13 dezembro 2015

a olho nu







De uma coisa tenho certeza:
Que bom estar errada em algum momento!
Esta é a liberdade maior. 




Dizem que publicar livro é como ter um filho. Bem, eu nunca concordei com isto. Mas devo admitir que, sempre que alguém chega pra mim e diz que este ou aquele é meu melhor livro, sinto tristeza pelos outros filhos. Não consigo ditar favoritos. É tudo livro. Também não posso afirmar isto. Pois há responsabilidade demais no ato de escrever. Seja o gênero que for, escrever é exposição, é julgamento, é tratar de assuntos que podem ou não ser levados a sério. Escrever é mais que contar história. Diante destas pequenas descobertas que fiz, e sequer tenho consciência se elas são de verdade ou apenas criação minha, passei a pisar em ovos. Eu me prendi. Falo pouco para não ser vista. A gente se expõe quando escreve. Não há outra conversa. A não ser que se trate o escrito de forma tão técnica, que o humano desapareça. Eu nunca vi isto em autor algum. Muito embora conheça poucos autores em pessoa, dos que sei, eu os vejo caminhando em seus livros. Ora uma pessoa que passa no cenário, ora uma sentença ou espasmo, ora uma situação vivida. Estão quase todos ali, acordados e tímidos. Ou exibidos. Há sempre o outro lado da história, na qual o autor se deixa a olho nu. Quando me pedem conselhos sobre escrever, algo que raramente ocorre, digo apenas que se escreva. Porque não sei mesmo o que dizer. Antes eu julgava saber. Eu aconselhava tudo, desde a forma de adestrar palavra, ao tema que se abordava, eu dizia minhas bobagens. Hoje eu não digo muita coisa. Elogio quando gosto de algo que leio e, quando não gosto, elogio do mesmo jeito. Quem sou eu para julgar? Tenho visto tanta vaidade entre escritores que já pensei em mudar de rumo. Pois, embora eu seja vaidosa, não tenho tato para me achar diferente, a máxima eloquente, a voz maior dentre os vulgares. Há tanto grito no meio literário que qualquer suspiro pode ser considerado feio, mal escrito, coisa de metido que nunca escreveu. Não é fácil ser escritor. Aliás, não deveria mesmo ser. Autores se encarregam disto. De riso na boca, tão engolidores de espadas, estão sempre certos. Sempre eretos e dignos. Autores estão sempre com a razão. E fazem propaganda do que escrevem como se fosse horário nobre da televisão. Meu conselho a quem escreve? Sinceramente? Cuidado com os degraus ao pisar e não olhar para o chão.









03 dezembro 2015

interminável assédio







Às vezes, nos preocupamos tanto em dar satisfações que nos esquecemos de nos satisfazer. Vou escrever curto. Como um surto. Roubo do acaso. Coisa que se quer dizer, mas que nunca se diz. Deixei de acreditar nisto. Nesta coisa de inferno astral. Agora só acredito em números exatos e palavras escritas, que não são fugidias, visto suas dimensões no papel. País em crise e dizem: há golpe. De direita ou esquerda? E quando daremos a outra face? Pergunto ao homem que pressiona botões no elevador. São estes os diálogos mais verdadeiros. Estes que são ausentes de interesse ou vaidade. Toda coisa dita sem ensaio é a coisa real e explícita. O homem desce. O elevador fica vazio. Somente eu e o espelho nos observamos. Lembro-me do amor que sentia. Amor por tudo. Hoje, não sinto. O sol secou o sentido de meus afetos. Chego, enfim, ao andar que é destino, assino papéis e que bobagem me importar com o que sinto. E ainda há esta mania de relatar minha vida para estranhos. Eu começo, sentada em poltrona vermelha, e muito besta acreditando que irei mentir. Primeiro digo que respeito a faixa de pedestres. E acrescento: respeito pessoas também. Não todas, ouso admitir. Respeito pessoas que mal conheço. E, quanto as que conheço, juro amor e nunca apareço. Um lenço para fingir que se está chorando. Tão ruim quanto remédio obrigatório, em gotas, me faço suportar. Disto eu me acerto. Entende? Destes problemas que escondo. Me acerto ─ em cheio. Meu delito maior, me acredite, é dizer que tenho tempo, quando, de fato, nem relógios eu aguento. O despertador é o único que está sempre correto. Ele me sacode da cama. Tão enérgico. É interminável o assédio. Eu acordo como quem morre. Nua e deplorável. Egoísta e esgotada. Na contramão da obediência. Exploro e analiso segredos alheios, e me darei ao favor de usá-los em meu próximo ato. Jogarei tudo fora em conversas que nada rendem. Como estas conversas que travamos em elevadores ou coletivos, para passar o tempo que passa. Conversas que nada me fazem sentir. Será esta a inquietude que assalta todos? Se meus amigos sofrem? Amigos se refazem. Amigos são efêmeros. Amigos? À merda. Sou bastante gentil e pago tudo em dia. Mesmo quando meu humor é ácido bactericida, sou alegrinha flor cheia de vida. E minha vingança nunca é tardia. O único passo em falso é a preguiça. De resto, sou mera ilustração de cartilha.









