01 junho 2014

os meninos da minha rua








Eram tão bonitos. Tão contentes. Corriam e gritavam de alegria. Alguns calçavam tênis. Outros, que calçavam chinelos, vestiam short azul e camisa de time. Eram meninos que estudavam de manhã, brincavam à tarde e, quando era de noite, sentavam no chão, na calçada da casa de alguma senhora que contava histórias de terror. Os meninos morriam de medo das histórias, mas eram corajosos na hora de enfrentar a bola durante o jogo de futebol. Eram meninos parecidos com os meninos de histórias em quadrinhos. E eles seguiam fases. Durante o dia, eles brincavam. À noite, namoravam. Pegavam a mão das meninas e se sentiam o máximo. A vaidade, que acomete todo mundo, também acometeu os meninos da minha rua. E eles não ligavam para as meninas que eram menos bonitas. Eles queriam as meninas mais lindas. Eles faziam festa, eles se exibiam, e passavam velozes em suas bicicletas e depois em motocicletas e, mais tarde, dirigiam carros. Os meninos faziam corrida. Alguns até se machucavam. Eram meninos muito lindos, da rua de baixo, da rua de cima, da rua de lado. Eles surgiam, com seus olhares curiosos, e formavam grupos ou bandos que sempre andavam juntos. Com o passar do tempo, eles cresceram mais, pois é esta a ordem das coisas. E ficaram sérios. Alguns queriam estudar mais. Outros queriam apenas diversão. Outros se trancavam em suas casas porque não agradavam os bandos. Ninguém falava em bullying nesta época. Era apenas coisa de menino que não gostava da cara do outro menino. E isto também ocorria entre as meninas que, a esta altura, já haviam escolhido namorado e faziam planos para o futuro. Alguns meninos se casaram. Outros se mudaram. Alguns partiram (cedo demais). Mas eram meninos de um tempo que se apresentava mais calmo e perfeito. Havia brigas, competição, maldade e todas as coisas que cercam a humanidade desde que o mundo existe. Eu penso nos meninos da minha rua com carinho e um pouco de saudade. Porque eram meninos de um tempo ingênuo, de um relógio menos atarantado. E, ao lembrar-me dos meninos, lembro-me de mim, a menina de olhos tímidos e colecionadora de papel de carta. Lembro-me também das meninas com quem eu brincava. Coisa mais engraçada. Nós tínhamos a nítida impressão de que a vida era nossa e que os dias nunca passavam por nossas portas. E talvez o tempo não passasse. Há sempre algum mistério que nos faz transcender a lógica.









2 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Lindo!
E triste.
Os meninos da rua em que eu morei são exatamente como esses, adorei me ver no meio deles. Hoje, olhando de fora, vejo que, apesar do que aconteceu, eu também fui um deles. Brinquei muito, estudava de manhã, brincava à tarde e de noitinha a gente sentava e conversava, ouvia músicas, falava do shopping que a gente queria ir no final de semana.
Coisa boa, obrigado pela lembrança, Lê.

Luis Eme disse...

pois há, Letícia...

a vida dos grandes (que queremos nossa...) é quase sempre uma desilusão...