27 fevereiro 2014

pragas







Ela me olhou e disse que mulher assim não chegaria a lugar algum. Eu não me atrevi a perguntar de que tipo de mulher ela falava. Mas falava e se repetia. E ainda usava linguajar inadequado. "Certamente ela irá trepar". Esta palavra me doía nos ouvidos. E ela se repetia. "Ela irá trepar com este e mais aquele. Duvida?" Eu não respondia. Apenas sorria como se concordasse. Eu queria mudar de assunto. Mas a respeito de quê conversaríamos? E isto foi ontem, durante a festa de noivado de sua filha. Emília de Rodat, minha velha amiga. Quando a conheci perguntei o motivo que levou sua mãe a lhe dar este nome. Ela mencionou nome de santa, escola de freiras e outras desculpas escorregadias. Descobri, tempos depois, que o nome fora escolhido por seu pai que, ao ver a menina nascer de uma mulher da vida, queria salvá-la da perdição. Emília era filha de uma mulher qualquer. Um dia seu pai, ainda muito jovem, conheceu a mãe de Emília em um desses locais para diversão de homens solteiros ou casados entediados com suas vidas. Ao saber que a tal mulher teria um filho seu, ele, o pai de Emília, que era homem de palavra, decidiu assumir a criança. Casou-se com outra que aceitou criar a menina como se fosse sua filha. É assim. Demônios também se salvam da perdição. E a menina fora criada catolicamente. De forma fina e mentirosa, frequentava a igreja. De forma alegre e faminta, confessava-se demais. Ninguém suspeitava. Somente a mim coube saber o que realmente se passava entre Emília e o padre. E não mencionarei. Não conto crimes que não presencio. Aprendi isto com a vida. Sempre me vi na obrigação de silenciar coisas. Nunca me expus. Nunca me deixei ser. Nunca falei mais alto que o tom de Emília com sua boca carnuda e insuportavelmente venenosa. Ela falava de mulheres. Porém, agia como elas. Ela criticava tudo que não fosse seu. Ela queria que o mundo lhe servisse de tapete e sentia inveja das Marias, das Berenices, das Idiotas todas que conhecíamos. Emília sempre fora uma desgraçada. Perdão pela palavra. Não me deixo dizer certas coisas. Mas hoje estou beirando a escassez de meu silêncio polido. Desgraçada e vil. Eu poderia dizer mais. Eu posso dizer mais e direi. Emília fazia de tudo com todos. Toda perversa. Certa vez, em um passeio ao zoológico, ela fez coisas indizíveis com um menino da escola. Ela obrigou o pobre coitado a tocar nas partes baixas de um mamífero que estava adormecido em sua jaula. Ela dizia "toque nele, seu medroso. Toque nos testículos". O menino chorava e eu fechei os olhos esperando que aquele momento passasse. Eu odiava os atos de Emília. Percebi isto ao vê-la matando formigas. Ela matava as criaturinhas e sorria como se fosse festa. Eu sempre tive um apego imenso a formigas. Não me pergunte o motivo. Não sei dizer. Ou talvez eu saiba. Emília matava formigas. Ela as esmagava com as mãos e os pés. Seus pés nojentos de unhas pintadas de rosa. Eu chorava silenciosamente enquanto ela feria as formigas. Eu tentava dizer que de nada tinham culpa. Deixe em paz as formigas, Emília. Eu queria gritar. Mas eu nunca gritei. Sou negligente. E cúmplice. Participei das maldades de Emília como uma doente paralítica. Nada fazia. Apenas sofria e observava. Apenas permitia. Crime maior é a permissão. Na noite em que ela decidiu afogar a criança, eu estava ao seu lado. Ela dizia "ninguém deverá saber, entendeu?" Eu, calada e demente, nada fiz. E ela afogou a criança. Em cinco minutos, as bolhas não mais surgiam na superfície da água. A criança estava morta. Emília trocou suas roupas, limpou o sangue do chão e foi deitar-se em seu quarto ornado de imagens de santos. Ninguém nunca desconfiou. Ela escondera a gravidez. Eu escondi o que ela escondia. Eu menti assim como ela mentia. E se perguntarem o motivo de meu silêncio, eu não sei dizer. Eu era cuidadora das maldades de Emília. Eu não queria que o mundo a visse. Bastava eu como a testemunha de tudo. Passamos a vida assim, uma ao lado da outra. Nossos filhos cresceram juntos. Nossos maridos se tornaram amigos. Vivemos avizinhadas e amigas. A palavra sempre me trai. Mas como pude ser amiga de tão perversa mulher? Eu não sei dizer. Ou talvez eu saiba. Algumas criaturas nascem e são batizadas para protegerem pragas.