19 julho 2015

imaginários







Talvez seja isto. Querer tanto algo e, ao perceber que não se poder possuir, este algo se torne seu. Em algum lugar que ninguém possa descobrir, você o possui. Em sonho. Em imaginário. Você possui algo. O alvo que causou noites de insônia, depressões, arrepios e dormência nas mãos. Apenas ter. E sentir-se vitorioso. No silêncio e solidão. Você, ao lado daquilo que possui. Já não se pode ter conversas sinceras com ninguém, pois todos sabem o que dizer. Todos respondem. Todos dizem o que pensam. Ninguém se atreve a calar a boca. E isto é perigoso. O silêncio da resposta não vinda é o que nos faz alimentar nossa curiosidade, nossa busca por aprendizagem. Há tempos não ouço Eu Não Sei como resposta. Se digo algo de política, recebo resposta. Se menciono coisas sobre astrologia, recebo respostas agudas, sejam de crítica, sejam de mera constatação. Todos sabem de tudo. Falam muito de apocalipse, de guerras, de crimes, de sexo, de escolha, de filho e adoção. Todos dizem tudo e me pergunto: o que mais me resta fazer se todas as respostas já existem? Estou a ver navios. Porque admito que não saber da metade das coisas que os outros sabem. Respondo: Não sei. E o olhar medonho se forma na cara da criatura que me escuta. Percebo o quanto sou ingênua por não saber. E tanto me orgulho. Dizer que não se sabe de algo é como carregar peso algum. Vejo o clima que está se formando. A Europa se expande em mapa na parede do quarto. Não entendo as linhas que cruzam países. São invisíveis. Assim como é invisível o assunto do qual nada digo a respeito. Porém, ele existe. Nada posso contra isto. As unhas crescidas demais e os cabelos lavados em água quente. Não há poema que liberte mais do que o silêncio. E dois comprimidos à noite para dormir tal qual um anjo delinquente. Por gentileza, vide o verso de meus labores antecedentes.










14 junho 2015

ponto cego









É correria demais. Vou deixar a palavra correr sem que eu pense sobre todas as coisas. Vou deixar solta a corrente que trava, de tal maneira, a gente que sou. Prisioneira de espaço comum.






