20 junho 2014

os dois









Nunca se deram bem. Talvez no início, um dia ou outro, tenham sentido alguma afinidade, que é a tal coisa que faz com que pessoas queiram estar juntas. Porém, digo que com eles isto não aconteceu. Foi o contrário que os levou a criar uma história que sequer desenvolveu enredo. Tudo aquilo que repele. Por solidão, talvez. Saíram para jantar, certa noite. Ela sorria enquanto ele falava de sua ex-mulher. Ela sorria e se perguntava (lá com os pensamentos dela) se ele não iria parar de falar a respeito de algo que ela não queria saber. Ele continuava a falar e a repetir. Ele se referia à ex-mulher como a falecida. Ela, quieta e aparentemente prestativa às vivências do homem, apenas pensava que falecidos não deveriam causar tantas dores. O jantar decorreu tranquilo. Ambos falavam de seus relacionamentos. E foi assim: alguma conversa, alguns segundos de silêncio e uma bebida para acompanhar o tédio que havia entre os dois. Nada de extraordinário aconteceu. Depois fumaram um cigarro, ele a levou para casa e não se encontraram mais (por um bom tempo). Houve um beijo. Um beijo que talvez tenha deixado algo que fez com que se encontrassem outra vez, meses depois. Seria o primeiro encontro, como dizem por aí. Mas deixe-me explicar: uso o termo Primeiro Encontro porque talvez houvesse algum desejo ainda escondido. Algum mistério envolto. Ou nada. A noite fora semelhante à outra noite do jantar. Ele falou a respeito da ex-mulher e ela ouviu. E com respeito. Pois talvez ele estivesse sofrendo. Ora ela ouvia, ora se deixava levar pelas vozes de outras pessoas presentes no bar. Ou pela música. Ela decidiu que iria beber. Somente alta em dose etílica conseguiria manter-se ali, paciente e receptiva. Ele falava. Ele se queixava. Ela acendia cigarros. No ir e vir daquela noite, os dois terminaram fazendo o que se deve evitar. Mas o sangue arde. Ela o queria. Ele não aparentava estar ali. Mas ela estava. E talvez o tenha feito sentir-se menos desgraçado. Ela o engoliu como havia engolido a bebida das horas anteriores. O que ocorreu após é sempre o óbvio. Dois em um. Mas nem sempre dois em um representa unidade. Eram orgulhosos e solitários demais para se deixarem dividir. Talvez eles não se desejassem o bastante. Ele não a suportava. Criticava mais que sorria. No entanto, enfrentando a revelia, se encontraram outras vezes e cometeram abusos, um contra o outro. Ele a usava. Ela o usou. Mas para quê? Nunca disseram. Talvez gostassem de ler os mesmos livros. Talvez gostassem das mesmas músicas. Talvez, por estarem famintos demais, tenham deixado seguir o que nunca havia existido. É de nota dizer que o homem nunca estava só em companhia. Ele tinha mulheres. Muitas, talvez. E falava a respeito de algumas delas. Ele mostrava a ela fotos de algumas mulheres. Ela olhava as fotos e tentava se distrair ao observar a luz da luminária que invadia a sala. Ele se apaixonava por mulheres e pedia a ela conselhos para seus amores. Até na cama ele pedia que ela o aconselhasse. Ela, nua e despida de seus pudores, ouvia o homem dizer que amava outra mulher e sempre mais mulheres. Até que ponto aquilo não a machucava? Outra questão que nada se sabe a respeito. Até que ponto aquilo não fez com que ela se sentisse ainda mais solitária? E ainda se encontraram uma vez. Mas para quê? Conversavam, discutiam, falavam. Ela ouvia insultos. Talvez tenha engolido o choro certa vez. Ele talvez não tenha percebido. Talvez ela o tenha ofendido também. Porém, não há como dizer. Pois o enredo não fora suficiente para que se diga algo mais a respeito dos dois. Deveriam ter se mantido em amizade. Mas havia amizade? Ele sempre dizia que eram amigos. Ela sorria e concordava. Por fim, é este o único registro que me cabe: o relato de uma história que, por não ter sido, nunca houve de verdade.









2 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Mas eu acho estes encontros tão verdadeiros. Primeiro, porque eles são maioria em qualquer restaurante. Já reparou como as pessoas não se olham? Não se comunicam? E quando conversam, fazem para preencher um vazio incômodo. Muitas questões, rs.

Ótimo texto, Lê <3

Luis Eme disse...

o teu texto espelha muitas das nossas diferenças, Letícia. :)

com algum humor tocas em pontos chave, que nos afastam mais do que nos unem...