A mulher encerrou a leitura e fechou seu caderno. Na igreja, todos a olhavam perplexos. O caixão estava lacrado. Emília jazia entre margaridas. E todos a conheciam de verdade agora que estava em silêncio e sem vida.







21 fevereiro 2014

de amores crônicos










homem de poema


Ele dizia não gostar de poesia. Era rígido em sua opinião. Não gosto e ponto final. Ele não suportava poemas. Não os lia de forma alguma. E sequer se explicava. Eu, com a minha mania de silenciar perguntas, nunca o questionei. E eu queria lá saber por que ele não gostava de poesia? O que me importava mesmo era seu verso em meu corpo e tudo que fazíamos completos de tanto que dizíamos amor. Ele nunca soube. Mas a verdade é que ele era o poema. Inteiro. Indiscreto. Metrificado para meu prazer prático de mulher de prosa. Ele não lia poemas. No entanto, ele os criava com seus movimentos e, por minha sorte, com toda a veneração.





Passionais de excessos


Não havia medo. Havia apenas um pouco de crueldade que surge entre amantes que se tornam ágeis em fazer com que o outro sofra. Ele sofria. Lembro-me do dia em que ele se sentou em uma das quinas do quarto. No chão, parecia um ser que acabara de nascer de um parto ruim. Dizia convicto que eu o fazia sofrer. Ele dizia que minha existência doía em seu corpo. Eu sabia que ele exagerava. E dava glórias aos céus por ter ao meu lado um homem trágico e estilhaçado por si. Eu idolatrava seus exageros. E ele se alimentava de minha forma distraída de fingir que nunca percebia que eu o afligia. De rancores. De mágoas. De ciúme, talvez. Neste dia, sentados, olhando um para o outro, pela primeira vez, após o ato que faz tremular pernas, adormecer lábios e agigantar amores, sorrimos. E eu me vislumbrei no espelho. Nua, avermelhada pelo excesso de forças do homem, eu soube que, ao tocar-me, de forma lenta e rude, ele fazia com que eu sentisse suas dores.





Funeral e flores em memória


Eu nunca mais o vi. Não busquei saber a seu respeito. Não fora preciso apagar nome da agenda, nem número de telefone de minhas notas. Porque tudo fora perfeito até o fim. Equação matemática resolvida a cada hora. E a mulher que eu sou aprendeu a viver de novo amor e enterrar sobras póstumas.












13 fevereiro 2014

incoerência











as pessoas correm da chuva mas
sentam
em banheiras cheias
d'água.

(Bukowski)






