16 setembro 2014

da hipnose, o verso











Era silêncio. No quarto, ecos de movimentos. Tudo era morno ou quente em excesso. Ele mergulhava nos olhos dela. Sem cuidado algum. E lhe acariciava o pescoço e dizia baixinho uma coisa qualquer e muito bela. Ela se encolhia e depois arfava o peito. Repleta de ar, ela o queria por dentro. Ele sorria sem emitir som. Apenas lhe tocava: as mãos, o rosto, os cabelos. Ele a enlaçava em um transe que não hipnotiza. Apenas convence. Mordia os lábios e repetia o ato nos lábios dela. Os olhos se olhavam como adestrados círculos de líquido e reflexo. Sorriam. Mas era quase dor. Àquela altura, não se reprimiam nem se descolavam um do outro. Duas mãos unidas. Pernas nuas. Ela as erguia como serpente que não dá bote. Estava entregue. Ele se acendia como explosão de pavio imenso. E logo lhe tocava os lábios que não falam verbos. E os beijava. Ela se contraía em gesto de parto e amor ingênuo. Pedia que ele dissesse algo. Ele dizia algo. Não seja perfeito, ela dizia. Porém, ele não deixava de ser. E, de voz velada, dizia tudo que não era em decorada malícia. Ele a amava. Ela o recebia. E veio, então, o arpão. De veneno ácido, o rio adocicado corria entre as formas da mulher que ele olhava nos olhos sem temor ou receio.

— Quer conversar?

— Prefiro ir.

Desceram juntos. No elevador, ela se olhava no espelho, buscando dar jeito em seu rosto rubro. Ele estava quieto.

— Não vai acontecer de novo. Ele disse. — Coisas assim não se repetem. Preciso explicar?

Ela, bocejando de mentira, apenas disse não.

No dia seguinte, os dois se repetiam em gestos de fome na mesma cama de ontem. Sabiam que aconteceria de novo. Pois, torna-se vício o ato que entorpece lábios que devoram homens.












07 setembro 2014

fetiche











— Qual o seu fetiche?

— O quê?

Parem tudo. Abriu-se um buraco sob os pés. Um vão imenso de interrogações. A pergunta parecia se repetir mil vezes equalizadas por outras questões.

— Fetiche?

— É. Fetiche.

Saiu de fininho. Desconversou e saiu. Disse adeus, três beijos que é pra casar e tchau! Na porta, um táxi.

— Pra onde? Perguntou o homem.

Ela, pega de calça curta, ao taxista disparou.

— Pra casa, moço.

— Mas a senhora mora onde?

— Ah, tá.

Ela disse o endereço e o táxi seguiu. Encolhida ali, no banco traseiro, só pensava na pergunta. Qual o seu fetiche? Mas como nunca pensei nisso? Como pude passar tanto tempo vivendo sem saber o meu fetiche? E passavam ruas e carros. Pela janela do táxi, paisagem. E ela se sentia perdida, sem saber mais da vida. Fetiche tem a ver com sexualidade. Ok. Então, digamos que minha vida sexual tenha passado até agora sem que eu saiba qual meu fetiche. O carro avançava pelas avenidas. Ela se encolhia cada vez mais. E tentava imaginar: Homem de calça jeans. Só de jeans e sem camisa. Não. Não é fetiche. Leite condensado? Melequeira! Nunca! Homem de barba? Mulher? Não. Homem e mulher de barba? Quê? No que estou pensando? Louca. Espera. Música romântica e homem de calça jeans? Não, meu fetiche não é esse. Meia luz e olhos vendados? Meio masoquista? Sinto nada. Nem frio na espinha. Ela tentava imaginar todas as situações possíveis que revelassem algo. Pés? Mãos? Não. Também não. Ereção? Mas isso é tão comum! Não é fetiche. Beijo na boca? Parou. Sentiu frio na barriga. Mas beijo na boca tem que vir de uma pessoa específica. Não é fetiche. É amor. Ou quase amor. O taxista cantava música de igreja. Sinal fechado à frente. Fazer coisas com estranhos? Mas eu já fiz coisas com estranhos e não gostei. Senti nada. Fazer coisas com mais de uma pessoa? Não. Não gosto de confusão. É muita mão. Meu Deus, qual o meu fetiche? Falou em voz alta. O motorista ouviu. O homem pensou que a mulher talvez estivesse drogada. E soltou: 

— Gosto de fazer corrida pra gente drogada não, moça.

— Não estou tão assim, moço. 

