22 abril 2014

a inocência dos frutos










Augusto não gosta de minhas saias curtas. Reclama demais. Fala de meus modos. Diz que tenho pecados. Augusto está errado. Pecar seria viver de outra forma que não esta: a minha forma. Hoje decidi sair recatada. Vestido longo de mangas longas. Embora o calor consuma meu corpo, estou escondida. É assim, Augusto?, pergunto. Ele faz que não vê, que não ouviu. Eu deslizo eufórica em direção ao mercado. Hoje é dia dos melhores frutos. Desde cedo ele reclama: acabaram-se as maçãs. Eu preferi silenciar a dizer que ainda havia maçãs em casa. Eu as escondi. E o único motivo pelo qual o fiz: Augusto sairia comigo. E eu sairia de Augusto que vive de me esconder do mundo. Vive dizendo que preciso cuidar de minha saúde. Augusto vive. Eu me visto em seda indiana e azulada em tecidos. Caminhamos separados. Augusto lê placas e letreiros. Eu escondo meu riso. Faço de maldade. Sou menina desde que me tornei mulher. Cometo coisinhas que só meninas podem cometer. Certa vez, sai escondido enquanto Augusto dormia. Fiz de fazer o feito. Com alguém que não me atrevo a dizer. Ralei joelhos em tapete persa. Desculpa que inventei: eu caí, Augusto. Ele disse que não cuidaria de mim. Ele disse que eu deixasse de ser destrambelhada. Eu ri. Outro risinho tonto. Faz dias isto. E hoje quero brincar de fazer de novo. No mercado, o povo anda acelerado. Vozes, gritos, apitos, criançada. Tudo. Augusto me parece enjoado. Ele inspeciona as frutas de todas as bancas. Eu inspeciono as pragas que são humanas. Estou corada. E caminho em frente. Augusto, sempre atrás, me diz para ir devagar. Digo que vou ao banheiro. Nunca em voz alta, ele diz. Seja educada. Todo cárcere é sedutor. Tenho certeza disto. Entro em uma das partes do mercado e vejo: banheiro para senhoras. Este é o meu. Logo atrás de mim, a praga para quem acenei com meu riso que diz tudo. A mesma praga do tapete persa. Não temos muito tempo, eu advirto. Ele diz que sentiu saudade. Eu não quero sentir. Quero apenas o ato. Beijos de boca adentro. Tanta língua. Mas tudo em silêncio. O vestido que é longo se transforma em manto. Deitados, nos transformamos em uma só coisa que chamo de praga. A praga que enfurece os nervos e acumula desejos. Eu amo você, eu diria. Mas não posso sentir nada que seja divino ou digno. Preciso sentir algo que depois me traga vergonha. E muito riso. Suas mãos de homem escondem o grito de minha boca. Nesta hora, meu sexo está aberto e preenchido por ele a quem eu não dou um nome. Ele me pede que eu diga algo. Mas eu apenas o observo. Estou calma e trêmula como uma comparação feita fora de hora para um poema. Uma serpente? Não. Estou mulher. Nosso riso é completo. Ele me ajuda com o vestido. Arruma meus cabelos. Beija de novo os lábios e me interroga sobre nova visita ao tapete persa. Digo que irei pensar. Saio. Quase correndo, passo por pessoas que vivem. Quase sôfrega, deixo para trás o que tive e terei até que a ausência de vida me acalme. Alguns minutos valem mais que muitos outros minutos. Encontro Augusto parado na escada. Interrogativo, austero, infinito. Ele diz que comprou as maçãs. Aponta em direção ao portão principal do mercado. E algo no homem o faz mais sereno. Ele elogia o vestido. Diz que esta é a forma que devo me vestir. Recolhida. Senhora. Eu aprecio o elogio com meu sorriso mudo. E penso que mal sabe Augusto que a casca apenas aprimora o fruto.










16 abril 2014

dia vulgar









Ao amor,
este segredo.