Eu tenho uma agenda na qual só escrevo quando vou ao médico. Faço isto para fatiar o que penso. Para não causar confusão, muito embora escrever seja um ato confuso de observação e silêncio. Mas, voltando. Consultório médico tem algo de partida e chegada. Sempre que vou a uma consulta, sinto que algo novo está para me visitar. Algo que, às vezes, vem de outras pessoas e não somente de mim. Semana passada (não uso datas para não prender a narrativa em um canto único), fui ao médico e tive a chance de sentar-me ao lado de um moça muito agradável em seus modos e sorriso. Percebi que ela estava aflita e ansiosa à espera do resultado do exame que havia feito. Mas, mesmo assim, trocou algumas palavras comigo. Falamos da novela que estava passando na TV. Falamos dos atores. Das atrizes. Elogiamos cortes de cabelo, roupas e criticamos a programação para crianças. Questionamos a maneira como notícias abusam da tristeza alheia e também do tom sarcástico que alguns apresentadores possuem ao noticiarem acerca de política. A recepcionista do local também entrou na conversa. De repente, a novela não era mais novela. Era nossa vida, com seus altos e baixos, com suas cenas sem graça e seus amores opacos. Amor é sempre um tema que rende (tanto em conversa quanto em escrito). Falamos muito, a moça que esperava o exame, a recepcionista e eu. Admito que meus pensamentos estavam presos em mim mesma. Eu estava um pouco tensa por estar ali. Eu falava com outras pessoas, mas me deixava flutuar para minha bolha de preocupações excêntricas. Era como estar presa. E a conversa continuou até o momento em que a moça de sorriso calmo recebeu seu exame, disse até logo e partiu. Continuei conversando com a recepcionista, falando disto e daquilo, quando outra paciente se voltou para mim e perguntou se a moça que acabara de sair aparentava estar triste. Eu disse que não. A mulher continuou sua fala e disse que a moça de sorriso calmo estava preocupada porque o médico não havia conseguido ouvir os batimentos cardíacos do bebê que ela estava esperando. Neste momento, minha bolha de excentricidades se rompeu em pequenas partículas de vergonha e compaixão. É preciso ser o outro, pensei. De vez em quando.








02 maio 2015

letra escarlate








Clássico da Literatura. A letra Escarlate. Hawthorne. Li quando cursava Letras. Entre uma aula e outra, eu me isolava de tudo, sentava em um daqueles bancos cercados de gatos da Praça da Alegria, e lia. Só. Depois disso, eu voltava para a sala de aula (ou não), ouvia algumas teorias, redigia resenhas e olhava pela janela. Hoje, após ter me formado professora, ainda olho pela janela. E o que vejo é o trem que passa. Vejo pessoas cruzarem os trilhos sujos a caminho do trabalho e alguns adolescentes ficam lá, sentados perto da estação de trem como quem espera nada. Algumas pessoas simplesmente não esperam nada. E isto é comum. Talvez seja proteção. Ou excesso de ignorância. Não sei. Por falar em esperar, prometi livros a um amigo que mora em Portugal. Ainda não enviei. Isto me enche de culpa. Porém, também me faz sentir bem. Pois é motivo para continuar acreditando que terei algo para fazer amanhã. Ou depois. Dizem que livro é como filho. Eu digo que não. Livro não precisa de abraço, de amor, de colo, de comida, de casa, de plano de saúde, de escola, de roupa, de sapato, de conversa, de luz acesa noite inteira para que monstros não surjam no quarto em que dorme o filho. Livro precisa de leitor que, por sua vez, precisa das mesmas coisas das quais um filho precisa. Logo, leitor é como filho. Não gosto de dizer que pari um livro. Embora muitos se refiram a escritos desta forma, dizendo que pariu filho e que ele já está na praça, prefiro dizer que livro é livro. Coisa de se ler. E sempre que o abrimos, encaramos conceitos. Livro bom, livro ruim, livro escrito por homem, livro escrito por mulher. São muitos. Por esta razão, talvez seja preciso largar a ideia primária de conceito e abrir um livro como quem abre um baú à espera de algum segredo. Esqueça o gênero. Estou pagando pecados por ter nascido mulher e, mais que tudo, por escrever. Não sou Hester Prynne (longe de mim querer ser), mas me assemelho. Carrego um cartaz que diz: autora de livros. No entanto, preciso me defender e dizer que vou ao banheiro todos os dias, sinto remorso, não vivo com a cabeça na lua e fico doente. Sou humana. Parece antigo tocar neste assunto, mas acontece. Há tanto machismo na literatura quanto nas ruas nas quais transitam belas moças de saia curta. É isto. Hoje eu só queria dizer estas palavras. E outras. Porém, prefiro guardá-las. Feliz e acontecida, enfrentando meus dragões, escrevo com o mesmo afeto com o qual beijo, desenfreada de amor.










