31 julho 2014

formigas









Tive um dia normal. No trabalho, muitas vozes falando coisas que sempre falam. Pessoas gostam de se repetir ou falam alto para que sejam ouvidas. Trabalhei, fiz minha parte e larguei às 5 horas. Fiquei preso no elevador com duas mulheres. Uma, de cabelos louros, não parava de dizer que era claustrofóbica. E a outra, de vestido de bolinhas, apenas olhava as unhas de forma despreocupada. Eu, não tendo muito o que fazer, me sentei no chão e esperei que o problema fosse resolvido. Quinze minutos depois, o elevador voltou a funcionar. Dessa forma, estávamos livres, as mulheres e eu, para voltarmos a nossas vidas. Caminhei por 20 minutos. Eu não conseguia pensar em nada importante. Pensava apenas em beber algo e terminar de ler um livro. Atropelei uma fila de formigas que carregavam folhas caídas de uma árvore. Tentei evitar, mas já era tarde. Meus pés estavam apressados. E, se eu evitasse o atropelo, provavelmente teria caído. Matei as formigas e isso me incomodou por algum tempo. Até que cheguei ao bar. Não havia combinado com ninguém de me encontrar em um bar após o trabalho. Não gosto de combinações. Não gosto de muitas companhias. Sentei e pedi uma cerveja. Bebi muito rápido. A cerveja me abriu o apetite, embora eu não esteja sentindo muita fome nos últimos dias. Senti vontade de comer algo. Mas algo que fosse diferente. Senti vontade de comer o assado de carneiro que minha mãe costumava preparar nas festas de família. Li o cardápio e vi que no bar só serviam petiscos. Posso até ser comum, mas não sou pessoa de comer petiscos. Não suporto coisas em pequenas poções. Pedi outra cerveja. Bebi em dois goles. E me voltaram ao pensamento as tais formigas. Fui ao banheiro, lavei o rosto e tirei os sapatos. Eu queria verificar se as formigas ainda estavam lá, esmagadas. Não vi rastro. Havia apenas um tipo de poeira negra e algumas pedrinhas grudadas na sola de meus sapatos. Seria triste ver as criaturinhas mortas. Senti alívio ao perceber que não estavam lá. Voltei para a mesa onde estava e pedi outra cerveja. Não bebo muito. Tenho alguns problemas de descontrole etílico. Evito beber. Três cervejas são suficientes para que eu dê o dia por encerrado e volte para casa. Paguei pelas cervejas, peguei o ônibus e ouvi um pastor tentando vender Deus por duas pastilhas e uma caixa de chicletes. Comprei. Masquei o chiclete para disfarçar o hálito de cerveja. Cheguei ao bairro onde moro. Pedi parada ao motorista, que me olhou como se estivesse pensando em algo totalmente distante dali. Talvez o cara estivesse pensando em ganhar na loteria. Me ocorreu que algumas pessoas ainda sonham. E fazem de tudo para que seus sonhos se realizem. Talvez o motorista seja o tipo de pessoa que aposta na loteria, pensei. Talvez ele ainda tenha fé. Desci do ônibus, caminhei alguns metros, abri o portão de casa e fui recebido por Brutus, meu pastor alemão vira-latas. O cachorro latia para mim como se sorrisse. Fiquei feliz ao vê-lo. Falei com Brutus como se falasse com alguém. Abri a porta da frente, deixei as chaves sobre a mesa, me dirigi ao quarto, tomei um banho, vesti minha roupa de dormir (calção e camisa qualquer), catei algo na geladeira para comer. Mas eu realmente não estava com fome. De barriga vazia, me sentei na sala e liguei a TV. Deixei que passasse o noticiário. Tentei me importar mais do que já me importo. Procurei uma posição confortável na poltrona e fiquei apenas observando as cores cintilantes das imagens da TV refletirem na parede. Eram várias cores. E, antes de cair no sono, pensei nas mulheres do elevador. E pensei nas formigas que só carregavam folhas. Pensei em tudo e adormeci. Creio que ronquei a noite inteira. Mas não sei dizer. Ao acordar, não sei como explicar isto, mas, ao me vestir para outro dia de trabalho, dei de cara com uma fila de formigas carregando folhas no piso da cozinha. A vida se refaz, concluí. Despedi-me de Brutus e voltei ao meu dia de acontecimentos banais.










2 comentários:

Luis Eme disse...

como gosto de ler as tuas banalidades, Letícia. :)

Laura Ferreira disse...

gostei.