Estou escrevendo para alguém em particular. Com as mãos abertas para dar o que não recebo. Sou altruísta e, ao extremo de meus excessos, me vejo. Acampada em uma colina, penso estar observando o céu. Preciso deste momento de solidão para saber que não estou só. Estou inteira. E escrevo para organizar palavras que a voz não diz. Os dias estão cheios de trabalho. Recebi reclamações. Aceitei de bom grado. Mas fiz cara de menina mimada e triste. Quase sofri. Em telefonema, eu disse a uma amiga que não me permito sofrer (em vão). Mas penso que evitar algo já é quase dor. Entende? Recebi conselhos religiosos que me fizeram pensar a respeito de Deus. E eu o imaginei. Sentado à mesa, a repartir o pão em minha presença. Estávamos juntos. E conversamos sobre coisas triviais. E Deus sequer citou a Bíblia. Eu não gosto de conselhos que me digam quem eu sou. Pessoas gostam de dizer que sabem quem você é. Pessoas gostam de caracterizar tudo aquilo que não entendem. Troco pronomes possessivos para não permitir compreensão. Veja só como me limito. Li trecho de Bukowski em que ele dizia ficar em silêncio para não ferir. Eu também faço isto. Dia desses, banquei flor de enfeite para alguém que não demonstra afeto. Eu o fiz porque pessoas precisam falar de si. Esta lição eu aprendi. E com louvor. Eu deixo minha presença aos que me convidam. Não aprendi a me negar. Mas tanta doação pode deixar o bolso vazio, eu penso. E assim eu me senti: vazia. Como um bolso vazio. Sem dor alguma. Felicidade? Talvez metade. Indiferença não me fere porque eu me protejo com um sorriso e me cuido para não perder o que ainda tenho que é de mim: este segredo. Este que nunca direi por pura falta de coragem. Cães ladram enquanto redijo. Eu não sou santa. Eu sempre tenho interesses ocultos. Mas não posso contá-los. Nunca. Porque eu não os conheço. Meus segredos são criados pelo tempo. Escondo coisas pela casa. Pingentes, anéis, marcadores de livros. E, quando as encontro, sinto-me feliz por não tê-las perdido. E isto é quase um diário. Só erra em gênero por eu não me deixar tão vista. É preciso olhar com lupas, e bem de perto, pois estou acontecendo escondida. Estou acordada para minhas urgências e imaculada por amor e tinta. Eu sou uma mulher viva. E estou imensamente feliz. Embora eu nunca o diga.











07 abril 2014

euforia











De segunda a sexta nós acumulamos nossa sede para viver no fim de semana. Já reparou? A gente vai alimentando o que sente (se é que sente), esperando que tudo venha para nossas mãos. É um tal de deixar agenda em dia, pessoas em dia, tudo em dia. Até depilação. E é claro: a gente também corta o que não nos serve mais. A gente não quer café de ontem. Então, a gente dispensa. E a gente se engana ao pensar que nós não seremos dispensados. Também é largado o jogo que se torna decorado. Entende? O mundo é vasto e há novidade sempre. "E a gente não quer só comida". A gente quer comida, conversa, bom trato e amor de sobra. Mulheres maquiadas e homens em forma. Sempre que eu saio por aí, vejo esta cena que me faz lembrar festinhas dos anos 80. Todo mundo esperando a hora da dança. Naquele tempo era romântico. Hoje em dia, é escracho. Porque não é só dança. É beijo na boca de estranhos, sexo sem vênus e muita grana gasta para, quando chegarmos em casa, aguentar o vazio da bebedeira. Ressaca pior não há. Ou talvez haja. Mas eu não quero falar a respeito. Saí ontem e conheci alguém que, por via das regras, fingirei não conhecer da próxima vez que nos esbarrarmos. Conhece esta história? Tão comum quanto um mais um. Na verdade, velha e boa, a gente não passa de um bando de pessoas egoístas, chatas, medrosas e vaidosas, que morrem por doses pequenas de afeto e sexo que nem sempre é bom. Te digo que sexo só é bom seguido de conversa. Ou silêncio. Ou porta fechada na cara. Assim como cavalgar, que só traz prazer em belo cenário. Enfim. Não estou muito para escrever. Mas ainda há algo que preciso dizer: O problema não é o palheiro. Mas a agulha que gasta sua linha fazendo costuras em farrapos imensos.