O bom seria se estivesse. Ou bêbada. Talvez fosse mais fácil descobrir. Flores? Tentou imaginar uma cama cheia de flores. Ela e um homem. Ainda não sentia nada. Começou, então, a imaginar alguns homens que conhecia e que pensava sentir algo por eles. Aquele? Talvez tenha algo de especial no jeito de falar. Talvez eu tenha fetiche por voz. Não. Não tenho mesmo. E o tal? Pensou em um cara que havia conhecido no trabalho. Forte demais. Me dá vontade, mas não me revela nada. Pingo de vela? Iogurte nas partes? Eca. A céu aberto? Ela começa a rir. Mas nem a pau. Pau? Não gosto da sonoridade. Banho de vinho? Cabelo molhado? Sexo violento? Não, não e não! Mas como posso não saber do que gosto nas horas de gostar de fazer algo? Todo mundo tem fetiche. No entanto, eu, que achava que tinha tudo, não tenho. Carro para em frente ao portão.

— É aqui, senhora?

Ela não respondeu. Parecia inerte. Olhava pro nada. O taxista falou mais alto.

— Senhora, chegamos!

— Desculpe. Quanto deu?

Pegou o dinheiro que tinha na carteira. Dinheiro inteiro.

— Fique com o fetiche, senhor. Aliás, com o troco.

Cada louco nesse mundo, disse o taxista, que saiu arrancando e cantando pneu.

Ela ficou lá, parada. Pensando ainda. Não tinha resposta. Desistiu de pensar no tal assunto. Entrou em casa, bebeu uma caneca de leite, tomou banho de lavar cabelos, vestiu camiseta e calcinha, passou hidratante nas pernas e na cama se encolheu. Daí veio uma cócega esquisita, um frio que percorria o corpo e estalava na língua, uma umidade de se envergonhar e querer mais. Tão simples. Telefonou.

— Alô

— Que foi?

— Eu sei a resposta.

— Então, qual é?

— Meu fetiche sou eu.












01 setembro 2014

delivery








A vida de Edgar


Estava tudo por um fio. De linha, de querer morrer. O gato, Tertúlio, estava morto. A mulher, Dionísia, havia fugido. A geladeira, Brastemp, estava vazia. E, para arrematar, seu time estava na zona de rebaixamento. Era muito para Edgar aguentar. Porém, como todo bom homem, ele decidiu que seria forte. Em nome de Deus, catou um gato na rua, foi ao supermercado, enchendo, então, a geladeira de porcarias enlatadas e ligou para um serviço de acompanhantes. Mande-me uma que seja jovem, ordenou Edgar. E, neste piscar de olhos, sua vida estava novamente por um fio. A única dúvida que permanece é quem estará controlando tão precário exemplar de marionete?


(antes, ficção)








Um mês sem escrever (no blog). Daqui a pouco, irão dizer que estou desaparecida. Então, dou as caras. Talvez eu tenha medo de sumir. Admito. Mas vivo sumindo. Percebo que pratico tudo que me causa medo. Um exemplo: tenho medo da verdade. Porém, ando com a minha sempre exposta, pensando o que acho que não devo esconder de mim mesma e acreditando que estou agindo certo. E isto é um diário. Só me falta dizer o que fiz durante o dia. Já percebeu que todo mundo tem necessidade de dizer o que está fazendo da vida? Todo mundo enfatiza o que faz e deixa de fazer como prova de que não está vivendo em pleno ócio. Talvez seja pecado. O ócio. E eu, que evito religião, falo em pecado. E digo mais: não confio em gente que diz amém a cada enunciado que transmite. Há (quase) sempre muita sujeira na cabeça e na língua de quem faz isto. Ou que fala demais em Deus. É como repetir algo para si mesmo até que se possa acreditar no que se diz. Entende? No mais, percebi que a sola de um de meus sapatos favoritos está se soltando. Pensei em colar. Mas, se eu colar a sola, não será mais o mesmo sapato. Será outro. Será um sapato colado. Não gosto de enchimento, de tingimento e duvido de muita maquiagem ao meio dia. É sinal de ruga imprópria. Das leituras, li muito mês passado. Autores que conheço e autores que já morreram. Gostei de quase todos os livros. Não citarei o título. Não vejo necessidade. Um deles me tirou a paciência. Quanto mais eu lia, mais o livro se alongava. As páginas brotavam. Eu cheguei a calcular quantas páginas eu conseguia ler por dia. Decidi deixá-lo de lado. Tenho uma pilha de livros que caracterizei como "livros que desafiam minha paciência". Eu os organizo por ordem alfabética e, se o tempo permitir, irei ler todos eles quando eu estiver com maturidade suficiente para dizer que estou serena. Há desafios que suporto. Porém, há outros que eu pulo. Como se fosse um tabuleiro de jogo, eu pulo casas, escondo dados e roubo, se for preciso. Nunca fui muito honesta. Será honestidade ou santidade isto que digo não possuir? Em meio às dúvidas, parou de chover. E esqueci pessoas. Esqueci tanto que sequer as menciono. Como diria uma amiga, veja só como ela está mocinha. Estou mocinha e encabulada. Sinto mais vergonha do que vontade. E amor mais do que necessidade. E estou escrevendo para dizer que parei de apostar em cavalos. Agora só aposto em tartarugas. Pois estas sempre chegam ao destino. Cavalos, muitas vezes, se desviam no meio do caminho.