12 abril 2015

aos domingos








Tentarei escrever aos domingos. Digo que tentarei, pois escrever é sempre uma tentativa. Ou talvez seja um ato meramente impulsivo. Uma vontade de ser visto. Que seja. Acordo e dou de cara com a política nos ouvidos. Não posso dizer que não me importo. Eu me importo. E de uma forma tão imensa que sequer opino. Tenho medo de dar com a língua nos dentes. Estamos em tempos de perseguição. Tudo o que você diz pode e será usado contra você. E ainda falam em ditadura militar. Meu país é barco náufrago. Percebi isto ao fazer as unhas. A cada unha pintada, uma dor pacífica se instalava em mim. Eu convivo com ela sempre. Uma dor que não é aguda ou grave. É dor. Vejo cenas na TV. Reclamo muito dos canais. Porém, não me desato deles. Sou a pior viciada que há. Não acredito na rede globo e também não acredito naqueles que gritam contra ela. Para mim, é tudo vontade de chamar atenção. Neste tempo, de barcos náufragos, todos querem atenção para si. Talvez, por esta razão, tantas pessoas morem sozinhas em apartamentos lotados de móveis sem uso. Eu tenho um aparador que não apara nada. Não moro em apartamento, mas tenho coisas das quais não faço uso devido. Tenho um baú no qual eu guardo um abajur de cúpula marrom. Veja só. Um baú deveria comportar muitas coisas. No entanto, o meu só comporta um abajur. O baú e o abajur. A escuridão e a luz. Eu deveria usar o baú para guardar outras coisas e dar uma chance de existência ao abajur. Ou talvez eu devesse dá-lo de presente. Tome este abajur. Faça com que ele exista. Mas não. Mantenho o objeto estagnado dentro de um baú. Sou desumana com todas as coisas. Aliás, há um exceção. Eu não sou desumana com meu filho. E ele não é coisa. Ele é nome e pessoa. Do ventre, minha obra de arte. Acerca do pai? Não gosto de citar meus segredos. São meus. E a ninguém darei a chance de conhecê-los.











26 fevereiro 2015

savana de esconderijos











Telefonava-me todos os dias. Hoje eu admito que não vislumbro razão. Contudo, na época de seus telefonemas, contentava-me em demasia aquela voz risonha de canto triste que me dizia coisas. Ligava-me em seus intervalos de cafezinhos e cigarros. E como mentia... Eu sabia quando ele estava mentindo. Pois, muito embora entre nós não houvesse combinação, nossas invenções eram recíprocas. Ele mentia ou inventava que seu trabalho, de preencher papéis e aturar patrão no percalço, era, entre muitos labores, o mais aliviado. E eu ouvia. Com o tempo, aprendi a decifrar sons. Isqueiro que acendia, dedos que deslizavam pela barba e até choro contido. Ele lutava tanto para esconder o que, até esta data, não faço ideia. Contava-me de sua mãe e de uma irmã com quem morava. Falava das duas de maneira tão intensa que, em minhas invenções, passei a conhecê-las. E dizia dos filhos coisas tão belas. De tais palavras, eu avistava verdade. Mas, de todo o resto, eu sabia que era rugido de bicho preso em savana de esconderijos. Ele ria tentador. E eu, sonsa, também ria. Dizíamos que sentíamos amor um pelo outro. Um amor puro, sem cobranças ou retaliações. No entanto, brigávamos por ciúme. Vez ou outra. Eu gostava quando ele me telefonava para narrar a cidade. De forma muito peculiar ele o fazia. Falava de homens de terno, de mendigos, de mulheres que passavam. Contava o número de pessoas com as quais topava entre as esquinas. Gargalhava ao relatar algo que lhe havia acontecido: uma festa, um porre de bebida, uma verdade esquecida. Era bom ouvir. Aquecia-me a alma que, atordoada, nas solitárias horas da manhã, servia-se de qualquer palavra como companhia. Isto durou cerca de um ano. Chegou o tempo em que ele se deixou mudo, eu me tornei fugidia e o telefone nunca mais tocou. Porém, ainda me lembro das mentiras. E sorrio ao pensar que talvez este tenha sido um dos mais verdadeiros casos de amor que tive na vida. E eu o vivi, até onde podia.