Tevê ligada. Padre fala em salvação. Eu apenas ouço. Acredito que ele terá de falar muito. Porque muitas coisas estão perdidas. Meus óculos se perderam. Minha fé está partida. E os carteiros estão em greve. Hoje a vida me expôs mais um dia de coisas comuns. Comuns porque eu as aceito. Mas não porque o sejam. Não houve aula na escola em que leciono. Não havia comida para as crianças. A verba para a merenda se perdeu. Onde está a salvação, senhor? Se salvar refere-se ao fato de fazer voltar ou alinhar algo que se desvia, creio que a política já está nos infernos. Eu teria vergonha caso eu trabalhasse com política. Mas quem disse que não trabalho? Tudo é política. Desde a hora em que desperto à hora em que me despeço e adormeço, tudo é política. Atitudes, palavras, reis na barriga, pessoas que passam, pessoas que mendigam. Tudo é política. Até a moça do jornal que fala em meteorologia. De saia e saltos altos, ela diz: sol quente aqui, sol quente ali, pancadas de chuva ao leste e tudo às boas no sul do Brasil. Mas será que está tudo bem? Tento mentir para me sentir melhor. Há tempos perdi minha fé no país. Que é nação. Que é gente. Não falo do país Praia e Carnaval. Isto é outro assunto. Falo do país em que um certo presidente barbudo jogou tudo sob o tapete e agora, meu deus, tudo está tão aparente. Até as rachaduras nas caras ricas que antes eram tão contentes. Tenho pena de quem é brasileiro. Logo, tenho pena de mim. Mulher, brasileira, negra e leitora de Mário de Andrade. Que, aliás, tem sido minha companhia nos últimos dias. Estou lendo Amar, verbo Intransitivo. Estou apaixonada pelo modernismo que esconde as cenas de sexo entre Carlos e Elza. Tudo tão bonito. Livro é o melhor esconderijo e, também, a melhor forma de enxergar o quanto estamos perdidos. Leio e penso. Penso e sinto vontade de fugir. Fujo e dou de cara comigo e me revolto ao me perceber incoerente. Mas será que sou incoerente? Pessoas não me parecem coerentes. Sou pessoa também. Falei a respeito disto com uma amiga. Chegamos ao ponto g da questão máxima: quase todo mundo age de forma contrária ao que diz. Comunistas vestem Adidas. Mulheres berram por liberdade, mas imploram que seus homens (ou amores) não as abandonem. Quase todo mundo diz que ama, mas na hora do amor, dorme na cama. Entende? Isto é metáfora? Isto é bobagem? Estou farta. Quero apenas Sartre de volta. E uma boa dose de verdade para que tudo em mim se salve. Eu tenho amor, a dama da noite perfuma a casa, faço tudo que gosto de fazer. No entanto, ainda engulo esta acidez de infelicidade. Ainda a verborrágica revolta me invade. E todo dia eu volto para casa cheia de tanto viver nesta cidade.










12 fevereiro 2014

convertida









Que está olhando? A lua. Não vê o quanto ela existe? Neste instante, só a lua existe. Não exagere. Deite. Vamos ler. Juntos? Eu nunca li em companhia. Considero toda leitura o estandarte de uma solidão ávida por estar sozinha. Você não faz sentido. Deite-se aqui. Ao meu lado.

Deitados.

Ele começa a ler.

Página primeira.

Não comece do início, ela diz. Pule capítulos. Mas por que devo evitar capítulos? Porque minha fome é esta: pular capítulos. Não quero beijo de introdução, aperto de mãos de bons vizinhos. Quero a guerra declarada por campos inimigos. Entendi. Você precisa dormir. De conchinha. Eu te faço um carinho. Ela não pôde deixar de imaginar coisas submarinas. Conchas, ostras, pequenos seres aquáticos, lentos no ritmo da água de um oceano seu e íntimo.

Aceitou o convite.

O que mais faria a não ser deitar-se ao lado dele e dormir (de conchinha)?

Desde os tempos de faculdade não faço isto. Você precisa se deixar conhecer. Prefiro não ser vista. Mas agora eu a vejo. Não estou certa disto. Você vê a superfície. O limo. Mas a lâmina, o corte, a alma que a razão se contorce por regenerar, você não vê. Vejo seus olhos. Estamos brincando de descobrir o outro? É isto? Por que não aceita este momento, esta conversa amena que é prova do que sinto? Porque sentir não é isto. Sentir é vago. Não há como definir. Você consegue dizer o que veem os olhos das esfinges? Mas nada quero com esfinges. Sou prático e, por esta razão, eu decido que quero somente isto. E o que seria?, ela pergunta. E, ao perguntar, sente-se presunçosa, crua e má.

Mas nunca será.

É ingênua, santa, profana de um altar só.

Ele olha a janela que ainda exibe o rastro da lua de minutos atrás e diz:

— Quero apenas deitar ao seu lado.

Ela sorri, quase pervertida. Pois sabe que no silêncio cada palavra não dita será convertida. Talvez em arte. Talvez em mentira.












