26 novembro 2014

após chuvas











Aos poucos
Que são tantos






A buganvília morreu. De novo. E, desta vez, percebo que não há chance da coitada voltar. Chorei não. Disse a Aurélio que cortasse o que sobrou da raiz. Estava podre a pobre planta pasma. Travando a língua, Aurélio fez o que pedi, e ainda me encorajou a buscar muda de outra espécie. Porém, não me senti pronta. Vivo meu luto até o fim. O velório ocorreu sem que ninguém notasse. Formigas cercaram o jardim e borboletas, que sempre surgem após as chuvas, deram ar de suas graças ao redor da planta que não estava mais lá. Eu, vestida como sempre me visto, cantei uma oração para a falecida, enquanto o homem, suando que molhava o chão, arrebentava com as mãos a raiz restante. Observei, com pretensa atenção, a lenhosa ausência da sombra que tanto me protegia do sol. Lembrei-me das flores e do vulto de suas alegorias. Eram belas as rosadas faces que brotavam de tudo quanto era lado. Suspirei ao final da cerimônia que nada carregou de fúnebre. Sorri ao ver partirem as formigas e, das borboletas, o bater de asas comoveu Aurélio, que pouco lamentou o instante. Fiz café e chá e deles nos servimos. Aurélio e eu. E eu só pensava na beleza próspera que surge, de improviso, entre os imprevistos. 







3 comentários:

Luis Eme disse...

a sombra, a beleza, o cheiro, vão fazer-te falta, Leticia.

sobra a boa memória...

Wander Shirukaya disse...

sdds daqui.
que bom poder matá-las. :)

António Jesus Batalha disse...

Blog encantador,gostei do que vi e li,e desde já lhe dou os parabéns,
também agradeço por partilhar o seu saber, se achar que merece a pena visitar o Peregrino E Servo,também se desejar faça parte dos meus amigos virtuais faça-o de maneira a que possa encontrar o seu blog,para que possa seguir também o seu blog. Paz.
António Batalha.