18 fevereiro 2015

a ordenha









Lonjuras, tonturas, poemas. Não tenho um álbum de fotografias. Isto me incomoda. Não ter um álbum de fotografias é como não ter passado. Pela vida. Tento arrumar os cabelos. Dois fios brancos saltam como pequenas ovelhas brancas em um rebanho negro. Apenas lembro: sentamos, um ao lado do outro, e fumamos. Em silêncio. Nada dissemos. Olhávamos o céu e um par de crianças que sorriam. Ele tocou minha mão e balbuciou algo que fiz questão de não entender para poder estar, hoje, relembrando a cena e sofrendo por não ter guardado a palavra. Não tenho um álbum de fotografias. Mas tenho isto. Estas imagens gratuitas de vida e liberdade. Tudo na cabeça. Na mesma cabeça que ostenta um corte de cabelo estranho e dois fios de cabelos brancos que são ovelhas brancas em um rebanho negro. Engraçado mencionar ovelhas. Me faz pensar em religião. Deus, ateus e santos. Gosto de imagens, mas nunca me aproximo delas. Tenho medo. Elas me olham como se me julgassem. Há pouco ele me abraçou e disse "te amo e você sabe que é muito". Penso: quanto é muito? Até onde vai? Tenho problemas com quantidades e distâncias. Por isso, nunca dirijo. Velocidade, quilômetros, passantes... tudo me desacerta. Tenho medo de me expandir e ultrapassar limites. Então, não bebo. Nada alcoólico. Prefiro o lúcido caprichar de minhas atitudes medianas. Evito o profundo. Eu luto contra o mergulho. Talvez, por este motivo, eu não tenha um álbum de fotografias. Mantenho tudo guardado em minhas ondas lufadas de orgulho. Passearemos mais tarde. Fumar não tem mais graça. Sexo é quadrado. E, no carro, cantarei para animá-lo. É o que faço. Tão ágil e áspera quanto a língua de um gato.












03 fevereiro 2015

serenos










Para Cleidinaldo, o músico
E para Lenice, a doce Margot,
que estão mais vivos do que nunca.

(vida sempre)







