho necessidade dos silêncios e barulhos dos livros. Já me dou pro satisfeita.

Muito bom te ler, Vizinha. Love u.

Luis Eme disse...

sim, mesmo que viremos costas.

Erica de Paula disse...

" Ler é única forma de vida".
Fantástico!
Andemos pela Paris, tão sonhada e amada!!

ediney santana disse...

"Não quero muito. Não quero as mesmas coisas que quer o mundo. Quero apenas uma modesta biblioteca e alguns livros. Alguns que sejam antigos. "
Eu também, eu também quero.