21 outubro 2014

das memórias curtas













Dia claro. Gripe forte em plena primavera. O cachorro caminha pelo jardim. Sempre com a língua de fora. Parece até que sorri. Percebo que ele está com sede e lhe mostro a tigela de água. Ele bebe. Porém, continua com a língua de fora. Dou de ombros e leio. Mario Benedetti me caiu bem. Veja como sigo seu estilo, escrevendo a respeito de coisas minhas, que nem são tão minhas. São mais retratos de uma memória curta. E ouço esta canção: Mariachi. Autoria: Ani DiFranco. Quando vejo filmes ambientados em Nova Iorque, sempre surge alguém ouvindo Ani. Gosto tanto que sequer julgo o filme. Vasculho o mundo em busca da música que tocava. Sempre fui de música, mais do que da palavra escrita. Minha vida é marcada por canções. E por pessoas. Mas, por serem mais controláveis, prefiro as canções. E era assim que eu costumava voltar do trabalho: ouvindo música e cruzando calçadas com meus passos lentos. Eu morava perto de onde ensinava inglês e adorava caminhar. Fazia isto quase todo dia. Eu adorava ver pessoas. Observava traços, gestos, ouvia suas falas como um tipo de deus distraído. Era perfeito. Parei de caminhar no dia em que um maluco tentou me acertar com uma lata. Na cabeça. Mas não foi por medo. Foi apenas por precaução. O medo não me alcança tanto. Deveria. Porém, não sinto tanto medo assim. Após desistir de caminhar, passei para os ônibus. E sempre com meus headphones me ditando palavras. Tudo era sonoro e harmonioso. Ruas, casas, sinais de trânsito. Aprendi mais em ônibus do que em conversas perdidas em alguns bares de mesas lotadas de caras carentes. E logo veio o carro. Trancada em quatro portas, movida por música e meus olhares furtivos, me sinto bem em automóveis. Mas não dirijo. Alguém sempre guia o movimento que virá. Se esquerda, direita ou linha reta. Detesto tomar partido em direções. Mas faço. Não há fuga. Agora mesmo, passo por uma prova de alta valia social. Eleições causam isto em um país cuja democracia empurra o voto garganta abaixo. Não entendo de política. Já disse isto. Mas cumpro meu papel. E dialogo a respeito. E trato bem quem quer que seja. Não me afasto daqueles que não seguem meu ponto de vista e sequer idolatro aqueles com os quais compartilho igualdade de decisão. Sou bem compreensiva. E, já com alguns fios brancos de vivências múltiplas, teço meus dias a partir das músicas que ouço. E, se por segundos o silêncio me tomar de conta, será esta a canção que ouvirei. Mas nunca o grito do Ipiranga. Estarei em minha cama. Ou andando pela sala. Ou indo ao trabalho. Mas será de música e não de palavras bárbaras que servirei meus ouvidos. Veja. Estou calma e planando em vocábulos que me levarão a dizer isto: minha liberdade é o que mais me assombra. 

19 outubro 2014

carta para ninguém











Esta é uma carta que não será enviada a ninguém. Porém, o ato de escrevê-la faz com que se torne lida. Não pelo destinatário. Mas pelas memórias que trago de tudo que perdi o rastro. Acho que foi chá de sumiço. Ou não. Ao entrar no blog de um amigo e notar que há quatro semanas não publico nada no afeto, me senti descabelada e sem jeito. Pois não vivo sem escrever. Aliás, vivo. Mas não da forma como quero. Escrevo para me enfrentar. Sou malvada demais comigo mesma e, ao me entregar às palavras, me dou um bom puxão de orelhas. Ou me convido para o mais secreto de mim. Enfim. Estive lendo. Li muito. Fiz lista dos livros que li. Desde Virginia Woolf a Osman Lins, estive lendo e me encontrando. E, dentre as obras lidas, uma me tomou atenção especial. O livro é de autoria de Jorgeana Braga. A casa do sentido vermelho. Me joguei em cada página, pois é isto que a autora me convidou a fazer: mergulhe nos sentimentos que surgirão nas páginas a seguir. Trata-se de um livro de amor. É. Amor mesmo. Personagens que amam e se deixam levar fluidos, em uma linguagem ritmada, como pensamentos que não precisam de pontuação. Assim que terminei de ler, escrevi algo. Daí, depois de escrito, guardei. Percebi isto em meu tempo de ausência. Escrever é um ato tão completo de fazer com que algo aconteça que, após deitar cada palavra em uma página, após acolher tudo, dando forma e sentido ao que antes era só pensamento e construção, a vontade que se tem é de guardar tudo. Porque já aconteceu. Estarei sendo egoísta? Talvez. Somos todos egoístas (Graças a Deus). Imagine um mundo cheio de gente altruísta e bondosa. Imaginou? Estranho, não? Sou tão egoísta que me maltrato apenas para poder, eu mesma, reparar o estrago. Mas entenda: não sou tão má quanto digo. É apenas artifício que uso para inflar ainda mais meu próprio sentido. Estamos em horário de verão e é primavera. Ou seja: nada está exato. Uma coisa se une a outra e, logo, tudo é toda coisa. Já desisti de tentar dividir-me para me entender em partes. Decidi viver de forma larga. Vasta mesmo. Calma e transparente, levada pela mais próspera paciência, espero que tudo me console de vez ou que me acabe em uma dor triste de fazer escoar cada gota de sangue que há nas veias que se enroscam nesta essência física na qual me faz de forma a natureza. Mas estou enrolando. O que gostaria mesmo de dizer nesta carta para ninguém é que sonhei com você. E foi perfeito o sonho. Ao acordar, quase telefonei. Porém, me lembrei: não tenho seu número de telefone. Nunca anotei. E nunca pedi para que me desse livre acesso ao seu mundo particular de raridades tolas. Aliás, ninguém pede permissão para isto. Mas sonhei. E, em meu sonho, foi como ter você por escrito. Belo, por mim grafado, e nítido.