Dois anos atrás, se não me engano, deixei claro que não sabia escrever homenagens póstumas. Fico sem jeito. Somem palavras. Me sinto mal educada ao verbalizar condolências. Sou estranha mesmo. E, de tão assim, acabo me tornando comum. Sou tão pessoa que nunca achei que as dores vizinhas fossem me pegar de jeito. Mas pegaram. É, Mané, penso eu, — Sua vida é como a vida de todo mundo. Em uma semana, pasme você, a morte, a tal obrigatoriedade que nasce com a gente, fez questão de pousar no telhado duas vezes em um período muito curto. Embora eu não saiba contar tempo, acredito que tenha sido curto. Primeiro, partiu o músico, marido de minha irmã Giovana. Ela me ligou, às 7 da noite, em pleno sábado, dia em que pessoas curtem baladas e fazem festa, e, chorando, me disse que meu cunhado havia sofrido um acidente. Não me aguentei. Chorei sem fim. Mas como assim? Pensei que acidentes só acontecessem com os outros! Mas não. Aconteceu com a gente. Após receber a notícia, nos encontramos todos na casa de minha irmã. A família inteira. Fizemos vigília. Minhas irmãs, sobrinhos e eu passamos a noite tentando entender, tentando não chorar muito e tentando sorrir lembrando das boas memórias que o músico havia deixado. E os dias passaram. Entre orações, lágrimas e muita esperança em tempos melhores, havia ainda outra dor. Lenice, minha sogra (que era mais amiga que qualquer outra coisa), por estar muito doente, lutando pela vida na UTI de um hospital desta cidade, também partiu. Às 7 da noite, em pleno sábado, dia em que pessoas curtem baladas e fazem festa, ela fechou os olhos para este mundo e os abriu para outro. Descansou. De novo, outra vigília, mais orações e muitas lágrimas. Duas famílias se tornaram uma só e se uniram em outro domingo para enfrentar outro funeral. Sim, outro. Foram dois em uma semana. Mórbido? Eu cheguei a pensar que fosse. Cheguei a pensar mil coisas. Pedi a Deus uma trégua, um tempo de pausa, para que a gente pudesse e possa viver mais feliz. Sim, eu acredito em Deus. Acredito em muitas coisas. Algumas são muito tolas. Outras, nem tanto. Passei dias e horas tentando entender que mistério havia em tudo para que sofrêssemos tanto. Até este momento, ainda me pergunto. Aliás, não mais. Estou serena. Porque minha família está serena. Porque a morte é passagem. Porque faz parte. Se iremos nos acostumar? Não sei. Se um "urubu pousou na minha sorte"? Claro que não. Morte não é praga de inimigo, nem castigo. Agora sei que é o início. Se posso explicar? Claro que não. É mistério. É fé. É ter forças para aguentar. Com a morte, lhe digo, aprendi uma lição muito bela. Mas prefiro guardar o segredo. Não sei dizer. Apenas sinto. E quando não atendo telefonemas de amigos, aqueles que sabem pelo que está passando minha família, é porque o silêncio me abriga e me traz sabedoria. Não muita. Mas a necessária para que eu entenda que, a despeito de tudo, há vida. E ela está aqui, aí, acolá. É tempo de trégua, eu sinto. Tempo de aprender a amar. Clichê? Sou. E estou bem. Faz calor, já passa da meia-noite e o vigia anuncia que está guardando nossas casas. Tomarei uma xícara de chá e dormirei. E amanhã pretendo trabalhar.








28 janeiro 2015

vitalícia









Chorando por amor? Faça não. Chore pela conta de luz, que veio estourada de consumo algum. Ou chore pelas criancinhas. Mas cada um tem seus motivos. Cada um chora pelo que lhe dói. Cada um é um sujeito egoísta, que lambe as mãos dos que lhe podem trazer benefício. Votei errado e agora pago. Quanto? Tudo. É um assalto. Lágrima seca no canto dos olhos. Na tevê, big brother não faz efeito. Mas há quem acredite que a tenda do circo é verdadeira, e não mero artifício para imbecilizar sentidos. Não assisto. Do controle remoto, faço uso vitalício. Pulo canais em busca de algo que afague. Alma cansada e mente irada. Padeço de raiva. Minha ira, esta que explode, é benevolente. Cura até dor de dente. Acredite. De ambíguo, estou até o talo de minha paciência. Leio tudo e ainda duvido. Ou creio. Use o verbo que quiser. Vejo pessoas cultas, muito mais que extraordinárias, citarem ancestrais em seus círculos. Pessoas que adoram o passado, mas que enchem de produtos dietéticos suas geladeiras. Barroco, Rococó — Espie só como esta técnica lhe cai bem. Romantismo que não liberta. Ostracismo que causa inveja. Esta é a dieta. Falam em bibliotecas para escolas, mas veja bem para quem escrevem. Concursos, críticos, anarquistas conversadores do século retrasado. De All Star e jeans rasgados eles marcham. E em mim ainda habitam sorridentes as duas velhinhas fofoqueiras que falam mal de todos mesmo que estejam de joelhos dentro da santa igreja. 










23 janeiro 2015

misérias mínimas









O perfeccionista é o último a lavar as mãos.

