07 setembro 2014

fetiche











— Qual o seu fetiche?

— O quê?

Parem tudo. Abriu-se um buraco sob os pés. Um vão imenso de interrogações. A pergunta parecia se repetir mil vezes equalizadas por outras questões.

— Fetiche?

— É. Fetiche.

Saiu de fininho. Desconversou e saiu. Disse adeus, três beijos que é pra casar e tchau! Na porta, um táxi.

— Pra onde? Perguntou o homem.

Ela, pega de calça curta, ao taxista disparou.

— Pra casa, moço.

— Mas a senhora mora onde?

— Ah, tá.

Ela disse o endereço e o táxi seguiu. Encolhida ali, no banco traseiro, só pensava na pergunta. Qual o seu fetiche? Mas como nunca pensei nisso? Como pude passar tanto tempo vivendo sem saber o meu fetiche? E passavam ruas e carros. Pela janela do táxi, paisagem. E ela se sentia perdida, sem saber mais da vida. Fetiche tem a ver com sexualidade. Ok. Então, digamos que minha vida sexual tenha passado até agora sem que eu saiba qual meu fetiche. O carro avançava pelas avenidas. Ela se encolhia cada vez mais. E tentava imaginar: Homem de calça jeans. Só de jeans e sem camisa. Não. Não é fetiche. Leite condensado? Melequeira! Nunca! Homem de barba? Mulher? Não. Homem e mulher de barba? Quê? No que estou pensando? Louca. Espera. Música romântica e homem de calça jeans? Não, meu fetiche não é esse. Meia luz e olhos vendados? Meio masoquista? Sinto nada. Nem frio na espinha. Ela tentava imaginar todas as situações possíveis que revelassem algo. Pés? Mãos? Não. Também não. Ereção? Mas isso é tão comum! Não é fetiche. Beijo na boca? Parou. Sentiu frio na barriga. Mas beijo na boca tem que vir de uma pessoa específica. Não é fetiche. É amor. Ou quase amor. O taxista cantava música de igreja. Sinal fechado à frente. Fazer coisas com estranhos? Mas eu já fiz coisas com estranhos e não gostei. Senti nada. Fazer coisas com mais de uma pessoa? Não. Não gosto de confusão. É muita mão. Meu Deus, qual o meu fetiche? Falou em voz alta. O motorista ouviu. O homem pensou que a mulher talvez estivesse drogada. E soltou: 

— Gosto de fazer corrida pra gente drogada não, moça.

— Não estou tão assim, moço. 

O bom seria se estivesse. Ou bêbada. Talvez fosse mais fácil descobrir. Flores? Tentou imaginar uma cama cheia de flores. Ela e um homem. Ainda não sentia nada. Começou, então, a imaginar alguns homens que conhecia e que pensava sentir algo por eles. Aquele? Talvez tenha algo de especial no jeito de falar. Talvez eu tenha fetiche por voz. Não. Não tenho mesmo. E o tal? Pensou em um cara que havia conhecido no trabalho. Forte demais. Me dá vontade, mas não me revela nada. Pingo de vela? Iogurte nas partes? Eca. A céu aberto? Ela começa a rir. Mas nem a pau. Pau? Não gosto da sonoridade. Banho de vinho? Cabelo molhado? Sexo violento? Não, não e não! Mas como posso não saber do que gosto nas horas de gostar de fazer algo? Todo mundo tem fetiche. No entanto, eu, que achava que tinha tudo, não tenho. Carro para em frente ao portão.

— É aqui, senhora?

Ela não respondeu. Parecia inerte. Olhava pro nada. O taxista falou mais alto.

— Senhora, chegamos!

— Desculpe. Quanto deu?

Pegou o dinheiro que tinha na carteira. Dinheiro inteiro.

— Fique com o fetiche, senhor. Aliás, com o troco.

Cada louco nesse mundo, disse o taxista, que saiu arrancando e cantando pneu.

Ela ficou lá, parada. Pensando ainda. Não tinha resposta. Desistiu de pensar no tal assunto. Entrou em casa, bebeu uma caneca de leite, tomou banho de lavar cabelos, vestiu camiseta e calcinha, passou hidratante nas pernas e na cama se encolheu. Daí veio uma cócega esquisita, um frio que percorria o corpo e estalava na língua, uma umidade de se envergonhar e querer mais. Tão simples. Telefonou.

— Alô

— Que foi?

— Eu sei a resposta.

— Então, qual é?

— Meu fetiche sou eu.












3 comentários:

Luis Eme disse...

meu "fetiche" por ti são as tuas palavras, Letícia. :)

fizeste-me pensar e dar umas voltas, sem encontrar o dito cujo... mas talvez tenha uns cinquenta e seja difícil encontrar um:)))

Bruno Oliveira disse...

Ah, se Eco ouvisse essas coisas... Também ficaria louca! Narciso mandou uma beijo. Mas o quererá de volta logo cedo.

NDORETTO disse...




Escritora, escritora !!!! Crônica deliciosa!!!!!

mil abraços
Doretto :)