09 fevereiro 2014

engenho de lírios









As horas 
que são rubras




Tempos arredios. O vento açoita plantações pelo caminho e meu corpo se ergue em vasto patamar de amores que crio por estar convencida da púrpura enguia devoradora de cavalos marinhos que sou. Urbana minha cidade se anuncia. Devasto meu casto andar de mulher moderna e estou tal qual menina que inveja a coragem de suas amigas. Todas famintas. Não posso me anular. Vejo, em dezenas de alguns beijos, o pleno voo de algo que nunca saberá voar. Por não estar pronto. Por não querer estar. Psique me acorda atordoada com os ruídos vizinhos. Minha cama é vaga de mim porque nunca estou comigo. Agora batalho para me despedir de mágoas que trago desde a primeira idade. Estas que escoam em páginas, em bilhetes escritos, em dramas de princípios duvidosos que elaboro com meus olhos de catar lágrimas. Não as quero, eu insisto. Pois estou para a vida por ser vício aprender o mau ofício de ser a criatura que se prende por vontade própria ao seu engenho de lírios.












06 fevereiro 2014

arbitrários do ventre









Corava. Bastava que o professor a lembrasse dos insetos que sobreviviam na água, ela corava. Lembrava-se de seus banhos, lentos e demorados. Ardentes e solitários. Mas apenas ela sabia o que fazer com seu próprio corpo que tanto tocava ao molhar-se sob o chuveiro. Cantava. Todas as músicas eram solfejadas, murmuradas por sua voz de qualquer canto. Cantava a Deus se assim o quisesse. Cantava e tocava seu corpo úmido das águas passadas em tantas correntezas e, que agora, se debatiam contra ela. O encontro perfeito. Seu corpo e suas mãos. Suas mãos e sua voz. Sua voz e o silêncio solitário de quem se conhece mais que outros. Nunca teve coragem de matar uma formiga sequer. Que dirá um inseto tão minúsculo como aqueles que povoavam seu banho? Nunca. O banho era sempre a hora de sentir o estrondo. Contorcia-se inteira e só não beijava sua própria boca porque não havia meios. E isto lhe doía na alma. Tanto. Ela se amava de forma feroz. Faminta a fêmea que se descobria a cada mover de dedos em seus interiores ávidos. Queria o toque. Queria a quebra de suas correntes que a prendiam a seu corpo. Queria ser outra. Queria ser ele.

Conheceram-se no trabalho.

A esta altura, ela já era mulher de ganhar dinheiro. Trabalhava todos os dias. Certo tempo, às seis da noite, ela o viu. De primeira impressão, ele era um homem comum assim como todos os homens comuns: barba e sorriso. Mas caminhava como caminham homens pesados. Ele carregava seus pesos. E algo mais o distinguia dos outros. Ela percebeu isto com o correr dos dias. Ele se alegrava ao vê-la de forma que nenhum outro homem havia feito antes. Ele se alegrava demais ao vê-la. E ela se interrogava a respeito disto porque não estava certa de seus sentimentos. Mas sabia: "Ele não me faz alegre. Ele me faz corar. Sinto raiva." Ela corava por ele. Ao conversarem, ela corava. Ao saírem juntos, mesmo que não se tocassem, ela sentia o que somente em banhos a água lhe permitia. Ela decidiu que o queria. Tentou dissuadi-lo. Vamos sair juntos? Ele sorriu e sim, sairiam. Com o passar dos meses, ela fora percebendo nuances de diferença e igualdade. Ele era diferente dela em músculos e formas. Porém, os dois desejavam o mesmo. Ele também queria o ele que, por estranheza humana, é sempre o ele que não quer estar perto de quem o deseja. Fizeram, então, um pacto de estarem juntos sempre que a fome os devorasse. Sempre que a solidão fosse maior que o tempo. Ela o queria e ele manifestava carinho por ela de forma afoita, medrosa e recorrente. Foi através dele que ela soube de si, de suas vontades, de seus medos. E foi através dela que ele soube que seu corpo poderia entre fêmeas também mover-se. Ela nunca tivera a vontade de trazê-lo para si. Prendê-lo. Ela o queria como ele era. A continuidade dela. O gênero misto que a beijava e fazia com que ela sentisse o que somente a água lhe doava. Os dois sabiam que se amavam. Porém, eram iguais por dentro. Opostos apenas pelos desejos arbitrários do ventre.