(Flora Conduta)






Virginia Woolf está me matando. De página em página, caio em receios mais tensos que meus desejos intrigados. Perco peso e senso de direção quando leio Ao Farol, narrativa cujos personagens morrem e renascem ao ir e vir de barcos e ondas que o tempo engole. Lily Briscoe já envelheceu e rejuvenesceu mais de muitas vezes. Na contracapa alguém diz que se trata de uma obra super prima da literatura. O super é meu. O resto, é coisa de editora. Não sei de todas as coisas, mas, das poucas que sei, me atrevo a dizer que sei muito. E digo, com a cara de pau típica com a qual atravesso a rua, que estou estranha. Aranha de vulva vulgar. Trapaceio o medo ao arrancar da ferida sua casca. Esta é a dor. Enfrente-a. Não curto oblíquos e canso muito fácil de gente que fala muito. Outro dia, em um hotel, fugi da camareira. Percebi que ela iria entrar em alguma conversa. Talvez falasse dos filhos, da família, do gás de cozinha. E a culpa foi toda minha. A mulher estava séria e calada, até que eu, a impostora de mim mesma, abri meu sorriso de gentilezas. Este é o perigo. Não quer ouvir, tente não falar. Burra! A camareira fez seu trato com a linguagem falada e narrou parte de seu dia. Eu a ouvi como quem espera por um ônibus enquanto conversa com algum estranho. Usei muito sim e muito eu entendo. Só que, de verdade, eu não entendo nada. Não sei de misérias mínimas e pouco me adentro no máximo das aflições. Vou rasteira em tudo que vivo. Pois, de uns tempos pra cá, nos profundos eu não respiro. E quanto ao livro, irei terminar.












16 janeiro 2015

sol, névoa e algum verão









Verão. Faz sol. Mais que chuva. E venho por meio deste (texto?) falar de um livro. Ano passado estive ausente de minhas crônicas porque senti necessidade de escrever algo que se alargasse em tamanho. Embora existam contos mais longos que novelas ou outros gêneros textuais, eu quis escrever um romance. Talvez eu tenha sido atacada pela vaidade máxima que se apodera de alguns autores. Ou talvez tenha sido por uma vontade simples; como ir ao cinema ou molhar as plantas. É isto. Eu escrevi um romance porque senti vontade de molhar as plantas. A diferença está na elaboração da tarefa. Mas não irei falar sobre escrever romances ou dar dicas e cometer o pecado de dizer que foi fácil ou difícil. Apenas foi. Por alguns dias, me sentei por duas horas ou mais, e me deixei levar por uma história simples, mas que precisava ser contada. Um personagem crescia diante do outro, um conflito surgia a cada passo em que eu me deixava contar o que estava para acontecer. Não foi truque de mágica ou genialidade. Eu quis contar a história que intitulei de Sol e Névoa. E, em minha busca incansável por disciplina, pois sinto dificuldade extrema de seguir comandos ou regras, precisei, para escrever este livro, camuflar minha própria preguiça e deixar que enunciados fluíssem, que o enredo se estendesse além de minha vontade de cortá-lo (por pressa e imaturidade como autora). Então, foi em 2014. Surgiram personagens e tentei, com todo cuidado, moldá-los ao que a história pedia. Mas será que história pede alguma coisa? Será que escrever é mais ato mecânico do que intuitivo? Estas perguntas me perseguem. Porém, não mais que a vontade de escrever e criar, no íntimo de nossos dias, algo que seja lido. Não escrevo para mim mesma. Escrevo para um leitor, que pode ou não gostar do que lê. Mas é só desta forma que o círculo se completa. Só molhamos as plantas que existem. Comparação estranha esta. Mas é isto. Sol e Névoa é romance de beijo na boca e canções. O enredo ocorre assim como correm os dias. Não há terceiras intenções. Mas há segundas, que só virão à tona ao virar das páginas, sob o desassossego admirável de cada linha.






Sol e Névoa, romance publicado em 2015, pela Editora Penalux.
Autora: Letícia Palmeira (uma mulher comum)

Caso queira saber mais do escrito, clique AQUI.
Para adquirir o livro, há o site da editora.







Aos leitores e amigos, minha gratidão.
Sempre.